{"id":1217,"date":"2014-08-26T19:12:28","date_gmt":"2014-08-26T22:12:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/?p=1217"},"modified":"2022-12-26T09:15:40","modified_gmt":"2022-12-26T12:15:40","slug":"cordeiros-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/?p=1217","title":{"rendered":"&#8220;CORDEIROS&#8221; DE DEUS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/20140823_174436.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-5457 size-full\" src=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/20140823_174436.jpg\" alt=\"\" width=\"876\" height=\"657\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/20140823_174436.jpg 876w, https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/20140823_174436-300x225.jpg 300w, https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/20140823_174436-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 876px) 100vw, 876px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">\u00a0..<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c&#8230; Ao falar em teologia n\u00e3o estou pensando em confiss\u00f5es de f\u00e9 nem em doutrinas mas no sagrado selvagem, no sentimento oce\u00e2nico, em tudo que vem daquelas camadas profundas do nosso ser que Joseph Campbell chama de zona mitogen\u00e9tica primordial (&#8230;), pensando naquela <em>prisca theologia<\/em> que est\u00e1 no transfundo cultural de todos os povos e de todas as tradi\u00e7\u00f5es, sejam europeias, orientais, ind\u00edgenas, africanas. Por que ent\u00e3o n\u00e3o pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o a Zeus e a todos os deuses e deusas do Olimpo, Afrodite nascendo das espumas do mar da J\u00f4nia, Atena de olhos verdes protegendo Tel\u00eamaco na Odisseia? Por que n\u00e3o pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9, Jesus, Shiva, Krishna, Mohamed, Iemanj\u00e1, Tup\u00e3, Xang\u00f4, Oxal\u00e1, meu pai? Essa teologia plural aprendeu que Deus muda como o fogo quando misturado com fragr\u00e2ncias e \u00e9 nomeado segundo o perfume de cada uma. Teologia como transteologia. Mesmo porque, como explica Krishna a Aryuna, qualquer que seja o nome pelo qual me chamares, sou eu quem responder\u00e1. Dizendo de uma vez, n\u00e3o estou pensando em nenhuma teologia encr\u00e1tica que, pretendendo ser o \u00faltimo significado, corre sempre o risco de se transformar em monstro\u201d (TEN\u00d3RIO, W. Escritores, gatos e teologia. Cotia: Ateli\u00ea Editorial, 2014, p. 36s).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p>Come\u00e7ando \u00e0 tardinha e entrando pela noite do s\u00e1bado 23 de agosto, vivenciamos uma aula dessa teologia p\u00fablica e plural que come\u00e7a a ganhar legitimidade pelo mundo afora. Para corresponder ao conte\u00fado da hermen\u00eautica nova e aberta das tradi\u00e7\u00f5es de f\u00e9, a forma da aprendizagem teve de ser tamb\u00e9m renovada: uma visita guiada e animada \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.artepluralgaleria.com.br\/exposicao\/75\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arteplural Galeria<\/a>, na rua da Moeda do Recife Antigo, onde Roberto van der Ploeg est\u00e1 com a exposi\u00e7\u00e3o \u201cPretextos: al\u00e9m do para\u00edso&#8221;<span style=\"font-size: 12px;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pages\/Atelier-Ploeg\/147165308794434?fref=ts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Roberto Ploeg<\/a> nasceu na Holanda em 1955 e veio para o Brasil em 1979, por causa de um estudo de mestrado em teologia latino-americana. Desde 1982 reside entre os nordestinos, onde formou fam\u00edlia e se tornou assessor das Comunidades de Base. Mas as dificuldades interpostas pelas for\u00e7as anticonciliares que cresciam no catolicismo o levaram ao caminho da arte, onde procura apresentar de maneira mais pessoal e livre as experi\u00eancias universais da f\u00e9. Como ilustra\u00e7\u00e3o dessa trajet\u00f3ria, Roberto fundou o &#8220;Mandacaru: jornal da tend\u00eancia democr\u00e1tica e libertadora nas igrejas