SANKOFA E O GTERE
MULHERES NEGRAS TECENDO CAMINHOS PARA UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Palavras-chave:
GTERE, Educação Antirracista, Mulheres Negras, Lei 10.639/2003Resumo
O ensino da história da África constitui um ato de reparação histórica e epistemológica. Durante séculos, a escola brasileira silenciou as civilizações africanas, reduzindo o continente a um passado de escravidão e miséria, negando suas filosofias, ciências e produções culturais. Ensinar sobre a África é, portanto, reconhecer a centralidade de suas contribuições na formação da humanidade e da sociedade brasileira, restituindo aos povos africanos o direito à sua própria narrativa. Como afirma Kabengele Munanga (2005), compreender a história da África é fundamental para romper com a visão eurocêntrica que inferioriza o continente e seus descendentes. Nesse contexto, as mulheres negras, herdeiras da ancestralidade africana e da experiência diaspórica auxiliam no âmbito da educação como direito e instrumento de emancipação coletiva. A aprovação da Lei nº 10.639/2003, resultado direto da mobilização do Movimento Negro, consolidou um marco histórico e político na disputa por narrativas sobre o Brasil e na valorização das matrizes africanas na educação. Este artigo reflete sobre a atuação do Grupo de Trabalho de Educação para as Relações Étnico-Raciais (GTERE), no Recife, destacando a trajetória de mulheres negras educadoras que atuaram como formadoras e intelectuais orgânicas na implementação da referida lei. Busca-se compreender de que modo o GTERE contribuiu para o letramento racial docente, por meio dessas educadoras a consolidação de práticas pedagógicas antirracistas e a valorização das heranças africanas na educação pública. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada nos princípios da História Oral, com base em entrevistas realizadas com integrantes do GTERE. O estudo ancora-se em referenciais teóricos de Nilma Lino Gomes, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Angela Davis, Beatriz Nascimento e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, que articulam ancestralidade, gênero e educação como práticas de libertação. Os resultados indicam que o GTERE se consolidou como um espaço de resistência e reencantamento da escola pública, atuando na construção de um currículo comprometido com a diversidade étnico-racial. A pesquisa evidencia o protagonismo das mulheres negras como agentes de transformações. Além disso, revela que a implementação da Lei nº 10.639/2003, por meio das ações do grupo. Conclui-se que o GTERE, enquanto política pública de formação docente, materializa o princípio de Sankofa o retorno às raízes africanas como caminho de reinvenção, resistência e cura coletiva. As educadoras negras do grupo não apenas auxiliaram a implementar a legislação, mas intervieram na educação recifense por uma diáspora, memória e justiça racial. Assim, reafirma-se que a efetivação da Lei nº 10.639/2003 depende do reconhecimento das mulheres negras como sujeitos históricos e arquitetas de um novo projeto civilizatório, no qual a escola se torna território de liberdade, pluralidade e reconstrução da humanidade negra.
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