OBSERVATÓRIO DA UNICAP EM MATÉRIA DO JORNAL LE MONDE

recifeA Universidade Católica de Pernambuco apareceu na imprensa internacional. É que o prestigioso jornal francês “Le Monde”, por ocasião da cobertura da Copa do Mundo de futebol em 2014, organizou uma série de reportagens nas cidades brasileiras que sediaram os jogos, com o objetivo de oferecer aos visitantes francófonos um panorama dos “Arredores dos Estádios”. Para o “L’envers du stade” da capital pernambucana, subintitulado “Recife, la dévote”, publicado no dia 27 de junho passado (e acessível por aqui), o professor Gilbraz Aragão foi entrevistado pela equipe do jornalista Nicolas Bourcier, tendo em vista as atividades que desenvolve junto ao Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife, sediado na UNICAP.

A matéria lembra que o Recife tem história de revoltas e é uma cidade cruel: entre os seus 4 milhões de habitantes se encontram muitos migrantes pobres “chorando de fome”, no maior bolsão de pobreza da América Latina. Mas, capital econômica e cultural do Nordeste brasileiro, é uma cidade que também mostra sinais de desenvolvimento social e soube guardar uma capacidade formidável de mistura de culturas, crenças e tradições ibéricas, negras e indígenas, sem falar das holandesas e tantas mais que aqui aportaram: “… Sobre esse terreno de problemas não resolvidos, esses inchamentos urbanos e sobre um empilhamento de estratos sucessivos foi que essa cidade portuária fez a sua cama”.

Depois, o texto recorre à visita de grande filósofa francesa para traçar um retrato em retrospectiva: “… Recife. É aqui que começa a viagem de Simone de Beauvoir ao Brasil, em 1960. A história que ela conta em La Force des choses (1963) abre com as suas impressões vistas do avião, antes mesmo de aterrissar: ‘Os canais, pontes, ruas retas, colinas, em uma colina uma igreja portuguesa, palmeiras. Ainda lagos, pontes, igreja, ainda, ainda…’. Meio século depois, a impressão não mudou. Igrejas têm-se multiplicado. A urbanização da cidade foi mesmo acompanhada por uma diversidade religiosa incrível…”.

Bourcier afirma que “para onde quer que se olhe, você vê aqui um edifício religioso, um lugar de devoção”. Começa citando o fato de que Recife não possui uma, mas duas santas padroeiras católicas, e cada qual com suas correspondências sincréticas no candomblé, sendo Nossa Senhora da Conceição/Iemanjá a mais popular. E continua: “De um ponto de vista estatístico, seriam: 830 mil católicos; 350 mil evangélicos, número em crescimento mas que se estabiliza; 25 mil protestantes tradicionais; e um culto muçulmano, outros de judeus. Sobretudo, observa Gilbraz Aragão, professor no Observatório Transdisciplinar das Religiões na Universidade Católica de Pernambuco, a cidade registra dois fenômenos novos: o aumento do número de adeptos do espiritismo de Allan Kardec, principalmente entre as novas classes médias, e o avanço, com 225 mil pessoas declaradas, dos ‘sem religião’: compreende aqueles que não se reconhecem em uma religião ou em uma filiação precisa, mas que tem uma fé, uma crença, muitas vezes sincrética e múltipla”.

A matéria percorre os principais templos da cidade e região, passando pela igrejinha das Fronteiras, “refúgio dos desfavorecidos e ponto de encontro dos intelectuais progressistas, de todos aqueles que acompanharam a longa marcha do antigo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara (1909-1999), voz dos sem voz e figura de proa da ‘teologia da libertação’”. E prossegue, dizendo que o Recife deve sua diversidade religiosa à chegada de tradições orientais e novos grupos esotéricos, mas sobretudo aos mais de mil terreiros de culto das religiões afro-brasileiras, muitos dedicados a Iemanjá, divindade do mar e encarnação da fecundidade.

No terreiro de Xambá, um dos mais antigos, por acaso “os cultos acontecem toda semana sob o olhar atento de dois quadros pregados na parede do fotógrafo e iniciado Pierre Verger (1902-1996). Inevitavelmente, pensamos na continuação da história de Simone Beauvoir, sobre esta religião que ‘serve aos pobres’, onde ‘a lama toma o lugar do mármore, o barro toma o lugar da ourivesaria’ e cada candomblé torna-se ‘microcosmo da África’. Muitos momentos fazem de Recife esse cadinho cultural tão especial. ‘A cidade é um terreno fértil para essas misturas e essas devoções fulgurantes’, insiste Gilbraz Aragão. E ele acrescenta: ‘É uma capital da religiosidade e, neste sentido, um laboratório do que pode acontecer no mundo’”.

A reportagem termina apresentando a Arena Pernambuco, estádio construído para a Copa na Região Metropolitana, justo diante da avenida “Deus é fiel”, como um templo a mais do Recife, uma nova catedral, do mercado e do espetáculo, do espírito moderno de “sucesso” (no jogo como nos negócios) para o qual se invoca até o nome de Jesus: “aqui, quer morando de um lado ou de outro das crenças, na dúvida ou no culto meio-pagão-meio-religioso, todos creem de maneira quase mística”. Assim, enquanto Fortaleza foi apresentada na série do Le Monde como “cidade cruzamento do turismo sexual”, por exemplo, e Salvador como “a Roma negra”, São Paulo como “cidade impossível” e Brasília como “linda bugiganga”, o nosso Observatório da UNICAP ajudou a revelar Recife como “a devota”. Amém!?

 

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