{"id":2946,"date":"2021-08-25T18:11:36","date_gmt":"2021-08-25T21:11:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=2946"},"modified":"2021-08-27T18:57:25","modified_gmt":"2021-08-27T21:57:25","slug":"coluna-de-quarta-historia-para-contar-o-menino-e-a-pelaja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/coluna-de-quarta-historia-para-contar-o-menino-e-a-pelaja\/","title":{"rendered":"Coluna de quarta: Hist\u00f3ria para contar                                                     &#8220;O Menino e a Peleja&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Marcelo Dantas<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"364\" height=\"507\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/MoacyrDantas_editada.jpg?resize=364%2C507&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2966\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/MoacyrDantas_editada.jpg?w=364&amp;ssl=1 364w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/MoacyrDantas_editada.jpg?resize=215%2C300&amp;ssl=1 215w\" sizes=\"auto, (max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Jornalista Moacyr Dantas, o pai menino dessa peleja<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds, um menino travava uma luta que encharcava &#8211; de suor, de chuva e do rio. A peleja era para pegar um bicho, que era maior do que grande. O rabo era quase uma sucuri, o corpo um elefante, a cabe\u00e7a um drag\u00e3o. Se os antigos fossem contempor\u00e2neos confundiriam com uma quimera, mas era criatura mais gostosa, assadinha e acompanhada de farinha \u00e9 uma maravilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma faca na boca mergulha no fundo do rio e corta a linha da rede. De algum modo, provavelmente cinematogr\u00e1fico, coloca aquele ser, que parecia a espada de um gigante, numa canoa que quase morre afogada. Remava antes que o anoitecer engolisse a lamparina.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem sucuri, elefante, drag\u00e3o ou quimera, muito menos a espada de n\u00e3o sei quem, o danado do bicho era um peixe, o pirarucu, ali\u00e1s, Pirarucu, para fazer jus \u00e0 grandeza. J\u00e1 o menino era um menino mesmo, que morava em algum ponto do Amazonas, ponto esse chamado Curari. A crian\u00e7a, que n\u00e3o tinha medo nem de se engasgar com a espinha do nadador, cresceu, viajou e me deu a oportunidade de cham\u00e1-la de pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Moacyr de Sena Dantas \u00e9 uma daquelas figuras que at\u00e9 quem tem raiva ama, que faz rubro-negro torcer pelo Santa Cruz, que n\u00e3o dorme ao saber que tem gente sem cama. O jornalista nasceu na d\u00e9cada de 1930 e pegou o pa\u00eds em tanta transforma\u00e7\u00e3o, que nem a Metamorfose Ambulante do Raul Seixas conseguiria acompanhar. Atravessou com bravura os tempos hemorr\u00e1gicos da ditadura empresarial-militar, foi perseguido, preso e torturado, mas n\u00e3o parou de construir um mundo que fizesse valer o lema dos russos, l\u00e1 de antes dele nascer, um mundo que atendesse ao clamor por paz, terra, p\u00e3o e trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, painho n\u00e3o vai poder ler esse texto do jeito que eu gostaria. Foi uma das v\u00edtimas do v\u00edrus, o da falsa facada, que incentiva a morte com um riso canalha na boca putrefata.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, painho est\u00e1 lendo de um jeito que ainda tento entender, um jeito que carrega tanta dor nesse m\u00fasculo cansado, trancado por uma gaiola tor\u00e1cica, que encolhe com a umidade das l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, painho vira menino e mergulha no rio de pelejas com o peixe, sem apressar a remada por conta da noite, sem ter a fome apertando por tr\u00e1s do umbigo, sem preocupa\u00e7\u00f5es com uma sociedade adoecida pelas m\u00e1quinas de fazer dinheiro, pelas m\u00e1quinas de moer humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, painho, ali\u00e1s, Painho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo Dantas, filho de Elizete e Moacyr, criado no meio da Educa\u00e7\u00e3o, Jornalismo, Cultura e Movimentos Sociais, cresceu e foi estudar Hist\u00f3ria, para entender que queria ser escritor e jornalista. Vive tentando materializar o abstrato.* Historiador (UFPE), estudante de Jornalismo (Unicap) e escritor (contos publicados nas antologias &#8220;Luz Severa&#8221;, editora Baga\u00e7o, e &#8220;Tempo Partido&#8221;, editora Novo Estilo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcelo Dantas Jornalista Moacyr Dantas, o pai menino dessa peleja Na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds, um menino travava uma luta que encharcava &#8211; de suor, de chuva e do rio. A peleja era para pegar um bicho, que era maior do que grande. 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