{"id":2907,"date":"2021-08-06T21:30:38","date_gmt":"2021-08-07T00:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=2907"},"modified":"2021-08-06T22:31:17","modified_gmt":"2021-08-07T01:31:17","slug":"coluna-de-sexta-quando-a-interseccionalidade-sobe-ao-podio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/coluna-de-sexta-quando-a-interseccionalidade-sobe-ao-podio\/","title":{"rendered":"Coluna de sexta: Quando a interseccionalidade       sobe ao p\u00f3dio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Por Carla Teixeira<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-06-at-21.09.59-1.jpeg?resize=1024%2C682&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2909\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-06-at-21.09.59-1-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-06-at-21.09.59-1-980x653.jpeg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/WhatsApp-Image-2021-08-06-at-21.09.59-1-480x320.jpeg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nas Olimp\u00edadas de T\u00f3quio, o gesto da atleta americana Raven Saunders, que ergueu os bra\u00e7os em X ao subir ao p\u00f3dio para receber a medalha de prata no arremesso de peso feminino, era um protesto. E quase foi punido pelo Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional. O X representa a intersec\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e g\u00eanero, remetendo \u00e0 identidade de Saunders: uma jovem de 25 anos, negra e l\u00e9sbica. Segundo ela, o gesto representava a \u201cinterse\u00e7\u00e3o onde todas as pessoas oprimidas se encontram\u201d. A pot\u00eancia do protesto ganhou espa\u00e7o na cobertura jornal\u00edstica de ve\u00edculos de todo o mundo e, ainda, nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>A Interseccionalidade fala sobre esse encontro ou cruzamento. Debate os diversos modos como classe, ra\u00e7a, etnicidade, g\u00eanero e sexualidade atuam de forma articulada na conforma\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as, posi\u00e7\u00f5es de sujeito e desigualdade ou privil\u00e9gio social. A partir dessa perspectiva, busca-se compreender as estruturas de poder e domina\u00e7\u00e3o, tais como sexismo, racismo, homolesbotransfobia, e outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o, e como elas est\u00e3o relacionadas e se constituem mutuamente.&nbsp; Ou seja, parte-se de marcadores das diferen\u00e7as para se compreender como os m\u00faltiplos eixos de opress\u00e3o se produzem na sociedade e nas experi\u00eancias pessoais. As Olimp\u00edadas s\u00e3o apenas um recorte de uma realidade na qual nem todas as pessoas tem acesso a bens culturais, ao esporte, a pol\u00edticas p\u00fablicas, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. E sofrem a sobreposi\u00e7\u00e3o de opress\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de Interseccionalidade ganhou for\u00e7a na \u00faltima d\u00e9cada, n\u00e3o s\u00f3 na academia, mas, principalmente, nos movimentos sociais. A semente desse atravessamento surgiu em 1851, com o discurso de Sojourner Truth \u201cE eu n\u00e3o sou uma mulher?\u201d. Militante abolicionista, Sojouner nasceu escravizada em 1797, com o nome Isabella (o sobrenome variava de acordo com o propriet\u00e1rio). Adotou o nome Sojouner Truth, que significa verdade peregrina. Foi pioneira na luta pelos direitos civis dos negros e e das mulheres nos Estados Unidos. Naquele ano, Sojourner Truth foi participar, como espectadora, da Conven\u00e7\u00e3o dos Direitos da Mulher, em Ohio. Nessa conven\u00e7\u00e3o ela pediu o microfone e se contrap\u00f4s a religiosos conservadores, que pontificavam sobre a \u201cinferioridade\u201d da mulher. De improviso, ela proferiu o discurso \u201cE eu n\u00e3o sou uma mulher?