crist\u00e3s do Nordeste&#8221;. Bastava esse nome para garantir que a publica\u00e7\u00e3o iria enfrentar secas e cercas. Fechado o jornal no terceiro ano, Ploeg como que disse: se n\u00e3o posso escrever, vou pintar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por imagens visuais e n\u00e3o mais liter\u00e1rias, no entanto, ele continua a caminhada questionadora. Ser\u00e1 que arte e ci\u00eancia poderiam se combinar? E a religi\u00e3o, em que medida sua teologia pode ter assento nesse banquete dos saberes? O sagrado: \u00e9 oposto ou uma dimens\u00e3o do profano? A visita de nosso Grupo de Estudo aos quadros de Roberto, apreciando e discutindo a beleza das pinturas que \u201crecriam\u201d cenas b\u00edblicas e sacralizam a vida compartilhada, aqui e agora, permitiram terapeutizar as viv\u00eancias religiosas da gente e acolher o paradoxo para al\u00e9m do princ\u00edpio de n\u00e3o-contradi\u00e7\u00e3o, desconstruindo assim o monstruoso dualismo que contrap\u00f5e o humano ao divino, um saber ao outro.\u00a0A obra de Roberto relaciona a contemporaneidade aos modelos b\u00edblico-religiosos da nossa cultura, mas \u00e9 desenhada em cima de met\u00e1foras transculturais e informada interdisciplinarmente pelas ci\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ploeg n\u00e3o usa cenas religiosas como pretexto para retratar a vida da gente, como muitas vezes se faz no mundo art\u00edstico e intelectual, mas pinta quadros do nosso tempo como desculpa para resgatar os sentidos libert\u00e1rios das hist\u00f3rias m\u00edticas da b\u00edblia e da tradi\u00e7\u00e3o. Entre o relativismo e o fundamentalismo que ainda se enfrentam nesta nossa era de crise, ele ativa o c\u00edrculo hermen\u00eautico de narrativas fundadoras do judeu-cristianismo e oferece uma interpreta\u00e7\u00e3o em chave \u00e9tica e humanizante para as figuras religiosas do nosso jeito costumeiro de viver. Com isso, o pintor-te\u00f3logo nos ajuda a ensaiar um olhar alterativo, que transcende a l\u00f3gica de identidades excludentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na linha de uma espiritualidade p\u00f3s-metaf\u00edsica que se espraia, at\u00e9 nos tr\u00f3picos, Ploeg testemunha um divino que se conhece enquanto se realiza entre n\u00f3s; uma cren\u00e7a no Messias, por exemplo, que significa o exerc\u00edcio de uma vida messi\u00e2nica, de uma exist\u00eancia cuidadora e criativa &#8211; como se anuncia ser a de tudo que \u00e9 divinamente ungido. E mostra que existe uma diferen\u00e7a radical e exemplar entre o culto ou a religi\u00e3o e a mensagem de Jesus, que n\u00e3o veio fundar uma religi\u00e3o a mais, mas anunciar a possibilidade de se fazer da vida um milagre para a vida dos outros, pelo amor, a partir dos pobres e exclu\u00eddos deste mundo &#8211; o que \u00e9 uma atitude &#8220;mais-do-que-natural&#8221;. O Nazareno n\u00e3o nos pede culto e sim mem\u00f3ria. Ele encarna, assim, a revela\u00e7\u00e3o divina em toda profundidade &#8211; embora n\u00e3o o seja em toda a extens\u00e3o, sempre pluralista, do tempo-espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa provoca\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, ali\u00e1s, \u00e9 sugerida magnificamente no quadro Os Cordeiros de Deus, que retoma a pintura belga<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jan_van_Eyck#\/media\/Ficheiro:Hubert_van_Eyck_004.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Agnus Dei<\/em>, de Jan van Eyck<\/a> (1432), onde o &#8220;Cordeiro&#8221; (animal que os hebreus sacrificavam para redimir pecados, e os crist\u00e3os relacionam a Jesus) se encontra em altar circundado por tudo que \u00e9 de santo, cl\u00e9rigo, cavaleiro e rei do mundo. Acima deles est\u00e1 entronizado o Cristo do Ju\u00edzo Final, com Maria e Jo\u00e3o, e muitos anjos ladeados por Ad\u00e3o e Eva. Mas no <em>Agni Dei<\/em> de Roberto o para\u00edso vai sendo recriado por muitos e diversos &#8220;Cordeiros&#8221;, em atmosfera natural e vindos da diversidade ecum\u00eanica do