HELDER CAMARA E AS IDEOLOGIAS DA MISÉRIA

CRÍTICAS POLÍTICAS E TEOLÓGICAS AO MALTHUSIANISMO

Autores

  • Pablo Guilherme de Lima Amorim Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP Autor
  • Arthur Silva dos Santos Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP Autor

Palavras-chave:

Dom Helder Camara, Fome, Malthusianismo

Resumo

O presente artigo analisa quatro discursos de Dom Helder Camara, proferidos entre 1968 e 1978, como uma refutação categórica ao fatalismo da teoria malthusiana e suas vertentes póstumas, que atribuía a fome à escassez natural e ao crescimento populacional descontrolado. A introdução parte do contexto histórico do pós-guerra e regimes ditatoriais, evidenciando como Dom Helder se tornou uma voz dissonante ao denunciar a naturalização da miséria e defender uma economia voltada à vida. O objetivo central é demonstrar como suas palavras realizam um deslocamento epistemológico e ético ao retirar a fome da esfera da fatalidade demográfica e reposicioná-la como expressão do “pecado social” e da “violência-mãe”, vinculada às estruturas históricas de dominação e dependência. A metodologia articula uma leitura hermenêutica e crítica dos discursos de Dom Helder analisados por Luiz Carlos Luz Marques e Lucy da Silva Pina Neta no capítulo "Helder Camara e La Pace", incluído no livro Quam Pulchri – Settanta saggi per i settant’anni del Cardinale Matteo Zuppi, organizado por Nicla Buonasorte e Alberto Melloni (2025), com base nas matrizes teóricas de Karl Marx, Josué de Castro e Enrique Dussel. A perspectiva estrutural de Marx e Castro permite compreender a fome como produto histórico das relações de produção e da dependência centro-periferia, enquanto a Ética da Libertação de Dussel fundamenta o imperativo helderiano de ouvir o “Outro” e transformar as estruturas de exclusão. Como resultado, identifica-se nos discursos de Dom Helder uma síntese entre espiritualidade e ação política, em que a fé assume dimensão emancipatória. Tal análise evidencia que a crítica ao malthusianismo não se limita ao campo econômico, mas constitui um gesto histórico de denúncia das injustiças legitimadas pela ciência e de anúncio de uma nova racionalidade baseada na solidariedade e na justiça social. Conclui-se que Dom Helder pode ser compreendido, à luz do conceito formulado por Luiz Carlos Luz Marques (2012), como um operador social do sagrado, sujeito histórico que traduziu o sagrado em prática libertadora e transformou a fé em instrumento de justiça e humanização. Seu legado permanece como referência ética e teológica para as lutas contemporâneas contra a fome e em defesa da dignidade humana.

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Biografia do Autor

  • Pablo Guilherme de Lima Amorim, Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP

    Possui ensino médio completo pela EREM Professor Trajano de Mendonça, concluído em 2024. Atualmente é graduando do curso de Licenciatura em História pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e do curso de Licenciatura em Geografia pelo Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), ambos na modalidade presencial. É bolsista pela CAPES no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), atuando na EREM Ginásio Pernambucano com atividades de formação docente e práticas pedagógicas, e voluntário no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da UNICAP. Atua também como oficineiro de música no Programa Escola Aberta PE, ministrando oficinas artísticas e colaborativas para estudantes da comunidade.

  • Arthur Silva dos Santos , Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP

    Graduação em andamento em História.
    Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP, Brasil.

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Publicado

2026-02-05

Como Citar

HELDER CAMARA E AS IDEOLOGIAS DA MISÉRIA: CRÍTICAS POLÍTICAS E TEOLÓGICAS AO MALTHUSIANISMO. (2026). COLÓQUIO DE HISTÓRIA DA UNICAP E COLÓQUIO DO PPGH, 19. https://www1.unicap.br/ojs/index.php/coloquiodehistoria/article/view/3536

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