\u201d (Ain\u2019t I a Woman?), uma fala curta e poderosa, que inspirou e impulsionou os movimentos pelo direito das mulheres e o combate ao racismo, al\u00e9m de tornar-se t\u00edtulo da obra fundamental de bell hooks sobre o feminismo negro. Para compreender como a fala de Truth aborda os direitos das mulheres em uma perspectiva interseccional, segue aqui um pequeno trecho:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAquele homem ali diz que \u00e9 preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, \u00e9 preciso carregar elas quando atravessam um lama\u00e7al e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ningu\u00e9m me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E n\u00e3o sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu bra\u00e7o! Eu capinei, eu plantei juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E n\u00e3o sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem \u2013 quando tinha o que comer \u2013 e tamb\u00e9m aguentei as chicotadas! E n\u00e3o sou mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de m\u00e3e, ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser Jesus, me ouviu! E n\u00e3o sou uma mulher?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: existiam as mulheres brancas, consideradas fr\u00e1geis e alvo de cuidado dos homens, e as mulheres negras, que trabalhavam tanto quanto os homens negros e eram vistas muitas vezes apenas sob dois aspectos: o da for\u00e7a de trabalho\/ geradora de m\u00e3o de obra e a erotiza\u00e7\u00e3o extrema do corpo negro. Algo que \u00e9 poss\u00edvel perceber at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem registrou o termo foi a pesquisadora e jurista estadunidense Kimberl\u00e9 Crenshaw \u2013 em 2002 \u2013 para quem a interseccionalidade \u00e9 uma conceitua\u00e7\u00e3o do problema que busca capturar as consequ\u00eancias estruturais e din\u00e2micas da intera\u00e7\u00e3o entre dois ou mais eixos de subordina\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 que a interseccionalidade busca compreender os problemas sociais, amplos, estruturais, as din\u00e2micas desses problemas, a partir de m\u00faltiplos eixos. Ou seja, articular esses m\u00faltiplos eixos que geram as desigualdades sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Kimberl\u00e9 Crenshaw, a intersecionalidade sugere que, \u201cna verdade, nem sempre lidamos com grupos distintos de pessoas e sim com grupos sobrepostos. (&#8230;) ao sobrepormos o grupo das mulheres com o das pessoas negras, o das pessoas pobres e tamb\u00e9m o das mulheres que sofrem discrimina\u00e7\u00e3o por conta da sua idade ou por serem portadoras e alguma defici\u00eancia, vemos que as que se encontram no centro \u2013 e acredito que isso n\u00e3o ocorre por acaso \u2013 s\u00e3o as mulheres de pele mais escura e tamb\u00e9m as que tendem a ser as mais exclu\u00eddas das pr\u00e1ticas tradicionais de direitos civis e humanos.\u201c<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a pesquisadora L\u00e9lia Gonzalez foi respons\u00e1vel por unir classe social, g\u00eanero e ra\u00e7a na observa\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos sociais. Segundo ela, \u201cO racismo \u2014 enquanto articula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e conjunto de pr\u00e1ticas \u2014 denota sua efic\u00e1cia estrutural na medida em que estabelece uma divis\u00e3o racial do trabalho e \u00e9 compartilhado por todas as forma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas capitalistas e multirraciais contempor\u00e2neas\u201d. Para ilustrar a afirmativa da pesquisadora, temos dados do Ipea \u2013 Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada de 2016, que mostram que mulheres brancas recebem 70% a mais que mulheres negras. E, embora, pela primeira vez, os negros sejam maioria no ensino superior p\u00fablico brasileiro, eles ainda s\u00e3o minoria nas posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a no mercado de trabalho e entre os representantes pol\u00edticos no Legislativo. Entre aqueles que n\u00e3o t\u00eam emprego ou est\u00e3o subocupados, negros s\u00e3o a maior parte, de acordo com dados do IBGE. Tamb\u00e9m s\u00e3o a maior parte entre as v\u00edtimas de homic\u00eddio e comp\u00f5em mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dado relevante para compreender a import\u00e2ncia da interseccionalidade: levantamento realizado pela G\u00eanero e N\u00famero, publicado em outubro de 2020 a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral indicava que os candidatos brancos eram 64% dos prefeit\u00e1veis de todo pa\u00eds, o que mostra que o cen\u00e1rio eleitoral ainda estava (e est\u00e1) longe de uma paridade racial. Em 2.152 munic\u00edpios brasileiros havia apenas candidaturas brancas (38,6%), enquanto apenas 80 munic\u00edpios apresentavam s\u00f3 candidaturas negras (8,62%) e um munic\u00edpio apenas candidaturas ind\u00edgenas (0,02%).