EXPERIÊNCIAS DE SAGRADO FAVORECEM DIÁLOGO?!

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23 de abril, dia emblemático de divindades guerreiras, de São Jorge e/ou Ogum, vamos receber o filósofo francês Jean-Jacques Wunenburger, das 17 às 19h, na sala 5 do bloco G4 da UNICAP, para uma conferência sobre sagrado e diálogo. A via do imaginário místico facilita ou atrapalha o diálogo inter-religioso? As experiências do que as culturas consideram como sagrado, em suas tradições espirituais, religiosas e não religiosas, favorecem ou (pela sua ambivalência, de regime diurno ou noturno, de conotação simbólica ou diabólica) acabam atrapalhando o diálogo entre as pessoas de diferentes grupos e culturas?!

Wunenburguer, que já esteve entre nós para conversar sobre o segredo e sobre a educação, é professor de Filosofia na Universidade Jean Moulin / Lyon 3, onde também é diretor do Serviço de Relações Internacionais. Especialista nos sistemas simbólicos, é vice-líder do grupo de Estudos sobre Comunicação e Imaginário – Imaginalis/CNPq/UFRGS, presidente da Associação Internacional Gaston Bachelard, da Associação dos Amigos de Gilbert Durand e do Centro Internacional de Pesquisas sobre o Imaginário (CRI2i).

Publicou cerca de 300 títulos entre livros, organização de livros, artigos, prefácios e entrevistas. Em língua portuguesa, dispomos dos seguintes livros de sua autoria: A razão contraditória. Lisboa, Instituto Piaget, 1995; Metodologia filosófica. São Paulo, Martins Fontes, 2002; O homem na era da televisão. São Paulo, Ed. Loyola, 2005; Uma utopia da razão. Lisboa, Instituto Piaget, 2003; e O imaginário. São Paulo, Ed Loyola, 2007.

A temática do sagrado, por seu turno, é tão importante quanto polêmica nos estudos de religião. Sagrado é todo objeto ou pessoa, tempo ou espaço, que ganha caráter simbólico e abre um portal para a experiência do divino, da transcendência, da santidade. Quem se inicia na área pode encontrar títulos sugestivos como Deixar-se tocar pelo sagrado ou O sagrado na história religiosa da humanidade. Em nossas pesquisas sobre transdisciplinaridade e diálogo, Luiz Eduardo Berni escreveu sobre O vortex sagrado-profano, e o próprio Basarab Nicolescu tratou de Le tiers et le sacré, além de organizar um livro sobre Le sacré aujourd’hui. Tem uma turma francesa que anda revisitando o conceito de sagrado para aplicá-lo, qual substância aglutinante e reveladora, em novas compreensões dos fenômenos religiosos.

Camille Tarot escreveu um livro de 900 páginas, Le symbolique et le sacré, théories de la religion (La Découverte, 2008; veja aqui sumário e prefácio), onde confronta oito dos principais autores franceses que se dividiram em duas correntes na interpretação mais subjetiva/simbólica ou mais coletiva/sacralizadora da religiosidade humana. Mas há toda uma tradição francesa de perspectiva universalista na consideração (de uma essência fenomenológica) das experiências religiosas: Roger Caillois. L’homme et le sacré, réédition: Gallimard, 1990; Jacques Ellul. Les nouveaux possédés, réédition: Les Mille et une nuits, 2003; Albert Assaraf. Le sacré, une force quantifiable? Médium, no 7, 2006; Fernand Schwarz. Le sacré camouflé: Éd. Cabedita, 2014; e o próprio Jean-Jacques Wunenburger. Le sacré: Presses Universitaires de France, 2019.

Já a tradição alemã na área, mais contextualista, tem certas reservas com o conceito de sagrado e a sua fenomenologia, como explica o nosso Frank Usarski  neste vídeo e também se pode ver nestes artigos: Os enganos sobre o sagrado; As ciências da religião numa perspectiva intercultural; e na resenha O sagrado como problema. Talvez essas disputas entre os estudos de religião mais explicativos ou mais interpretativos, envolvendo a questão da pertinência e sentido de sagrado, escondam uma discussão mais antiga, via Escola de Chicago, entre Mircea Eliade e Joaquim Wach, na formação do nosso campo de estudos e pesquisas.

Mas o que pensa, afinal, o nosso convidado? No seu “Le sacré”, o professor Jean-Jacques lembra o medo de que um “crepúsculo da razão” possa seguir-se a certa revanche do sagrado, recordando ao mesmo tempo que a razão política e a razão científica também sufocaram a liberdade humana nos últimos duzentos anos. Ele conclui se perguntando: “Precisamos nos contentar hoje, como muitos pensam, com uma forma mínima do sagrado, aceitável por todos, e reduzido à sua dimensão ética (direitos humanos, bioética, sobrevivência da humanidade), e que serviria de ponto de convergência entre consciências religiosas e consciências a-religiosas? Precisamos reduzir assim a vocação e o destino do monoteísmo? E podemos então eliminar um sagrado cósmico que já foi depurado pelas religiões do Livro? Em todo caso, o futuro do sagrado dependerá da capacidade do humano se reorientar por uma meta-história, em se colocar na escuta de um Sentido, ao mesmo tempo próximo e distante” (p. 125).

Ultimamente, e a propósito, o professor publicou artigo na Concilium sobre “Interreligious epistemoligical and hermneutic paradigms“. Vamos ver, então, quais as novidade que Wunenburger vai nos trazer “de Paris”, aproveitar para trocar dados e teorias com o grande filósofo da religião e do imaginário, para discutir se as experiências de sagrado, afinal, promovem diálogo entre os humanos – ou tendem a circunscrever campos de sangue entre a gente!

Pra saber mais:

Veja a conferência aqui no Face

Veja aqui no Blog reflexão sobre métodos nos estudos de religião

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