HELDER CAMARA E AS IDEOLOGIAS DA MISÉRIA
CRÍTICAS POLÍTICAS E TEOLÓGICAS AO MALTHUSIANISMO
Palavras-chave:
Dom Helder Camara, Fome, MalthusianismoResumo
O presente artigo analisa quatro discursos de Dom Helder Camara, proferidos entre 1968 e 1978, como uma refutação categórica ao fatalismo da teoria malthusiana e suas vertentes póstumas, que atribuía a fome à escassez natural e ao crescimento populacional descontrolado. A introdução parte do contexto histórico do pós-guerra e regimes ditatoriais, evidenciando como Dom Helder se tornou uma voz dissonante ao denunciar a naturalização da miséria e defender uma economia voltada à vida. O objetivo central é demonstrar como suas palavras realizam um deslocamento epistemológico e ético ao retirar a fome da esfera da fatalidade demográfica e reposicioná-la como expressão do “pecado social” e da “violência-mãe”, vinculada às estruturas históricas de dominação e dependência. A metodologia articula uma leitura hermenêutica e crítica dos discursos de Dom Helder analisados por Luiz Carlos Luz Marques e Lucy da Silva Pina Neta no capítulo "Helder Camara e La Pace", incluído no livro Quam Pulchri – Settanta saggi per i settant’anni del Cardinale Matteo Zuppi, organizado por Nicla Buonasorte e Alberto Melloni (2025), com base nas matrizes teóricas de Karl Marx, Josué de Castro e Enrique Dussel. A perspectiva estrutural de Marx e Castro permite compreender a fome como produto histórico das relações de produção e da dependência centro-periferia, enquanto a Ética da Libertação de Dussel fundamenta o imperativo helderiano de ouvir o “Outro” e transformar as estruturas de exclusão. Como resultado, identifica-se nos discursos de Dom Helder uma síntese entre espiritualidade e ação política, em que a fé assume dimensão emancipatória. Tal análise evidencia que a crítica ao malthusianismo não se limita ao campo econômico, mas constitui um gesto histórico de denúncia das injustiças legitimadas pela ciência e de anúncio de uma nova racionalidade baseada na solidariedade e na justiça social. Conclui-se que Dom Helder pode ser compreendido, à luz do conceito formulado por Luiz Carlos Luz Marques (2012), como um operador social do sagrado, sujeito histórico que traduziu o sagrado em prática libertadora e transformou a fé em instrumento de justiça e humanização. Seu legado permanece como referência ética e teológica para as lutas contemporâneas contra a fome e em defesa da dignidade humana.
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