{"id":3213,"date":"2021-11-17T18:39:29","date_gmt":"2021-11-17T21:39:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=3213"},"modified":"2021-11-17T18:47:49","modified_gmt":"2021-11-17T21:47:49","slug":"na-companhia-dos-bichos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/na-companhia-dos-bichos\/","title":{"rendered":"Na companhia dos bichos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Alexandre Figueir\u00f4a<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dois anos estava indo pouco ao meu s\u00edtio na Ilha de Itamarac\u00e1.&nbsp; \u00c0s vezes, passava at\u00e9 dois meses sem aparecer. Com a pandemia, por\u00e9m, n\u00e3o hesitei, peguei minhas coisas e fui me esconder do mundo por l\u00e1. Nos primeiros dias, ap\u00f3s minha chegada, percebi que a casa, por estar quase sempre fechada, tornara-se moradia de pequenos animais selvagens. Entre eles, a aranha Gertrudes e a cobra Suzy.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Descobri Gertrudes, uma caranguejeira do tamanho da palma da minha m\u00e3o, logo na primeira noite. Ao acender a luz do meu quarto, ela cruzou o teto, e se instalou num canto pr\u00f3ximo da parede e l\u00e1 ficou est\u00e1tica, acredito que olhando para mim para ver o que eu iria fazer. Como n\u00e3o tenho medo de aranhas, deixei ela quieta por l\u00e1 e iniciamos uma conviv\u00eancia amistosa. Na aus\u00eancia de humanos em carne e osso (conversas por telas n\u00e3o suprem minha car\u00eancia por relacionamentos) passei a trocar confid\u00eancias com Gertrudes.&nbsp; Se ela mexesse as patinhas era sinal de que estava me entendendo e isso era o suficiente. Dias depois, no entanto, Gertrudes desapareceu. N\u00e3o sei se encheu o saco de minha conversa ou arranjou um companheiro da sua esp\u00e9cie e me abandonou. Fiquei triste, estava curtindo a nossa amizade.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 com Suzy, o relacionamento foi mais tenso. Afinal, cobras s\u00e3o cobras. Nosso encontro s\u00fabito, como acontece sempre quando nos deparamos com of\u00eddios, me deu um grande susto. Foi no in\u00edcio da manh\u00e3, uns tr\u00eas dias depois da partida de Gertrudes. Desde o desaparecimento da aranha, ao acordar eu ia no terracinho do lado do meu quarto para ver se ela estava no cantinho de parede onde a vi pela primeira vez. Todavia, daquela vez, ao virar meu rosto para o corrim\u00e3o da escada que leva ao andar t\u00e9rreo vi uma esp\u00e9cie de cip\u00f3 nele enroscado. Coloquei os \u00f3culos, me aproximei e vi o cip\u00f3 se mexendo e na extremidade dele uma cabecinha levantada olhando para mim, de boca aberta e aquela linguinha t\u00edpica das cobras balan\u00e7ando em minha dire\u00e7\u00e3o. Dei um gritinho pintoso. \u201cSuzy! O que \u00e9 isso?\u201d, disse de forma en\u00e9rgica. N\u00e3o me perguntem a raz\u00e3o de batiz\u00e1-la como Suzy assim de supet\u00e3o. Achei ela com cara de Suzy. Eu queria descer a escada e ela n\u00e3o deixava. Eu dava um passo para me aproximar da escada e Suzy come\u00e7ava a emitir uma esp\u00e9cie de som rascante como se dissesse \u201cse vier eu mordo\u201d. Procurei me acalmar e comecei a puxar conversa com ela. Expliquei que eu ia morar na casa outra vez, que ela podia ficar por ali, mas de prefer\u00eancia no quintal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de Gertrudes, Suzy era teimosa. Mas quando ela viu que eu n\u00e3o queria confus\u00e3o, ela escorregou pelo corrim\u00e3o, alcan\u00e7ou os combog\u00f3s da varanda e foi para o quintal. Retomei minha vida normal, mas todos os dias lembrava de Suzy, porque eu queria me explicar melhor. Eu tinha consci\u00eancia que eu era o invasor do seu territ\u00f3rio ao construir uma casa naquele terreno, mas queria dizer para ela que a gente poderia conviver numa boa. E n\u00e3o \u00e9 que Suzy reapareceu. Dessa vez foi na porta de entrada. Ela sempre gosta de atrapalhar minha passagem, ela sabe que eu tenho simpatias por sua esp\u00e9cie, mas \u00e9 aquele neg\u00f3cio, cobra e gente \u00e9 ela l\u00e1 e a gente c\u00e1, e a rec\u00edproca deve ser verdadeira. Bom, resumindo a hist\u00f3ria, Suzy ficou de novo fazendo aquele barulhinho de amea\u00e7a e bastava eu dar um passo que ela armava o bote. Outra vez lhe expliquei da necessidade de definirmos nossos territ\u00f3rios. Ela ent\u00e3o desdeu da porta, ganhou o terra\u00e7o e desapareceu no meio das plantas. Deve estar por l\u00e1 at\u00e9 hoje, por\u00e9m nunca mais a vi.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois dessas conviv\u00eancias, na solid\u00e3o da pandemia, decidi me contentar em ficar de chamego apenas com os animais domesticados.  Chega de relacionamentos ex\u00f3ticos. Voltei ent\u00e3o a dar mais aten\u00e7\u00e3o aos velhos companheiros, meus dois c\u00e3es, Clara e Mujica e aproveitar melhor essa vibe amistosa que rola entre caninos e humanos. Com eles \u00e9 outra hist\u00f3ria. Rolamos na grama, tomamos banho de sol juntos e, \u00e0 noite, ao deitar-me na rede para ler, de vez em quando, interrompo a leitura para conversarmos potoca. Damos altas risadas e latidos. Eu tamb\u00e9m dou latidos para eles, para facilitar a intera\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o? Descobri que falar a l\u00edngua deles ajuda no processo de conviv\u00eancia.  Com minhas meninas e meninos que moram no galinheiro, as coisas melhoraram bastante depois que aprendi a cacarejar. Aves s\u00e3o um pouco mais dif\u00edceis para rela\u00e7\u00f5es do que os c\u00e3es, se bobear voam pra cima da gente e ainda te beliscam os p\u00e9s.  Eu acho que as minhas s\u00e3o meio invocadas comigo porque as deixo presas num cercado. Antes quando eu me aproximava era uma agita\u00e7\u00e3o. Agora para entrar no espa\u00e7o delas basta fazer c\u00f3 c\u00f3 c\u00f3 e jogar xer\u00e9m para elas comerem.  Est\u00e1 fluindo numa boa. E assim eu vou aguentando esse isolamento dos infernos que n\u00e3o acaba. <\/p>\n\n\n\n<p>*Esse texto foi escrito como exerc\u00edcio da oficina de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria com os escritores C\u00edcero Belmar e Raimundo de Moraes, realizada em outubro de 2020, durante a quarentena por conta da pandemia da covid 19.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Figueir\u00f4a Nos \u00faltimos dois anos estava indo pouco ao meu s\u00edtio na Ilha de Itamarac\u00e1.&nbsp; \u00c0s vezes, passava at\u00e9 dois meses sem aparecer. Com a pandemia, por\u00e9m, n\u00e3o hesitei, peguei minhas coisas e fui me esconder do mundo por l\u00e1. 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