cosmo. &#8220;Cordeiro&#8221; aqui \u00e9 todo aquele que se imola, quebrando a viol\u00eancia cultural do \u201cbode expiat\u00f3rio\u201d, ao sacrificar-se e at\u00e9 morrer de amor como questionamento ao pecado de todo mundo e como fundamento para uma conviv\u00eancia transformada pelo perd\u00e3o. Por\u00e9m, essa \u00e9 apenas uma das vinte e cinco pinturas expostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os quadros na Arteplural foram motivo para uma conversa que continuou pelo caf\u00e9 afora, sobre quais s\u00e3o os sentidos que tornam a nossa vida mais saud\u00e1vel. Papo teol\u00f3gico, mas consciente de que toda teologia \u00e9 uma literatura &#8211; ou arte, agora mais amplamente &#8211; que encerra muita antropologia, como bem lembra a cita\u00e7\u00e3o \u00e0 ep\u00edgrafe, do nosso conterr\u00e2neo Waldecy Ten\u00f3rio, outro te\u00f3logo exilado. A exposi\u00e7\u00e3o faz pensar que j\u00e1 (?!) ultrapassamos o lema \u201cfora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u201d e passamos pelo \u201cs\u00f3 Cristo salva\u201d, para chegar \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o inclusiva que pode transformar a saudade do \u201cJardim do \u00c9den\u201d em uma esperan\u00e7a pra toda gente: o gesto amoroso, que encarne historicamente justi\u00e7a e gentileza, que exercite o descentramento de si e a como\u00e7\u00e3o com o desejo do outro, traz sempre sa\u00fade, salva\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 espiritual e transcendente, mesmo que seja o cuidado com uma florzinha!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Toda &#8220;Carne&#8221; se vincula e toda mat\u00e9ria esconde o Esp\u00edrito (outro quadro sugestivo de Roberto \u00e9 G\u00eanesis ou a origem do mundo, em duas vers\u00f5es como na b\u00edblia, lembrando a sacralidade do er\u00f3tico que se aninha entre as pernas da mulher, por onde todos somos gerados). Os povos e a terra inteira estamos ligados pela mesma origem em um quase-nada-ca\u00f3tico, de sorte que juntos \u00e9 que devemos encarar nossa comum miss\u00e3o de salvar a vida, de espiritualizar o mundo, torn\u00e1-lo mais consciente do &#8211; e consequente com o &#8211; Esp\u00edrito, o mist\u00e9rio do processo c\u00f3smico, entre a gente. Inconceb\u00edvel, pois, que um s\u00f3 povo ou religi\u00e3o ou igreja, um s\u00f3 sexo ou &#8220;ra\u00e7a&#8221; ou classe sejam a luz do mundo. Todos somos luz e treva, em comunit\u00e1ria e m\u00edstica evolu\u00e7\u00e3o, pelo carinho e pela miseric\u00f3rdia que religam, em outros n\u00edveis, mesmo os contr\u00e1rios&#8230; At\u00e9 o para\u00edso &#8211; e al\u00e9m!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gilbraz.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/agni-dei.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1218\" src=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/agni-dei.jpg\" alt=\"agni dei\" width=\"518\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/agni-dei.jpg 960w, https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/agni-dei-300x242.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 518px) 100vw, 518px\" \/><\/a><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0.. \u201c&#8230; Ao falar em teologia n\u00e3o estou pensando em confiss\u00f5es de f\u00e9 nem em doutrinas mas no sagrado selvagem, no sentimento oce\u00e2nico, em tudo que vem daquelas camadas profundas do nosso ser que Joseph Campbell chama de zona mitogen\u00e9tica primordial (&#8230;), pensando naquela prisca theologia que est\u00e1 no transfundo cultural de todos os povos&#8230; <\/p>\n<div class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/?p=1217\">Leia mais<\/a><\/div>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1217"}],"version-history":[{"count":36,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7404,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1217\/revisions\/7404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/observatorio2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}