<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e9lia colaborou ainda na perspectiva do feminismo negro \u201cA maioria dos textos, apesar de tratarem das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o sexual, social e econ\u00f4mica a que a mulher est\u00e1 submetida, assim como da situa\u00e7\u00e3o das mulheres das camadas mais pobres etc. etc., n\u00e3o atentam para o fato da opress\u00e3o racial. As categorias utilizadas s\u00e3o exatamente aquelas que neutralizam o problema da discrimina\u00e7\u00e3o racial e, consequentemente, o do confinamento a que a comunidade negra est\u00e1 reduzida\u201d. &nbsp;Neste sentido, a interseccionalidade permite compreender, por exemplo, que as viv\u00eancias de mulheres brancas e negras s\u00e3o distintas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na obra \u201cInterseccionalidade\u201d, a pesquisadora baiana Carla Akotirene destaca que nessa perspectiva te\u00f3rica, em vez de somar identidades, analisa-se quais condi\u00e7\u00f5es estruturais atravessam corpos, quais posicionamentos reorientam significados subjetivos desses corpos, por serem experi\u00eancias modeladas por e durante a intera\u00e7\u00e3o das estruturas colonialistas, estabilizadas pela matriz de opress\u00e3o, sob a forma de identidade. Por sua vez a identidade n\u00e3o pode se abster de nenhuma das suas marca\u00e7\u00f5es, mesmo que nem todas, contextualmente, estejam sejam explicitadas. A pesquisadora defende que a interseccionalidade observa \u201ca partir da avenida estruturada pelo racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, em seus m\u00faltiplos tr\u00e2nsitos, para revelar quais s\u00e3o as pessoas realmente acidentadas pela matriz de opress\u00f5es\u201d. Importa, portanto, um feminismo que trabalhe como projeto coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o termo surgiu como uma conceitua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e de interven\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, hoje ele vai al\u00e9m. Para Fl\u00e1via Rios, pesquisadora da Afro-Cebrap &#8211; N\u00facleo de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o em Ra\u00e7a, G\u00eanero e Justi\u00e7a Racial, a interseccionalidade est\u00e1 atrelada ao campo jur\u00eddico, como ferramenta de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, nos movimentos sociais. Est\u00e1 tamb\u00e9m na ONU, como instrumento pol\u00edtico para combater as desigualdades.<\/p>\n\n\n\n<p>A interseccionalidade deveria permear as pol\u00edticas p\u00fablicas, porque g\u00eanero, ra\u00e7a e classe social s\u00e3o matrizes de opress\u00e3o e interferem diretamente no acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Afeta tamb\u00e9m a circula\u00e7\u00e3o das pessoas pela cidade, a forma como ela \u00e9 ocupada, o acesso a bens culturais, na viol\u00eancia dom\u00e9stica. As viv\u00eancias de cada um e cada uma daqueles que sofrem essas opress\u00f5es \u2013 mulheres, negros e negras, ind\u00edgenas, gays, l\u00e9sbicas, pessoas com defici\u00eancia \u2013 ganham mais for\u00e7a quando observadas em uma perspectiva interseccional, contribuindo em uma compreens\u00e3o mais ampla os fen\u00f4menos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando pensamos na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, a interseccionalidade \u00e9 uma perspectiva norteadora. A presen\u00e7a das minorias pol\u00edticas com suas distintas viv\u00eancias \u00e9 necess\u00e1ria, seja constru\u00e7\u00e3o de campanhas publicit\u00e1rias ou em textos e produtos jornal\u00edsticos, no desenvolvimento de jogos e softwares, na intelig\u00eancia artificial, nos algoritmos, nos espa\u00e7os da cidade. Precisamos de equipes mais diversas, que abarquem as mudan\u00e7as e diferen\u00e7as que vemos no mundo, combatendo as opress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-small-font-size\"><strong><em>Carla Teixeira \u00e9 jornalista, doutora em Design, coordenadora do curso de Jornalismo e do eixo Interseccionalidade da Cl\u00ednica de Direitos Humanos do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Direito da Unicap.