{"id":2984,"date":"2021-09-01T22:34:13","date_gmt":"2021-09-02T01:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=2984"},"modified":"2021-09-01T22:34:14","modified_gmt":"2021-09-02T01:34:14","slug":"coluna-de-quarta-falando-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/coluna-de-quarta-falando-de-cinema\/","title":{"rendered":"Coluna de quarta: Falando de cinema"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Alexandre Figuer\u00f4a<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Foto_Blog-3.jpg?resize=1024%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2985\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Foto_Blog-3-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Foto_Blog-3-980x980.jpg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Foto_Blog-3-480x480.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption>Cena do document\u00e1rio O Outro Lado de Hollywood<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de filmes com tem\u00e1tica LGBTQIA+ teve um grande crescimento nas \u00faltimas d\u00e9cadas. A luta dos movimentos encabe\u00e7ados por gays, l\u00e9sbicas, transg\u00eaneros, entre outros grupos minorit\u00e1rios, a partir da d\u00e9cada de 1970, garantiu a conquista de direitos a eles sempre negados, permitiu a criminaliza\u00e7\u00e3o dos atos de homofobia e, no universo da cultura, a intoler\u00e2ncia, a censura e a marginaliza\u00e7\u00e3o deixaram de ser a regra quando se trata de obras que abordam a homossexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, o clima de liberdade observado nos dias de hoje \u00e9 algo relativamente recente. Uma das maiores fontes de realiza\u00e7\u00e3o f\u00edlmica do planeta, Hollywood, conhecida por muito tempo como a meca do cinema, desde os prim\u00f3rdios, colocou a homossexualidade dentro do arm\u00e1rio. Figuras estereotipadas, criaturas infelizes, linguagem figurada, met\u00e1foras, ou pior, vigil\u00e2ncia, puni\u00e7\u00e3o e fins tr\u00e1gicos era a t\u00f4nica das tramas de filmes com personagens LGBTQIA+ at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980. E uma boa op\u00e7\u00e3o para saber como isso acontecia \u00e9 assistir O Outro Lado de Hollywood (The Celluloid Closet, 1995), document\u00e1rio realizado por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, dispon\u00edvel em vers\u00e3o legendada no YouTube.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 baseado no livro hom\u00f4nimo de Vito Russo, fruto de uma pesquisa acad\u00eamica e publicado em 1981. Ele examina a representa\u00e7\u00e3o de personagens que n\u00e3o seguiam os padr\u00f5es heteronormativos nas produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas de Hollywood, resgata a hist\u00f3ria de gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e transg\u00eaneros no cinema, e analisa as reflex\u00f5es negativas e positivas dos personagens, e tamb\u00e9m dos atores e atrizes. Lembrando que, entre 1930 e 1968, os est\u00fadios de Hollywood estavam sob a tutela do C\u00f3digo Hays, um conjunto de normas morais aplicadas a qualquer filme lan\u00e7ado nos Estados Unidos e que dizia o que era aceit\u00e1vel e n\u00e3o aceit\u00e1vel numa obra cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua pesquisa, Russo \u2013 que participou ativamente na constru\u00e7\u00e3o do roteiro junto com os diretores \u2013 buscava compreender por que nos filmes se falava de forma enviesada, ou simplesmente n\u00e3o se falava, de sujeitos atra\u00eddos por pessoas do mesmo sexo, haja vista o poder de influ\u00eancia e persuas\u00e3o dessas obras assistidas por plateias do mundo inteiro.&nbsp;O mais relevante do document\u00e1rio \u00e9 o material de arquivo ao qual os cineastas tiveram acesso. O trabalho paciente e minucioso de pesquisa \u00e9 percebido com clareza e deixa qualquer cin\u00e9filo em \u00eaxtase pela quantidade de trechos de obras onde a tem\u00e1tica homossexual era mais evidente, mas tamb\u00e9m pelas cenas e subtextos que est\u00e3o presentes nos filmes e poderiam passar despercebidos. Dessa forma a invisibilidade a que foram submetidos personagens LGBTQIA+ \u00e9 reparada, com gays e l\u00e9sbicas ganhando outra dimens\u00e3o, ou seja, do papel secund\u00e1rio nas obras originais eles se transformam em protagonistas na narrativa constru\u00edda pelo document\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme segue um estilo bastante comum nos document\u00e1rios norte americanos (conhecido como show and tell, mostre e conte) articulando os fragmentos dos filmes com depoimentos de pessoas que de alguma forma est\u00e3o conectados com o tema. A narrativa \u00e9 da atriz Lily Tomlin e foge da simples especula\u00e7\u00e3o. Ela traz, al\u00e9m de sequ\u00eancias reveladoras, depoimentos de quem sabe do que est\u00e1 falando: roteiristas, produtores e atores de Hollywood. Entre os entrevistados encontramos nomes como Whoopi Goldberg, Tony Curtis, Tom Hanks, Susan Sarandon, Gore Vidal, entre outros. Nos depoimentos, eles relatam as situa\u00e7\u00f5es que viveram ou testemunharam. Caso de Tony Curtis ao relembrar o corte sofrido, por press\u00e3o do est\u00fadio, no filme Spartacus (1960), de Stanley Kubrick, da cena protagonizada por ele e o ator Laurence Olivier onde ocorre um flerte entre os personagens em uma banheira. A cena foi restaurada quando uma nova vers\u00e3o foi lan\u00e7ada em 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>Assistindo <em>O Outro Lado de Hollywood<\/em> constatamos que at\u00e9 os anos 80 os personagens gays entravam em cena para fazer rir, para se ter pena ou para se temer. O document\u00e1rio aponta a exist\u00eancia de tr\u00eas fases da forma de abordagem. Nos anos 20, os gays s\u00e3o caracterizados como afeminados caricatos; a partir de 1934 s\u00e3o criaturas perturbadas, pecadores que t\u00eam que pagar por suas prefer\u00eancias sexuais, em geral se suicidam ou s\u00e3o mortos; e, depois dos anos 70, eles se tornam vil\u00f5es e assassinos, com tra\u00e7os de desequil\u00edbrio mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecer de perto essa hist\u00f3ria \u00e9, portanto, um exerc\u00edcio valioso. Vale ressaltar que esse contexto, em maior ou menor escala, foi vivenciado por cinematografias no mundo inteiro. No cinema brasileiro os personagens LGBTQIA+ foram submetidos a situa\u00e7\u00f5es semelhantes, basta lembrar das figuras estereotipadas dos gays nas pornochanchadas dos anos 70 e 80 e da censura do per\u00edodo da ditadura militar. Felizmente, hoje, temos uma diversidade de filmes, al\u00e9m de mostras e festivais, que rompem com esse paradigma e mostram uma vis\u00e3o real das quest\u00f5es de g\u00eanero no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sub>*Homenagem ao cr\u00edtico e cineasta Fernando Spencer que durante anos manteve no r\u00e1dio e na televis\u00e3o um programa intitulado Falando de Cinema.<\/sub><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><sub>Alexandre Figueir\u00f4a \u00e9 doutor em Estudos Cinematogr\u00e1ficos e Audiovisuais e professor do curso de Jornalismo e do Mestrado Profissional em Ind\u00fastrias Criativas da Unicap.<\/sub><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Figuer\u00f4a A produ\u00e7\u00e3o de filmes com tem\u00e1tica LGBTQIA+ teve um grande crescimento nas \u00faltimas d\u00e9cadas. 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