{"id":3718,"date":"2023-06-09T16:02:43","date_gmt":"2023-06-09T19:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=3718"},"modified":"2023-06-09T16:02:45","modified_gmt":"2023-06-09T19:02:45","slug":"viva-o-cinema-curta-a-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/viva-o-cinema-curta-a-cidade\/","title":{"rendered":"<strong>Viva o cinema! Curta a cidade!<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"839\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/LABCOM-33.jpg?resize=1024%2C839&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3720\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/LABCOM-33-1024x839.jpg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/LABCOM-33-980x803.jpg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/LABCOM-33-480x393.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em certo sentido \u00e9 imposs\u00edvel pensar o mundo e a vida moderna sem falar do cinema. Algumas pessoas preferem falar dele como arte, outras como ind\u00fastria, mas \u00e9 na interse\u00e7\u00e3o entre essas duas dimens\u00f5es que \u00e9 poss\u00edvel entender o quanto o cinema traduz e ao mesmo tempo produz o mundo e o ser moderno. No cl\u00e1ssico \u201cA obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica\u201d, escrito em 1936, Walter Benjamin vai apontar o cinema como a arte que se constitui e s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel existir em fun\u00e7\u00e3o da sua reprodutibilidade. Se por um lado a difus\u00e3o massiva \u00e9 obrigat\u00f3ria para arcar com os custos de produ\u00e7\u00e3o, por outro torna o filme \u201cuma cria\u00e7\u00e3o da coletividade\u201d viabilizando o acesso a obras art\u00edsticas a pessoas comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Benjamin, no momento em que a autenticidade (ou \u201ca aura\u201d) deixa de ser o crit\u00e9rio definidor da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, \u201ctoda a fun\u00e7\u00e3o social da arte se transforma\u201d e se torna pol\u00edtica. Embora critique os \u201cfilmes grotescos\u201d da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica dos Estados Unidos, em particular da Disney, e os riscos de manipula\u00e7\u00e3o das massas, sobretudo, por regimes autorit\u00e1rios como o nazismo, o pensador alem\u00e3o exalta o aparato t\u00e9cnico do cinema enfatizando o quanto amplia nossa capacidade de percep\u00e7\u00e3o e nos possibilita representar o mundo. Ao falar dos recursos da c\u00e2mara \u2013 as diferentes dimens\u00f5es dos planos, acelera\u00e7\u00f5es, interrup\u00e7\u00f5es, isolamentos, amplia\u00e7\u00f5es etc. \u2013 vai dizer que \u201cela nos abre, pela primeira vez, a experi\u00eancia do inconsciente \u00f3tico, do mesmo modo que a psican\u00e1lise nos abre a experi\u00eancia do inconsciente pulsional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, Benjamin chama a aten\u00e7\u00e3o para o potencial libertador do cinema. Em seu entendimento o filme serve para o ser humano moderno exercitar novas percep\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es exigidas por uma vida cotidiana cada vez mais atravessada pelas tecnologias. Fazer do cinema \u201cobjeto das inerva\u00e7\u00f5es humanas\u201d \u00e9 a tarefa hist\u00f3rica dos tempos modernos. Sua realiza\u00e7\u00e3o implica que o filme possa gerar efeitos de choque no espectador e este mantenha uma \u201caten\u00e7\u00e3o aguda\u201d para intercepta-los. \u00c9 nos filmes mais progressistas, como os do personagem Carlitos de Charles Chaplin que Benjamin ir\u00e1 encontrar exemplos de como o cinema \u00e9 capaz de provocar mudan\u00e7as perceptivas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel o papel sociocultural do cinema e da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica democratizando o acesso \u00e0 cultura, ao lazer, e contribuindo de maneira decisiva para a constru\u00e7\u00e3o da unidade nacional de muitos pa\u00edses ao fazer circular valores e todo um conjunto de s\u00edmbolos comuns quando ainda n\u00e3o havia televis\u00e3o nem internet. Claro, a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, sob o dom\u00ednio estadunidense desde a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, tamb\u00e9m padronizou e padroniza os gostos e sufocou e ainda sufoca a produ\u00e7\u00e3o independente nacional em todo o mundo. Mas sempre houve e haver\u00e1 resist\u00eancia, experi\u00eancias que procuram fazer do cinema o \u201cobjeto das inerva\u00e7\u00f5es humanas\u201d que fala Benjamin, estimulando novas percep\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es contra hegem\u00f4nicas. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das mudan\u00e7as profundas que o cinema operou foi em nossa percep\u00e7\u00e3o da cidade. E quando falo em cinema n\u00e3o estou me referindo apenas ao filme. Evidente que h\u00e1 in\u00fameros filmes em que a cidade \u2013 seus espa\u00e7os urbanos, do centro \u00e0s periferias \u2013 aparece como cen\u00e1rio onde as hist\u00f3rias ficcionais ou documentais acontecem. H\u00e1 casos em que a pr\u00f3pria cidade \u00e9 personagem do filme, como em <em>Duas ou Tr\u00eas Coisas que Eu Sei Sobre Ela<\/em> (1967) de Jean-Luc Godard, uma reflex\u00e3o sobre a Paris dos anos 1960. Mas eu falo tamb\u00e9m das tradicionais salas de exibi\u00e7\u00e3o, ou, como alguns preferem chamar, cinemas de rua, espa\u00e7os criados e ambientados para proporcionar uma experi\u00eancia espec\u00edfica de audi\u00eancia f\u00edlmica que comp\u00f5em a geografia da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde crian\u00e7a frequento esses espa\u00e7os e percebo o quanto eles afetam a minha percep\u00e7\u00e3o da cidade do Recife, onde nasci e moro. Minha inf\u00e2ncia se deu na d\u00e9cada de 1970. Naquela \u00e9poca ainda existiam as salas de bairro, por\u00e9m, minhas irm\u00e3s mais velhas preferiam me levar para as do centro da cidade. Eram de fato mais organizadas, mais confort\u00e1veis e mais seguras para as fam\u00edlias, como diziam minhas irm\u00e3s. E havia tamb\u00e9m o charme de circular pelo intenso com\u00e9rcio do centro para ver as vitrines das lojas nas ruas Imperatriz, Nova, Palma, entre outras. Sa\u00edamos de casa no in\u00edcio da tarde, passe\u00e1vamos pelo centro e depois assist\u00edamos uma sess\u00e3o nas salas imensas de 800, 900, mais de mil lugares. Podia ser no Trianon, no Art Pal\u00e1cio, no Moderno ou no S\u00e3o Luiz, dependia do filme em cartaz. Ap\u00f3s a sess\u00e3o era quase certo tomar um sorvete na tradicional FriSabor da Boa Vista. E segu\u00edamos a p\u00e9, sem medo de assalto, comentando sobre o filme e apreciando a regi\u00e3o central da cidade, naquela \u00e9poca, bem cuidada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na juventude, nos anos 1980, incorporei novas salas ao meu circuito cinematogr\u00e1fico pelo centro: o Veneza, o Astor, o Ritz, o Cine AIP, o Cine Teatro do Parque. Sozinho ou na companhia de amigos e amigas era sempre uma experi\u00eancia aqu\u00e9m e al\u00e9m do filme, um momento de usufruir a cidade e seus espa\u00e7os. Atravessar o Parque Treze de Maio, passar no Beco da Fome, parar na Livro 7, na Livraria S\u00edntese ou na loja de discos Allegro Cantante era quase obrigat\u00f3rio. Mas os tempos j\u00e1 eram outros. Pouco a pouco o centro foi sendo abandonado pelo poder p\u00fablico, a viol\u00eancia cresceu e afugentou os consumidores de classe m\u00e9dia das ruas atingindo de maneira dura o com\u00e9rcio. As salas de cinema, uma a uma, foram fechando as portas e seus pr\u00e9dios transformados em lojas de eletrodom\u00e9sticos, supermercados ou templos evang\u00e9licos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nessa \u00e9poca tamb\u00e9m que surgem os shoppings como um ambiente comercial m\u00faltiplo, seguro, confort\u00e1vel e com um novo conceito de fruir do cinema: o multiplex. Com as suas salas pequenas de 100, 200 e poucos lugares e seus combos de pipoca com refrigerante, o multiplex se configura como um territ\u00f3rio neutro, impessoal, sem rela\u00e7\u00e3o direta com o espa\u00e7o urbano, proporcionando uma experi\u00eancia basicamente comercial. No ambiente do shopping \u00e9 imposs\u00edvel, por exemplo, experienciar a passagem do tempo e a transforma\u00e7\u00e3o da paisagem da cidade. Nos cinemas de rua sempre dava prefer\u00eancia \u00e0s sess\u00f5es do final da tarde porque entrava com a luz do dia, imergia no ambiente escuro da sala para vivenciar intensamente o filme e, ao sair, j\u00e1 na cal\u00e7ada a vis\u00e3o noturna da cidade me parecia m\u00e1gica, conectando a tela e a rua, o cinema e a vida real. &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro bem que o luxuoso e tradicional cinema S\u00e3o Luiz \u2013 inaugurado em 1952 \u00e0s margens do Rio Capibaribe, na rua da Aurora, com seus espa\u00e7os amplos, arquitetura ecl\u00e9tica e seus encantadores vitrais luminosos, acesos antes do in\u00edcio de cada sess\u00e3o \u2013 resistiu como pode at\u00e9 fechar suas portas em 2007. Felizmente, por press\u00e3o da sociedade foi tombado e adquirido pelo governo de Pernambuco em 2008. Voltou a funcionar atraindo um p\u00fablico fiel e retomando o saud\u00e1vel conv\u00edvio do cinema com o espa\u00e7o urbano da cidade. No entanto, desde maio do ano passado a sala est\u00e1 fechada para reformas, sem previs\u00e3o de retomada. Mais uma vez cin\u00e9filos e trabalhadores da cultura est\u00e3o mobilizados e alertas com eventos e a\u00e7\u00f5es concretas para cobrar do novo governo o compromisso de manter o espa\u00e7o vivo, como o que ir\u00e1 ocorrer neste s\u00e1bado 10 de junho, \u201cVamos abra\u00e7ar o Cine S\u00e3o Luiz!\u201d. A partir das 15h haver\u00e1 shows, roda de poesia, mostra de filmes, troca de livros e muito mais. Todas, todos e todes est\u00e3o convidados. A luta continua. Viva o cinema! Curta a cidade!<\/p>\n\n\n\n<p>Por Cl\u00e1udio Bezerra <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em certo sentido \u00e9 imposs\u00edvel pensar o mundo e a vida moderna sem falar do cinema. 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