EDUCAÇÃO ESPIRITUAL E DIREITOS HUMANOS

 

De 26 a 29 de maio aconteceu em Suzano, São Paulo, o 1º Simpósio Brasileiro de Justiça Social do Exército de Salvação, tratando do tema “Direitos Humanos, Espiritualidade e Cultura de Violência”. O encontro foi assessorado pelos Drs. James Read, da Booth University (Canadá), e Gilbraz Aragão, da UNICAP (Brasil). Cerca de cem pessoas estrategicamente recrutadas na Igreja, de todas as partes do país, incluindo os seus quadros dirigentes, estiveram refletindo em grupos e plenários, a partir de palestras e testemunhos, sobre como assumir os direitos humanos não apenas para aproximar os setores de ação social dos clamores do mundo, passando de ações caritativas para ações de promoção e transformação social, mas também como uma dinâmica pedagógica interna para converter a estrutura institucional, transformando os próprios núcleos eclesiais em vivências ou escolas de direitos humanos. As conclusões indicaram que se deve aceitar as provocações humanistas e modernas do movimento de direitos humanos, mas também provocá-lo em suas limitações individualistas e racionalistas.

Esse Simpósio em São Paulo foi coordenado por Maruilson Souza, Major do Exército de Salvação que trabalhou em Pernambuco, estudou na Católica e participou ativamente do nosso Observatório das Religiões, tendo inclusive defendido dissertação no Programa de Ciências da Religião da UNICAP, que está publicada com o título “Teologia das (e para além das) religiões” (São Paulo: Associação de Ensino Metodista Livre, 2015). Maruilson atualmente é o Secretário Nacional de Educação e dirige o Seminário Teológico do Exército de Salvação, em São Paulo. No caderno do Simpósio, a sua apresentação buscou sensibilizar para a temática lembrando desafios sociais como corrupção, intolerância religiosa, tráfico de pessoas, violência social (especialmente contra a mulher), e estabelecendo um confronto: “… Entretanto, quando se olha para a conjuntura eclesiástica brasileira e latino-americana, o que sobressai são ênfases exageradas no crescimento numérico, na prosperidade, no resultado, na notoriedade e em personalidades”. A apresentação do caderno conclui citando Dom Paulo Evaristo Arns: “… Ser cristão é trabalhar para que haja justiça e solidariedade em todos os lugares”.

Em meio aos debates, foi destacado que a religião ou a espiritualidade, como pedagogia para uma mística da relação e do diálogo, está entre a educação e o amor, podendo colaborar para a ampliação da nossa ótica sobre a realidade e, em decorrência, para as fronteiras da nossa ética, para o acolhimento dos diretos dos outros: porque a gente cuida amorosamente daquilo que reconhece como relacionado, envolvido. Foi lembrado também que as tradições espirituais da humanidade são, ainda que inconsciente e contraditoriamente, as melhores guardiãs de um consenso mínimo entre os humanos acerca de um núcleo ético-mítico, de valores e sentidos, sem o qual não se poderá construir culturas de paz: os símbolos religiosos, quando bem interpretados, recordam que devemos todos respeitar um poder criador que nos antecede e ultrapassa. As religiões, pois, podem ser a melhor re-ligação com a nossa origem e destino comuns, capazes de conscientizar projetos comunitários de convivência, em torno a uma “regra de ouro” que tem sido mantida em muitas tradições há milhares de anos: aquilo que você não quer que seja feito a você, não o faça a outros, ou, afirmativamente, aquilo que você quer que lhe seja feito, faça-o aos outros.

Outro ponto importante salientado nas discussões, que aprofundaram a colaboração das Igrejas cristãs para o enfrentamento das violências sociais e a construção de “culturas de paz”, foi que Jesus gostava de distinguir a “sua paz” da “paz do mundo”, chegando a dizer claramente que não veio “trazer a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). E “quem não tiver uma, venda a sua túnica para comprá-la” (Lc 22, 36). Mais do que inação e resignação, portanto, a paz é uma tarefa de constante desenvolvimento. O caminho para sua obtenção deve ser precisamente o de criar uma sociedade mais justa e igualitária, na qual as pessoas possam viver dignamente como irmãos. As experiências de diálogo, justiça e misericórdia dentro das Igrejas e entre as religiões, então, constituem o seu melhor contributo para um mundo de paz.

O Exército de Salvação aparece muito em filmes, em que suas bandinhas estão pelas ruas em noites frias animando os pobres e arrecadando donativos para assistência social. Mas o Simpósio mostrou que há muito mais que isso nessa história: grupos que promovem crianças e velhos em comunidades, que acolhem profissionais do sexo em situação de rua, que cuidam de portadores de deficiência na periferia. Em verdade, trata-se de  uma Igreja cristã protestante (que reformou o metodismo, que por sua vez reformou o anglicanismo, que reformou o catolicismo) e uma das maiores instituições de caridade do mundo. Foi fundado em 1865 por William Booth juntamente com a esposa, Catherine Mumford, em Londres, no auge da Revolução Industrial. Atua hoje em 126 países através de igrejas, abrigos, centros comunitários, hospitais e escolas. No Brasil a instituição chegou em 1922 e sua Sede Nacional fica em São Paulo e a Regional para o Nordeste na cidade de Recife.

De 2007 a 2012 o Exército de Salvação travou conversações ecumênicas com a Igreja Católica, envolvendo comissões teológicas que trataram, em sessões na Inglaterra e no Vaticano, dos assuntos de fé e revelação, salvação e santificação, natureza da Igreja e justiça social, missão e cooperação. As conclusões e recomendações foram apresentadas no belo livro “Conversations with the catholic church” (London: Salvation Books, 2014). O Simpósio brasileiro em São Paulo foi também uma mostra de que esse diálogo é possível e salutar: além da presença do Professor Gilbraz na assessoria, havia assistentes sociais católicas que trabalham nos serviços do “Exército”. Estamos todos muito contentes com o evento, portanto, e com o fortalecimento dos laços entre católicos e salvacionistas, em vista de mais justiça e paz no mundo.

 

 

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Liberdade religiosa e direitos humanos

 

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