{"id":3200,"date":"2021-11-10T18:18:36","date_gmt":"2021-11-10T21:18:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=3200"},"modified":"2021-11-10T19:05:02","modified_gmt":"2021-11-10T22:05:02","slug":"sobre-minha-avo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/sobre-minha-avo\/","title":{"rendered":"Sobre minha av\u00f3"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Carla Teixeira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ela escondeu direitinho todas as hist\u00f3rias de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia que n\u00e3o fossem aquelas que quis contar. Teve um irm\u00e3o, Daniel, uma m\u00e3e, Josefa, n\u00e3o sei o nome de seu pai. Trabalhou na Renda Priori, morou na rua dos Pescadores, conheceu meu av\u00f4 no Batutas de S\u00e3o Jos\u00e9. Tinha uma cicatriz no l\u00e1bio. Quando perguntei, respondeu brusca. E n\u00e3o falou mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma mulher forte. E s\u00f3 reconheci fortaleza quando me peguei olhando pra tr\u00e1s. Quando vi a coragem que \u00e9 se impor em um universo branco e masculino, onde a mulher n\u00e3o cuidava dos neg\u00f3cios e, possivelmente, era enganada quando perdia o marido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-10-at-16.31.28.jpeg?resize=819%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3201\"\/><figcaption>Dois momentos de D. Creusa: na juventude e com a neta ca\u00e7ula, Bruna<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>S\u00f3 reconheci a beleza arrebatadora de sua alma, quando entendi o quanto acolheu todos os amigos, as amigas, os p\u00e1rias, as exce\u00e7\u00f5es. Seguia firme e s\u00f3 cambaleou quando as pernas come\u00e7aram a doer.&nbsp; O passo ficou pequeno, inseguro, e seu ir e vir \u201c\u00e0 cidade\u201d mais espa\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca foi de chamar pra cozinhar. N\u00e3o suas netas, pelo menos. Nunca foi muito de macaxeira. Antes um cuscuz ensopado, banana comprida, fatia parida, sopa de feij\u00e3o. Entrava na cozinha e o almo\u00e7o sa\u00eda na hora. E fui aprendendo a cozinhar de tudo, sem medo. Ela conduzia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"762\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-10-at-16.31.28-1.jpeg?resize=762%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3202\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-10-at-16.31.28-1-762x1024.jpeg 762w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-10-at-16.31.28-1-480x645.jpeg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 762px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m a enrolava no troco. Tinha s\u00f3 o quarto ano prim\u00e1rio e dizia sempre: estude pra ser gente. Olhando pra tr\u00e1s e pra frente, cada vez que fui a um museu e me deparei com uma obra de arte; cada vez que vi o mundo em uma nova cidade; cada vez que venci uma etapa \u2013 uma delas no dia de seu anivers\u00e1rio \u2013 era dela que eu lembrava.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi pra Dona Creusa que corri no primeiro emprego, quando ainda tinha d\u00favidas. Foi a primeira que soube do primeiro bisneto. Era no espa\u00e7o de sua cama solteir\u00e3o, ao lado dela, que eu ficava pra curar as feridas ou falar das coisas da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Era escorpiana de 24 de outubro, nasceu em 1919. Quando morreu, quase n\u00e3o tinha brilho nos olhos. Dois anos antes tinha perdido o ca\u00e7ula. Aquele pra quem tinha o jeito mais amoroso. E de quem sentia falta todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tive a sorte de contar com seu afeto na inf\u00e2ncia e na vida, de pousar a cabe\u00e7a no travesseirinho feito na barriga, de ter aprendido o nome das ruas do centro do Recife de tanto visitar as lojas que hoje nem existem mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Da senhora, Dona Creusa, ainda queria a conviv\u00eancia com os bisnetos. Eles iam aprender direitinho o que \u00e9 ter uma av\u00f3 de implicar brincando, de costurar vestidos, de avisar que o mundo \u00e9 grande e a gente cabe nele. E, hoje ainda, quando escuto a Ave Maria \u00e0s seis da noite, lembro de quem me ensinou a viver. A ben\u00e7\u00e3o, minha v\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Carla Teixeira \u00e9 neta de Creusa e filha de Er\u00f3. De ouvir os conselhos da av\u00f3 se fez jornalista, mestra e doutora. \u00c9 professora e coordenadora do curso de Jornalismo da Cat\u00f3lica. A primeira das mulheres da fam\u00edlia a celebrar essas conquistas. Ainda hoje, quando viaja para um congresso, agradece a D. Creusa por ter lhe incentivado o caminho. E acreditado em cada um de seus passos.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carla Teixeira Ela escondeu direitinho todas as hist\u00f3rias de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia que n\u00e3o fossem aquelas que quis contar. Teve um irm\u00e3o, Daniel, uma m\u00e3e, Josefa, n\u00e3o sei o nome de seu pai. Trabalhou na Renda Priori, morou na rua dos Pescadores, conheceu meu av\u00f4 no Batutas de S\u00e3o Jos\u00e9. 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