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carla Teixeira Nas Olimp\u00edadas de T\u00f3quio, o gesto da atleta americana Raven Saunders, que ergueu os bra\u00e7os em X ao subir ao p\u00f3dio para receber a medalha de prata no arremesso de peso feminino, era um protesto. E quase foi punido pelo Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional. 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A partir dessa perspectiva, busca-se compreender as estruturas de poder e domina\u00e7\u00e3o, tais como sexismo, racismo, homolesbotransfobia, e outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o, e como elas est\u00e3o relacionadas e se constituem mutuamente.\u00a0 Ou seja, parte-se de marcadores das diferen\u00e7as para se compreender como os m\u00faltiplos eixos de opress\u00e3o se produzem na sociedade e nas experi\u00eancias pessoais. As Olimp\u00edadas s\u00e3o apenas um recorte de uma realidade na qual nem todas as pessoas tem acesso a bens culturais, ao esporte, a pol\u00edticas p\u00fablicas, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. E sofrem a sobreposi\u00e7\u00e3o de opress\u00f5es.\u00a0\u00a0<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>O conceito de Interseccionalidade ganhou for\u00e7a na \u00faltima d\u00e9cada, n\u00e3o s\u00f3 na academia, mas, principalmente, nos movimentos sociais. A semente desse atravessamento surgiu em 1851, com o discurso de Sojourner Truth \u201cE eu n\u00e3o sou uma mulher?\u201d. Militante abolicionista, Sojouner nasceu escravizada em 1797, com o nome Isabella (o sobrenome variava de acordo com o propriet\u00e1rio). Adotou o nome Sojouner Truth, que significa verdade peregrina. Foi pioneira na luta pelos direitos civis dos negros e e das mulheres nos Estados Unidos. Naquele ano, Sojourner Truth foi participar, como espectadora, da Conven\u00e7\u00e3o dos Direitos da Mulher, em Ohio. Nessa conven\u00e7\u00e3o ela pediu o microfone e se contrap\u00f4s a religiosos conservadores, que pontificavam sobre a \u201cinferioridade\u201d da mulher. De improviso, ela proferiu o discurso \u201cE eu n\u00e3o sou uma mulher?\u201d (Ain\u2019t I a Woman?), uma fala curta e poderosa, que inspirou e impulsionou os movimentos pelo direito das mulheres e o combate ao racismo, al\u00e9m de tornar-se t\u00edtulo da obra fundamental de bell hooks sobre o feminismo negro. Para compreender como a fala de Truth aborda os direitos das mulheres em uma perspectiva interseccional, segue aqui um pequeno trecho:<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><em>\u201cAquele homem ali diz que \u00e9 preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, \u00e9 preciso carregar elas quando atravessam um lama\u00e7al e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ningu\u00e9m me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E n\u00e3o sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu bra\u00e7o! Eu capinei, eu plantei juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E n\u00e3o sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem \u2013 quando tinha o que comer \u2013 e tamb\u00e9m aguentei as chicotadas! E n\u00e3o sou mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de m\u00e3e, ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser Jesus, me ouviu! E n\u00e3o sou uma mulher?\u201d<\/em><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Ou seja: existiam as mulheres brancas, consideradas fr\u00e1geis e alvo de cuidado dos homens, e as mulheres negras, que trabalhavam tanto quanto os homens negros e eram vistas muitas vezes apenas sob dois aspectos: o da for\u00e7a de trabalho\/ geradora de m\u00e3o de obra e a erotiza\u00e7\u00e3o extrema do corpo negro. Algo que \u00e9 poss\u00edvel perceber at\u00e9 hoje.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Quem registrou o termo foi a pesquisadora e jurista estadunidense Kimberl\u00e9 Crenshaw \u2013 em 2002 \u2013 para quem a interseccionalidade \u00e9 uma conceitua\u00e7\u00e3o do problema que busca capturar as consequ\u00eancias estruturais e din\u00e2micas da intera\u00e7\u00e3o entre dois ou mais eixos de subordina\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 que a interseccionalidade busca compreender os problemas sociais, amplos, estruturais, as din\u00e2micas desses problemas, a partir de m\u00faltiplos eixos. Ou seja, articular esses m\u00faltiplos eixos que geram as desigualdades sociais.