VIOLÊNCIA SIMBOLICA E RESISTÊNCIA

ALMIRA CARNEIRO BOTELHO NA CÂMARA MUNICIPAL DO RECIFE (1973 – 1976)

Autores

  • Beatriz Feitosa da Rosa Souza UNICAP Autor

Palavras-chave:

Almira Carneiro Botelho. Violência simbólica. Gênero e Política. Câmara Municipal do Recife. Representatividade Feminina.

Resumo

A participação feminina na política brasileira representa tema fundamental para compreender as relações de poder que historicamente limitaram o acesso das mulheres aos espaços decisórios. Este trabalho analisa a trajetória de Almira Carneiro Botelho, segunda mulher eleita vereadora no Recife, durante seu mandato entre 1973 e 1976, à luz das contribuições teóricas de Pierre Bourdieu sobre violência simbólica e campo político, Joan Scott sobre gênero como categoria analítica e Judith Butler sobre performatividade de gênero. Os objetivos específicos incluem: examinar o contexto político-eleitoral de 1972; identificar suas principais propostas legislativas; analisar as formas de discriminação e violência simbólica sofridas; e avaliar seu legado para a representatividade feminina. A metodologia baseou-se em pesquisa documental e qualitativa, com tentativa de análise de registros da Câmara Municipal do Recife e matérias jornalísticas do Diário de Pernambuco, especialmente as colunas "O assunto é política" e "Coisas da cidade". Os resultados demonstram que Almira, natural de Palmares e funcionária pública aposentada, enfrentou obstáculos desde o processo eleitoral, necessitando recorrer ao Tribunal Regional Eleitoral para garantir sua posse após problemas com cédulas de votação. Durante o mandato, integrou a Comissão de Finanças e desenvolveu projetos de infraestrutura urbana para a zona sul, saúde feminina e valorização cultural, destacando-se como idealizadora do carnaval do Pina, defensora da conservação da Biblioteca Municipal de Afogados e responsável por conceder cidadania recifense a Ariano Suassuna. Suas propostas de saúde incluíam serviços contra doenças venéreas femininas e redução do tempo de contribuição previdenciária para 25 anos. A pesquisa revelou padrões sistemáticos de invisibilização midiática e desqualificação intelectual, com ataques direcionados à sua capacidade mental e acusações de estar "esclerosada", enquanto vereadores homens eram criticados exclusivamente por suas propostas. Sua imagem permaneceu constantemente atrelada ao irmão deputado Newton Carneiro, evidenciando a dependência estrutural do capital político masculino para legitimação feminina. Conclui-se que Almira exemplifica as complexidades da participação política feminina nos anos 1970, enfrentando estruturas patriarcais profundamente enraizadas no campo político brasileiro. Sua derrota eleitoral em 1976, atribuída à perda de apoio do irmão que migrou de partido, reforça como a legitimação feminina dependia fundamentalmente do respaldo masculino. Não obstante, seu legado permanece significativo, contribuindo para abrir caminhos às futuras candidaturas femininas em Pernambuco.

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Biografia do Autor

  • Beatriz Feitosa da Rosa Souza, UNICAP

    Licencianda em História pela Universidade Católica de Pernambuco, Bacharelanda em Direito pela Universidade Frassinetti do Recife. Concluinte de Projeto de Iniciação à Docência (PIBID) por História.

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Publicado

2026-02-05

Como Citar

VIOLÊNCIA SIMBOLICA E RESISTÊNCIA: ALMIRA CARNEIRO BOTELHO NA CÂMARA MUNICIPAL DO RECIFE (1973 – 1976). (2026). COLÓQUIO DE HISTÓRIA DA UNICAP E COLÓQUIO DO PPGH, 19. https://www1.unicap.br/ojs/index.php/coloquiodehistoria/article/view/3529

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