{"id":2937,"date":"2021-08-20T17:57:31","date_gmt":"2021-08-20T20:57:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=2937"},"modified":"2021-08-26T22:25:42","modified_gmt":"2021-08-27T01:25:42","slug":"coluna-de-sexta-a-memoria-que-cabe-nas-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/coluna-de-sexta-a-memoria-que-cabe-nas-coisas\/","title":{"rendered":"Coluna de sexta: A mem\u00f3ria que cabe nas coisas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Adriana D\u00f3ria Matos<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Foto_Blog.jpg?resize=1024%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2938\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Foto_Blog-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Foto_Blog-980x980.jpg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Foto_Blog-480x480.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Se pensamento fosse mat\u00e9ria, n\u00e3o ia caber na nossa cabe\u00e7a. Acho que n\u00e3o ia caber nem na nossa casa inteira. No bairro onde moramos, ser\u00e1? Porque o pensamento \u00e9 incessante, como um rio passando. A gente pensa, pensa, pensa de novo\u2026 Um pensamento que a gente achava que tinha ido embora, volta, assunta e pode aperrear. Fazer medo, feito fantasma. Tem pensamento que cresce, porque a gente deu fermento a ele, ficou alimentando. A sabedoria talvez esteja em diferenciar aqueles que a gente deve adubar e os que a gente precisa deixar ir, como barcos sobre o rio, que l\u00e1 se v\u00e3o e a gente fica olhando sumir.<br>Eu trouxe isso do pensamento incessante nem tanto porque tem algum me molestando no momento, mas porque esses dias andei pensando bastante sobre mem\u00f3ria. E esse jeito de pensar agora foi despretensioso, quase banal, porque foi estimulado pela aten\u00e7\u00e3o que dei a alguns objetos da minha casa, heran\u00e7as de pessoas queridas e momentos vividos. E a ideia que tive foi que se tudo que eu vivi com meus amados permanecesse como alguns dos objetos que guardo dessa hist\u00f3ria, ia ser igual aos meus pensamentos: n\u00e3o iam caber nem dentro da minha cidade.<br>Parece loucura isso que estou dizendo, mas veja se n\u00e3o faz sentido. A gente guarda nas nossas casas coisas as mais variadas que s\u00e3o registros de momentos que vivemos e n\u00e3o queremos esquecer. Coloque na sua lista mental aquilo que guarda por afeto, desde uma pe\u00e7a de roupa a um m\u00f3vel grande. Provavelmente voc\u00ea guarda o cart\u00e3o de Natal \u2013 t\u00e3o lindo \u2013 que sua av\u00f3 escreveu pra voc\u00ea no ano passado ou a camisa daquela banda que voc\u00ea curtia na adolesc\u00eancia. Se voc\u00ea teve sorte na vida, ainda conseguiu encontrar uma filial da Tabira Filmes e imprimiu algumas fotografias, colocando-as em porta-retratos, e lembrando sempre daqueles momentos.<br>Mas, repare, essas coisas que a gente guarda, que podem ser at\u00e9 excessivas para o nosso espa\u00e7o f\u00edsico, s\u00e3o pouqu\u00edssimas, em rela\u00e7\u00e3o ao vivido. S\u00e3o vest\u00edgios, aos quais a gente se agarra para n\u00e3o esquecer. Foi por isso que fiquei pensando em mem\u00f3ria como aquilo que a gente lembra e quer lembrar, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que a gente esquece, querendo ou n\u00e3o. Eu queria tanto lembrar de certas coisas que eu vivi, mas esqueci, n\u00e3o sei onde foram parar. Acontece que esses objetos que mantenho em casa, essas rel\u00edquias da experi\u00eancia, me remetem quase sempre \u00e0s mesmas situa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es. Claro que gosto de cultivar essas coisas que eu amo, mas, \u00e0s vezes, sinto falta daquilo que n\u00e3o lembro e que n\u00e3o volta a minha cabe\u00e7a.<br>Estou pensando essa rela\u00e7\u00e3o entre a mat\u00e9ria e a mem\u00f3ria nesse espa\u00e7o \u00edntimo, pequeno, meu. E no quanto algumas coisas simplesmente deixaram de existir para mim porque n\u00e3o lembro delas e n\u00e3o tenho nenhum artefato que me instigue a lembrar. Mas e se a gente ampliar essa ideia para uma cidade, um pa\u00eds? O quanto deixa de existir na mem\u00f3ria daquela comunidade, porque n\u00e3o existe um pedacinho de pedra sequer que diga a ela: \u201cOlha, essa pedra aqui foi sua tatarav\u00f3 que pintou de verde, porque naquela \u00e9poca o verde era a cor sagrada da vida\u201d?<br>Porque cultivar nossa mem\u00f3ria e contar com ativadores para ela \u00e9 um jeito de n\u00e3o morrer. \u00c9 um jeito de eternizar a vida daqueles que n\u00e3o est\u00e3o mais aqui, daquilo que fizeram antes da gente chegar e de compartilhar com eles essa vida deles, que \u00e9 a nossa, por extens\u00e3o.<br>Hoje eu olho para essas coisas banais que me cercam, os porta-retratos com fotos dos meus filhos pequenos, de mim mesma mais jovem, do meu amado companheiro; olho para aquele potinho que vov\u00f3 me legou, para a lumin\u00e1ria de anjinho com que minha m\u00e3e me presenteou; passo a m\u00e3o na c\u00f4moda de madeira que minha sogra comprou para acomodar as roupas do meu primog\u00eanito, neto dela; abro na estante o livro que tem o selo da loja que eu frequentava e que fechou h\u00e1 tempos e tudo isso me diz quem eu sou, cada passo que dei junto com eles. O tempo e a vida toda ali, naquelas coisas singelas, cheias de sentido e amor.<br>Quero viver essa emo\u00e7\u00e3o andando pela minha cidade, quero que as pessoas que est\u00e3o chegando agora \u2013 e nem precisa que a gente se conhe\u00e7a pessoalmente \u2013 possam compartilhar vida comigo, com aquilo que temos sido: a pedra verde da tatarav\u00f3, voc\u00ea, eu, n\u00f3s, essa fam\u00edlia c\u00f3smica feita de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sub>Adriana D\u00f3ria Matos, jornalista formada pela Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco, tem mestrado em Teoria da Literatura pela UFPE. \u00c9 professora do curso de Jornalismo da Unicap e editora da revista cultural Continente.<\/sub><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana D\u00f3ria Matos Se pensamento fosse mat\u00e9ria, n\u00e3o ia caber na nossa cabe\u00e7a. Acho que n\u00e3o ia caber nem na nossa casa inteira. No bairro onde moramos, ser\u00e1? 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