{"id":3060,"date":"2021-09-22T19:35:52","date_gmt":"2021-09-22T22:35:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=3060"},"modified":"2021-09-22T19:35:53","modified_gmt":"2021-09-22T22:35:53","slug":"poses-a-beira-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/poses-a-beira-do-mar\/","title":{"rendered":"Poses \u00e0 beira do mar"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Adriana D\u00f3ria Matos<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/IMG-20210922-WA0049.jpg?resize=768%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-3061\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/IMG-20210922-WA0049-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/IMG-20210922-WA0049-480x640.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 768px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Elas estavam todas bem aprontadas para aquele momento. Chegaram com todo o aparato: as roupas especiais, pessoas da fam\u00edlia e amigos que lhes serviam de apoio e primeiro p\u00fablico, os fot\u00f3grafos que lhes fariam deslumbrantes, e o cen\u00e1rio de sonho para emoldurar tudo. <\/p>\n\n\n\n<p>A primeira que apareceu foi a mocinha, vinha com a m\u00e3e, o pai, duas irm\u00e3s mais novas, meninas ainda, o fot\u00f3grafo e a fot\u00f3grafa. Al\u00e9m deles e suas m\u00e1quinas profissionais, o pai e a m\u00e3e dispunham tamb\u00e9m das c\u00e2meras dos seus celulares para os registros.<\/p>\n\n\n\n<p>A beira do mar era o cen\u00e1rio em comum e, assim como eu, outras pessoas estavam por ali, aproveitando aquela tarde gostosa em que o mar rugia e se movimentava afoito numa conversa com o vento, que soprava forte.<\/p>\n\n\n\n<p>A mocinha de 15 anos se postava diante das c\u00e2meras, olhava bem para todas elas \u2013 as dos fot\u00f3grafos e as dos pais, aproveitava aquele momento de aten\u00e7\u00e3o total que seria eternizado em imagens, imitava gestuais de modelo. As duas meninas, que de in\u00edcio tamb\u00e9m ficaram mobilizadas pela encena\u00e7\u00e3o, logo se dispersaram, tiraram as sand\u00e1lias e foram brincar com as ondas, ensaiando passos de dan\u00e7a. Uma delas segurava os tr\u00eas bal\u00f5es em forma de cora\u00e7\u00e3o cujo vermelho vibrante serviria em breve como acess\u00f3rio para outra cena da Estrela da Tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto essa caravana se encaminhava mais ao sul da orla, apareceu a primeira gr\u00e1vida e seu s\u00e9quito. Ela e a fot\u00f3grafa postaram-se \u00e0 nossa frente, de modo que n\u00e3o foi nenhum esfor\u00e7o assistir \u00e0quela sess\u00e3o. Ela usava um vestido branco, com cauda, colado ao corpo, que ressaltava a majestade de sua barriga. <\/p>\n\n\n\n<p>Ali, com o mar ao fundo, cabelos voando, ondas lambendo os p\u00e9s, a mulher me trouxe Yemanj\u00e1, que \u00e9 a m\u00e3e de todos os orix\u00e1s, portanto, a provedora da vida. N\u00e3o sei como aquela fam\u00edlia toda de branco \u2013 m\u00e3e, feto, pai, irm\u00e3 mais velha \u2013 que se postou diante do mar e da c\u00e2mera zelosa da fot\u00f3grafa acolhe essa M\u00e3e Ancestral, mas eles pareciam que estavam na festa de 2 de fevereiro, quando os brasileiros celebram a Rainha do Mar. Gostei de contemplar aquilo e at\u00e9 cantarolei: \u201cEu vi, eu vi, eu vi minha m\u00e3e Yemanj\u00e1\/ Eu vi a sereia, eu vi a sereia cantar&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas aquela tarde de quase primavera tropical ainda me reservava a vis\u00e3o de outras maternidades. Outras geradoras que se desejam eternizadas em fotografias produzidas, em roupas especialmente escolhidas, em cores, adere\u00e7os, s\u00edmbolos desse desejo nosso de transcender ao banal dos dias, daquilo que em geral n\u00e3o se fotografa, porque desprovido dessa beleza que imaginamos e queremos mostrar ao mundo. S\u00e3o imagens distantes daquilo que se constitui a exist\u00eancia palp\u00e1vel que n\u00e3o se ver\u00e1 nas fotos, mas que ser\u00e1 o p\u00e3o nosso de cada dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Num colorido que se misturava perfeitamente \u00e0s cores que o ocaso vai tecendo, as outras gr\u00e1vidas vestiam, cada uma na sua fantasia, vestidos longos em rosa e amarelinho. Suas poses, \u00e0 dist\u00e2ncia, se misturavam aos tons da areia e \u00e0 cartela sofisticad\u00edssima que o crep\u00fasculo cumpria. De vez em quando, um flash quebrava aquela harmonia que teimava em se instalar entre elas e a natureza, lembrando o artif\u00edcio a que se propunham.<\/p>\n\n\n\n<p>O dia foi se despedindo e, \u00e0quela altura, os vultos ficavam cada vez mais indistintos, eram formas que se desmontavam, cenas que se extinguiam, partiam, aqueles aparatos todos ocupando caixas, sendo guardados para outra ocasi\u00e3o, para outra tarde limpa e bela, em que os elementos da natureza \u2013 \u00e1gua, terra, ar e o fogo da vida \u2013 se prestar\u00e3o como moldura. Supus, junto com o anoitecer, que fotos dormir\u00e3o nos \u00e1lbuns de fam\u00edlia, impressos, se tanto, folheados em momentos especiais quando, de todo absortos das nossas obriga\u00e7\u00f5es, desejaremos mais uma vez sonhar com aquela brisa de c\u00e9u e mar que, no entanto, mal vivemos, ocupados que estivemos em eternizar nossas poses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Adriana D\u00f3ria Matos<\/strong>, jornalista formada pela Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco, com mestrado em Teoria da Literatura pela UPFE, professora do curso de Jornalismo da Unicap e editora da revista cultural Continente. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana D\u00f3ria Matos Elas estavam todas bem aprontadas para aquele momento. Chegaram com todo o aparato: as roupas especiais, pessoas da fam\u00edlia e amigos que lhes serviam de apoio e primeiro p\u00fablico, os fot\u00f3grafos que lhes fariam deslumbrantes, e o cen\u00e1rio de sonho para emoldurar tudo. 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