{"id":3857,"date":"2023-09-01T15:24:13","date_gmt":"2023-09-01T18:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=3857"},"modified":"2023-09-01T15:24:16","modified_gmt":"2023-09-01T18:24:16","slug":"bancas-de-revistas-livros-e-filmes-amores-e-fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/bancas-de-revistas-livros-e-filmes-amores-e-fantasmas\/","title":{"rendered":"Bancas de revistas, livros e filmes: amores e fantasmas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"845\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/LABCOM-8.jpg?resize=1024%2C845&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3858\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/LABCOM-8-1024x845.jpg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/LABCOM-8-980x809.jpg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/LABCOM-8-480x396.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Faz vinte anos que comprei \u2013 numa banca de jornal ou numa livraria, n\u00e3o lembro ao certo agora \u2013 este exemplar de capa dura de <em>As cidades invis\u00edveis<\/em>, de Italo Calvino. Numa s\u00f3 frase (percebo ao acabar de escrev\u00ea-la), posso prever o fim de dois lugares que frequentei muito na minha vida: banquinhas e livrarias. Claro, posso imaginar tamb\u00e9m o desaparecimento do livro impresso, ainda mais um de capa dura&#8230; A\u00ed j\u00e1 seriam dois lugares e um objeto de afeto a sumir do mapa.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro de Calvino esperou, portanto, duas d\u00e9cadas para que eu o resgatasse da estante para uma leitura. Quando foi lan\u00e7ado no Brasil, ele foi tema de muito debate e encantamento. Essa edi\u00e7\u00e3o que tenho j\u00e1 foi resultado da popularidade conquistada, um exemplar vendido em bancas de revistas, ou seja, uma aposta em leitores que passavam ali pela rua e, numa passada de olhos, adquiria o seu exemplar.<\/p>\n\n\n\n<p>Muita coisa mudou em vinte anos, muita coisa nesta cidade se tornou invis\u00edvel&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E isso me leva ao porqu\u00ea de eu ter pin\u00e7ado o livro de Calvino da estante. Em outubro faz 100 anos do nascimento desse precioso escritor italiano, faz 51 anos que ele escreveu <em>As cidades invis\u00edveis<\/em>. Mas n\u00e3o s\u00e3o essas efem\u00e9rides o motivo dessa leitura, n\u00e3o os principais.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava pensando em que temas trabalhar na disciplina Jornalismo Especializado em Cultura (todo semestre eu invento essa doidice de propor novos temas e t\u00f3picos), quando foi anunciada a estreia do filme <em>Retratos fantasmas<\/em>, de Kleber Mendon\u00e7a Filho. Ia ser muito oportuno assistir ao filme com a turma, ler a obra de Calvino e bater perna por esta cidade, este Recife de tantas gentes, mem\u00f3rias, fantasmas, riquezas e mis\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Era isso!<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o propus \u00e0 turma de a gente trabalhar neste semestre os t\u00f3picos <em>cultura<\/em>, <em>cidade<\/em> e <em>mem\u00f3ria<\/em>, a partir deste territ\u00f3rio (o Recife), deste tempo (a cidade cheia de ru\u00ednas) e destas refer\u00eancias cinematogr\u00e1fica e liter\u00e1ria (entre outras).<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o desta semana, fomos assistir ao <em>Retratos fantasmas<\/em> numa sala do Kinoplex Boa Vista. Este mesmo bairro central e hist\u00f3rico que abriga o campus da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco foi um lugar de fluxo intenso de cin\u00e9filos que frequentavam os cines Veneza, S\u00e3o Luiz, Ritz e Astor, sem falar dos que ficavam no \u201ccentr\u00e3o\u201d, perto dali: Art Pal\u00e1cio, Trianon e Moderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas salas de cinema \u2013 ou melhor, seus fantasmas \u2013 est\u00e3o no filme de Kleber, porque fazem parte da sua mem\u00f3ria afetiva, assim como dos que viveram aqueles tempos agitados do Centro do Recife. Nas suas segunda e terceira partes, <em>Retratos fantasmas<\/em> se concentra nesse passado, quando o dinheiro circulava por ali, como lembra o cineasta, quando n\u00e3o havia mudado de bairro e deixando o Centro t\u00e3o empobrecido.<\/p>\n\n\n\n<p>A gra\u00e7a do filme, acredito, \u00e9 que ele n\u00e3o desperta essa mem\u00f3ria da cidade a partir de uma objetividade jornal\u00edstica. Ao contr\u00e1rio, ele opera no campo do sens\u00edvel e subjetivo, daquilo que afeta o cineasta. Por extens\u00e3o, ele toca as pessoas que partilham suas mem\u00f3rias e quem n\u00e3o viveu esse tempo do Recife, numa saudade daquilo que n\u00e3o foi a pr\u00f3pria experi\u00eancia, a gente sabe o que \u00e9 sentir isso. Nostalgia, ternura e alguns assombros se somam, portanto, nessa experi\u00eancia f\u00edlmica. \u201cPoxa, o Recife j\u00e1 foi assim\u201d&#8230; pois \u00e9, <em>des fant\u00f4mes<\/em>, <em>ghosts<\/em> (<em>do outro lado da vida<\/em>&#8230; como j\u00e1 anunciou o letreiro de cinema de rua nos anos 1990).<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed a gente gira o foco para <em>As cidades invis\u00edveis<\/em>. Nessa bela narrativa feita de cap\u00edtulos breves, Calvino revisita Marco Polo, o mercador veneziano que, no s\u00e9culo XIII, teria viajado pela \u00c1sia, feito amizade com o imperador mongol Kublai Khan e contado suas aventuras e descobertas em v\u00e1rios territ\u00f3rios do Oriente, fascinando leitores ao longo dos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Calvino imagina encontros entre Marco Polo e Khan, quando o veneziano relata ao imperador a respeito de 55 cidades por ele visitadas. A magia das narrativas s\u00e3o as descri\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas, os cen\u00e1rios t\u00e3o deslumbrantes quanto improv\u00e1veis, as reflex\u00f5es acerca dos nossos desejos e mem\u00f3rias, daquilo que nas cidades \u00e9 puro signo, daquilo que desaparece e morre, permanecendo, entretanto, em algum lugar em n\u00f3s mesmos. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Num dos belos cap\u00edtulos iniciais, Marco Polo adverte sobre a imaginada Za\u00edra: \u201cMas a cidade n\u00e3o conta o seu passado, ela o cont\u00e9m como as linhas da m\u00e3o, escrito nos \u00e2ngulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrim\u00e3os das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranh\u00f5es, serradelas, entalhes, esfoladuras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada cidade, portanto, em acordo ou \u00e0 revelia, tatua em n\u00f3s suas marcas, seus sinais, nos impregna e condiciona. Elas est\u00e3o t\u00e3o vivas em n\u00f3s quanto todos os fantasmas que n\u00e3o avistamos, mas que permanecem em algumas ruas e esquinas, como as bancas de revistas e livrarias que um dia frequentei e que deixaram de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Por Adriana D\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz vinte anos que comprei \u2013 numa banca de jornal ou numa livraria, n\u00e3o lembro ao certo agora \u2013 este exemplar de capa dura de As cidades invis\u00edveis, de Italo Calvino. Numa s\u00f3 frase (percebo ao acabar de escrev\u00ea-la), posso prever o fim de dois lugares que frequentei muito na minha vida: banquinhas e livrarias. 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