{"id":3189,"date":"2021-11-03T20:06:02","date_gmt":"2021-11-03T23:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=3189"},"modified":"2021-11-03T20:06:04","modified_gmt":"2021-11-03T23:06:04","slug":"com-o-que-ainda-tenho-de-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/com-o-que-ainda-tenho-de-mim\/","title":{"rendered":"Com o que ainda tenho de mim"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Concei\u00e7\u00e3o Tomaz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ela acordou sem saber ao certo como estava o seu humor. Quase diariamente, ela sabia, antes de abrir os olhos, qual o estado que guiaria o seu esp\u00edrito. Havia desenvolvido um term\u00f4metro secreto para saber como lidar com seus humores. Deu o nome de <em>morma\u00e7o <\/em>para os momentos pedregulhos sob os p\u00e9s descal\u00e7os e <em>deleite<\/em> para os momentos banhos de mar em dias de chuva. Mesmo querendo que sua palavra preferida, deleite, ganhasse o <em>round<\/em> do dia, sabia que seria imposs\u00edvel. Ent\u00e3o, para esta manh\u00e3, onde o aguaceiro tomava conta da cidade deserta, ela pensou em criar outro term\u00f4metro, pois n\u00e3o fazia a mais \u00ednfima ideia do que estava sentindo. Certeza mesmo era que sentia falta. Mas de qu\u00ea? Se perguntou e desenhou uma interroga\u00e7\u00e3o expectante no ar com a escova de dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que o isolamento fez com que as rela\u00e7\u00f5es enveredassem por uma estrada ainda desconhecida, mas todos que lhe importavam, al\u00e9m de estarem bem, mantinham contatos di\u00e1rios. N\u00e3o havia falta, mas saudade. Logo, se perguntou: de onde vem essa falta? Sentiu um aperto no peito ao ouvir um sussurro \u201cDe voc\u00ea mesma. A falta que sentes \u00e9s tu.\u201d Depois que aprendera a ouvir-se, toda hora estava l\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o em tudo o que jorrava de si.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas gente, eu estou aqui como jamais estive, cuspiu as palavras no ar. E calou-se com medo que as demais pessoas na casa ouvissem essa prosa interna extrapolando os limites permiss\u00edveis. Era muito cedo ainda, mas a faxina programada no dia anterior de repente pareceu a coisa mais maravilhosa do mundo. Arrega\u00e7ou as mangas.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a faxina corria solta, os pensamentos dela cruzaram uma ponte que jamais vira por ali. Mergulhando no que parecia um buraco sem fim, abriu-se um portal. Foi quando inaugurou uma f\u00e9 em si mesma. E avan\u00e7ou. Do outro lado, deu-se conta que a falta era de ser o que jamais fora. Entendeu que por esses dias livres, mas sem liberdade, ela havia de lidar e contentar-se em ser o que criou e n\u00e3o o que imaginava ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja bem, n\u00e3o sou uma mentira, argumentou com pouca for\u00e7a. Isso n\u00e3o. Em dias que respirava ar e n\u00e3o pedras, as ang\u00fastias eram dissolvidas e at\u00e9 resolvidas, mas ora, nestes tempos de preso-solto, como aguar a f\u00e9? Cada um est\u00e1 vivendo o que construiu para si nesse isolamento. Para o bem e para o mal. Por mais que quisesse escapulir dessa senten\u00e7a, a cada movimento afundava mais. De fato, esta \u00e9 a sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O aspirador trabalhava a todo vapor assim como o rodo, a faxina s\u00f3 acabaria para ela dormir exausta. Queria sentir-se exaurida. A falta de si mesma era como um barco \u00e0 deriva por cem anos, pensou enquanto finalizava o banheiro. Lembrou do livro de Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida. \u201c\u00c9 preciso sair da ilha, para conhecer a ilha\u201d. Nada nesse isolamento lhe faz mais falta que ela mesma. Seu humor. Sua risada. Sua vontade de fazer as coisas que lhe d\u00e3o mais prazer. Suas leituras. Seu momento de escrever. Tudo soterrado pela urg\u00eancia em sufocar, em rejeitar, em negar uma vida que n\u00e3o existe e que, convenhamos, jamais existiu. O alheamento de si mesma, numa licen\u00e7a antipo\u00e9tica, \u00e0s vontades das outras pessoas. Podia ser a l\u00e1pide dela. A casa ficou limp\u00edssima e ela estava exausta. Melhor dormir com o que ainda tenho de mim, foi o \u00faltimo lampejo antes de mergulhar num sono sem sonhos. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Concei\u00e7\u00e3o Tomaz Ela acordou sem saber ao certo como estava o seu humor. Quase diariamente, ela sabia, antes de abrir os olhos, qual o estado que guiaria o seu esp\u00edrito. Havia desenvolvido um term\u00f4metro secreto para saber como lidar com seus humores. 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