PRECES POR UMA ESTRELINHA

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Dia desses Silvério Pessoa, artista que é mestre em ciências da religião conosco, esteve cantando e apoiando a ocupação pública do Estelita. Hoje a espiritualidade esteve presente de novo nessa luta, pois um menino budista, João Dias, daqueles capazes de comover a ONU por um fio da Internet, chamou todo mundo lá pra saber: o que as religiões pensam sobre esse mundo onde a ganância parece dirigir as ações de homens e mulheres na construção do seu destino comum? Então, um Encontro Transreligioso, mediado pelo prof. Gilbraz do nosso Observatório, reuniu um grupo de recifenses para conversar e rezar, no Ocupe Estelelita, sobre outro mundo possível e mais ético, sobre um futuro mais humano para a cidade. Foi neste domingo, 29 de junho, de 11 até 14h, no Cais Estelita, com participação de Frei Aloísio (Católico), Raquel (Espírita), Rodolfo (Krishna) e Mãe Elza (do Candomblé). Para completar, entre as pessoas que foram chegando, apareceu Franci Ronsi, que participou do nosso grupo de estudos na Unicap e agora está concluindo o doutorado em teologia na PucRio, sobre a mística inter-religiosa e socialmente engajada de Raimundo Panikkar…

O encontro, tão rico pelas diversas sabedorias e abrigado numa barraquinha junto ao acampamento dos jovens militantes, começou mesmo com outra pergunta que apareceu por lá: a religião não foi cúmplice histórica de tantas opressões? Por que celebrar com tradições de fé em meio a uma luta política libertária? Pois o Ocupe Estelita é um movimento da sociedade civil que busca questionar o projeto “Novo Recife”, de especulação imobiliária naquele Cais recifense, pleiteando um planejamento urbano mais ecológico e democrático. E a resposta veio pela evocação de Guimarães Rosa, de que a religiosidade, bem entendida e interpretada, é o exercício do desejo humano frente à consciência de pouco poder pra gente ser na vida, é uma antecipação simbólica do real (ainda) inexistente: “O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura…”.

De fato, em muitos lugares, e Pernambuco com todo o seu desenvolvimentismo é um deles, andamos errantes e enlouquecidos, pois a distância entre os pobres e os ricos, entre os poderosos e os desprotegidos, tornou-se monstruosa. Num mundo no qual o socialismo de estado, bem como o capitalismo lucrativo, esvaziaram muitos valores éticos e espirituais por meio de uma visão meramente consumista das coisas, a avidez por lucros ilimitados, a cobiça por pilhagens sem fim parecem disseminar-se como se isso fosse natural, bem como uma mentalidade materialista, de reivindicações que constantemente exigem mais dos governos, sem mobilizar cada um para contribuir melhor. Isso sem falar do câncer social que é a corrupção onipresente…

Contudo, como lembram os ativistas da Ética Global, “nas grandes religiões antigas e nas tradições éticas da humanidade, encontramos o ensinamento: não roubarás! Ou, em termos positivos: sê honesto! E, de fato, nenhum homem tem o direito de roubar ou despojar – de nenhuma maneira – outros seres humanos ou o bem público. Reciprocamente, nenhum ser humano tem o direito de usar seus bens sem se importar com as necessidades da sociedade. Onde reina a pobreza extrema ocorrerão roubos, muitas vezes por necessidade de sobrevivência, se o completo abandono e o desespero esmagador ainda estiverem reinando. E onde o poder e a riqueza são acumulados sem piedade, sentimentos de inveja, ressentimento e, sim, ódio mortal, inevitavelmente brotarão nos despossuídos. Isso leva todos facilmente a um círculo diabólico de violência e contra violência…”.

O encontro, que intercalou reflexões assim, trazidas pelos representantes das religiões, com preces das diversas tradições, terminou com a percepção de que o movimento Ocupe Estelita já é vitorioso, porque ajuda a criar uma contracultura, a despertar nos jovens, através de suas redes sociais, o sentimento de que a propriedade, por pequena que seja, carrega consigo uma responsabilidade, e que seu uso deveria ao mesmo tempo servir ao bem comum. E foi lembrado que onde quer que os que governam ameacem sufocar os governados, as instituições ameacem as pessoas, o poder oprima os direitos; a resistência – sempre que possível, não-violenta – deve ocorrer. Lembrou-se também que em vez da avidez insaciável por dinheiro, prestígio e consumo, o sentido de moderação e modéstia deveria voltar a reinar entre nós. Pois na avidez os humanos perdem as suas almas, liberdade interior e, portanto, aquilo que os faz humanos.

Entre as discussões tensas sobre as estratégias para continuar a luta no Estelita, todos sentiram-se religados por cantos e preces, como no mantra Hare Krishna em ritmo nordestino de Asa Branca, ou como na reza daquele anônimo que durante a Primeira Guerra Mundial (que começou exatamente há cem anos) escreveu uma prece inspirada no seu santo predileto, que se transformou na oração do próprio Francisco de Assis: “Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver trevas, que eu leve a luz… e importa mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido e amar que ser amado”. O Encontro Transreligioso do Estelita foi pouca coisa, levou algum mantimento e alguma esperança aos acampados, mas representou a força que se abriga em cada semente, o mundo novo que se esconde em cada boa ação anônima, mesmo que uma prece. Ficou a sensação da Ocupação do Estelita como semente de estrelinha… que floresça e nos traga um céu mais bonito!

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Dedicamos o post pra Mayra (que foi fazer o aniversário dela na ocupação) e Batoré (que tava lá na rua, onde vive, gritando “polícia fascista” na cara do carro da polícia!), e pra Tibério e Denis (ativistas de sofá, que ainda nem sabem que são profetas de um novo tempo!)

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