A VIDA: ETERNA? COMO?

Por Gilbraz Aragão.
….

Tem uma menina linda e esperta que eu amo, Mayra, que está pra me dar mais livro de um tio que é filósofo da complexidade, e me apresentou faz tempo ao blog de outro tio dela, Silvio Meira, um pesquisador em engenharia da lógica dos computadores. Muito bem, pois não é que eu encontrei aí uma discussão sobre a vida eterna, em meio a reflexões sobre softwares, bits e bytes cotidianos?! Quando escrevi “A Igreja na cidade pós-moderna“, uma meditação sobre a religiosidade nos ciberespaços que pouco a pouco envolvem até Olinda e Recife, já tinha acenado para as loucuras de um especialista em robótica, Hans Moravec, que pensava em libertar a mente humana da servidão do corpo material transportando-a para os computadores e daí para o mundo interconectado da rede, numa espécie de sonho de ciberimortalidade, que vem acompanhado do desejo de onisciência, ou seja, de um intelecto global que teria acesso, através da web, ao conhecimento do Todo.
.
Lembro que eu associei essa doidice futurista, de eternidade pós-religiosa através da tecnologia, ao poema daquele comunista místico, Vladimir Mayakovsky, intitulado O amor, que Caetano adaptou e Gal cantou pra gente: “… o século trinta vencerá, o coração destroçado já, pelas mesquinharias, agora vamos alcançar, tudo o que não podemos amar na vida, com o estrelar das noites inumeráveis, ressuscita-me, ainda que mais não seja, porque sou poeta, e ansiava o futuro, ressuscita-me, lutando contra as misérias do quotidiano, ressuscita-me por isso, ressuscita-me, quero acabar de viver o que me cabe, minha vida para que não mais existam amores servis, ressuscita-me, para que a partir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme e o pai seja pelo menos o universo, e a mãe seja no mínimo a terra…”. Continuo apostando que o amor, por algum artifício maquínico e/ou mágico que seja, sempre ganha ares de eternidade: mas não como a sobrevivência para a vida eterna de um “eu”, e sim, via descentramento de si e religação com o real, como ativação de uma misteriosa força ternária, entre e além, através do “outro”!
..
Voltei a pensar outro dia nesse assunto, quando li A ilusão da alma, de Giannetti: um livro que ficou atravessado no otimismo voluntarista do meu espírito, porque defende a subordinação da mente (=alma!) ao cérebro (=corpo!), argumentando que o próprio ego é uma ilusão que nos anima a levar adiante o destino inexorável dessa parcela de energia da natureza que nos cabe administrar (melhor dizendo: pela qual devemos nos deixar guiar): o corpo da gente. Isso na linha da filosofia de que o sentido da vida, sobretudo da nossa espécie, sobre este planeta, é apressar o consumo da sua energia e prepará-lo pra retornar ao caos… Por enquanto, tenho imaginado, como saída ao menos pro dilema das pessoas, que esse dualismo matéria-espírito acabará superado em uma antropologia mais integral e conforme à lógica ternária ensejada em tempos pós-modernos, onde a espiritualidade mesma será reprocessada como “qualidade profunda do humano” (do tipo de mística sem religião ou sem “objeto” religioso, que já vem sendo ensaiada por Marià Corbi, entre outros). Afinal, parece haver algo de “energético”/espiritual nas partículas quânticas da matéria, entre e além das nossas moléculas!
.
Quanto à relação das pessoas com o Todo, tenho minhas reservas pra saída simplista, à la Avatar, que pensa as sociedades compostas de organismos do mesmo modo que organismos são compostos de células – e tudo o que tem vida conforma então uma grande Teia, com uma super ou sobre-consciência. Esse modelo antigo, “ressuscitado” como “novo paradigma” com a hipótese Gaia, de Lovelock (e desenvolvido por Maturana e Varela) foi seriamente criticado por Niklas Luhmann: os sistemas sociais – e os uni(pluri)versos – não são compostos bem de organismos, mas da comunicação entre eles, de maneira que uma perspectiva autopoiética deve ser aplicada aos sistemas internos de comunicação e não aos organismos. Com isso, deveríamos enfatizar não as partes/pessoas nem o Todo, mas as relações – o que engendra uma espiritualidade não pietista (o divino é contrário à matéria, às pessoas) e nem panteísta (tudo é divino, a realidade toda é corpo do deus – que seria a sua consciência), mas panenteísta (o mistério do divino [pode] se manifesta[r] em todas as relações – e toda comunicação amorosa ultrapassa a natureza e, de alguma maneira, se eterniza!).
..
Mas então, o artigo de Silvio agora mostra que esses delírios ciberimortais estão valendo entre os engenheiros, que a religiosidade, qual rumor de anjos cibernéticos, ronda o mundo das máquinas hodiernas, e que, afinal,tecnologia rima com teologia! Mais: ele corrobora a ideia de que o nosso “espírito” continua a desejar e procurar “vida eterna” por razões de “joules” energéticos, para economia de “energia” material enriquecida. Diz que é bem capaz de haver razões, acima de nossa vontade pessoal de viver “para sempre”, relacionadas à preservação da energia consumida no processo de desenvolver um ser humano maduro e sábio. Com isso ele explica uma pesquisa feita pelo IEET (Instituto para Ética e Tecnologias Emergentes), a partir da pergunta “que expectativas você tem em relação à duração de sua própria vida?”, onde o pessoal jovem e que se dedica ao estudo da singularidade e do trans-humanismo acredita que vai viver muito e muito ainda, principalmente fazendo “uploading” das mentes para os computadores. Vejam as conclusões do artigo (que não usa maiúsculas) e se preparem pro upload dos seus juízos e amores à “computação em nuvem” (eu já tou escaneando ali Mayra!):
.

“a ‘pesquisa‘ do IEET mostra que há um mercado potencial de pessoas que almejam viver pra sempre, real ou digitalmente. do lado de cá, estamos entendendo, cada vez mais, do espaço físico, da vida e da mente. os dois últimos são, cada vez mais, codificados em termos de informação e conhecimento e, ainda mais, entendidos como software, dentro de um contexto em que “tudo é software”.
.
se for – e parece que é…- tudo será escrito de forma executável por máquina. e reescrito. evoluirá até que, alguma hora, uploading seja possível. se isso rolar, vamos ter descoberto, também, como fazer downloading… e, se tudo der certo, faremos download de partes de uma mente e não da coisa toda. tipo… aprender mandarin por downloading. pode nunca ser possível mas… pense nas consequências: e se for? quanta energia a gente economizaria?…
.
energia, energia: a vida depende, intrinsecamente, dela. tudo o que for possível para economizar [ou maximizar os resultados d]o uso de energia será feito. tomara que as consequências, quando conseguirmos entendê-las, sejam administráveis. tomara”.

.

Leia o artigo completo aqui no blog de Sílvio Meira.
Saiba mais aqui no blog da gente, sobre “a outra vida” nas religiosidades tradicionais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *