A LIGA SOCIAL CONTRA OS MOCAMBOS
O PROJETO POLÍTICO-SEGREGACIONAL DE AGAMENON MAGALHÃES E O DIAGNÓSTICO TÉCNICO-HUMANISTA DE ANTÔNIO BEZERRA BALTAR
Palavras-chave:
História Urbana do Recife, Antônio Bezerra Baltar, Mocambos, Violência Simbólica, Habitação Social, Pierre BourdieuResumo
Este artigo analisa a configuração do campo urbanístico recifense durante o Estado Novo (1937-1945), focalizando a tensão dialética entre o projeto higienista de erradicação, promovido pela “Liga Social Contra os Mocambos” sob a égide do interventor Agamenon Magalhães, e a emergência do urbanismo social de Antônio Bezerra Baltar. Fundamentado na sociologia de Pierre Bourdieu — mobilizando as categorias de campo, habitus e violência simbólica —, o estudo investiga primeiramente o papel da imprensa, especificamente do Diário de Pernambuco, na construção de um imaginário que patologizava a habitação popular como “lepra” e espetacularizava a miséria através de campanhas como o “Concurso de Mocambos” (1939). Em um segundo momento, discute-se o impasse gerado pela resistência culturalista de Gilberto Freyre, cuja defesa estética do mocambo falhava em endereçar a questão fundiária. O núcleo da análise recai sobre a atuação de Baltar à frente do Serviço de Mocambos, demonstrando como seu habitus híbrido — forjado na singular intersecção entre a técnica engenheiral, a leitura estrutural marxista e a ética do catolicismo social — permitiu a formulação de um diagnóstico censitário que redefiniu o mocambo de problema sanitário para consequência da exclusão econômica. A pesquisa culmina na investigação da práxis dos “Parques Proletários” (notadamente em Afogados e na Matinha), iniciativas que, através da produção de aterros e da implementação da “casa-embrião” de alvenaria, romperam tanto com o regionalismo freyreano quanto com o punitivismo estatal, inaugurando a habitação como dever público e direito social na capital pernambucana.
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Referências
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