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Para Kimberl\u00e9 Crenshaw, a intersecionalidade sugere que, \u201cna verdade, nem sempre lidamos com grupos distintos de pessoas e sim com grupos sobrepostos. (...) ao sobrepormos o grupo das mulheres com o das pessoas negras, o das pessoas pobres e tamb\u00e9m o das mulheres que sofrem discrimina\u00e7\u00e3o por conta da sua idade ou por serem portadoras e alguma defici\u00eancia, vemos que as que se encontram no centro \u2013 e acredito que isso n\u00e3o ocorre por acaso \u2013 s\u00e3o as mulheres de pele mais escura e tamb\u00e9m as que tendem a ser as mais exclu\u00eddas das pr\u00e1ticas tradicionais de direitos civis e humanos.\u201c<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>No Brasil, a pesquisadora L\u00e9lia Gonzalez foi respons\u00e1vel por unir classe social, g\u00eanero e ra\u00e7a na observa\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos sociais. Segundo ela, \u201cO racismo \u2014 enquanto articula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e conjunto de pr\u00e1ticas \u2014 denota sua efic\u00e1cia estrutural na medida em que estabelece uma divis\u00e3o racial do trabalho e \u00e9 compartilhado por todas as forma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas capitalistas e multirraciais contempor\u00e2neas\u201d. Para ilustrar a afirmativa da pesquisadora, temos dados do Ipea \u2013 Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada de 2016, que mostram que mulheres brancas recebem 70% a mais que mulheres negras. E, embora, pela primeira vez, os negros sejam maioria no ensino superior p\u00fablico brasileiro, eles ainda s\u00e3o minoria nas posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a no mercado de trabalho e entre os representantes pol\u00edticos no Legislativo. Entre aqueles que n\u00e3o t\u00eam emprego ou est\u00e3o subocupados, negros s\u00e3o a maior parte, de acordo com dados do IBGE. Tamb\u00e9m s\u00e3o a maior parte entre as v\u00edtimas de homic\u00eddio e comp\u00f5em mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do pa\u00eds.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Outro dado relevante para compreender a import\u00e2ncia da interseccionalidade: levantamento realizado pela G\u00eanero e N\u00famero, publicado em outubro de 2020 a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral indicava que os candidatos brancos eram 64% dos prefeit\u00e1veis de todo pa\u00eds, o que mostra que o cen\u00e1rio eleitoral ainda estava (e est\u00e1) longe de uma paridade racial. Em 2.152 munic\u00edpios brasileiros havia apenas candidaturas brancas (38,6%), enquanto apenas 80 munic\u00edpios apresentavam s\u00f3 candidaturas negras (8,62%) e um munic\u00edpio apenas candidaturas ind\u00edgenas (0,02%).<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>L\u00e9lia colaborou ainda na perspectiva do feminismo negro \u201cA maioria dos textos, apesar de tratarem das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o sexual, social e econ\u00f4mica a que a mulher est\u00e1 submetida, assim como da situa\u00e7\u00e3o das mulheres das camadas mais pobres etc. etc., n\u00e3o atentam para o fato da opress\u00e3o racial. As categorias utilizadas s\u00e3o exatamente aquelas que neutralizam o problema da discrimina\u00e7\u00e3o racial e, consequentemente, o do confinamento a que a comunidade negra est\u00e1 reduzida\u201d. &nbsp;Neste sentido, a interseccionalidade permite compreender, por exemplo, que as viv\u00eancias de mulheres brancas e negras s\u00e3o distintas.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Na obra \u201cInterseccionalidade\u201d, a pesquisadora baiana Carla Akotirene destaca que nessa perspectiva te\u00f3rica, em vez de somar identidades, analisa-se quais condi\u00e7\u00f5es estruturais atravessam corpos, quais posicionamentos reorientam significados subjetivos desses corpos, por serem experi\u00eancias modeladas por e durante a intera\u00e7\u00e3o das estruturas colonialistas, estabilizadas pela matriz de opress\u00e3o, sob a forma de identidade. Por sua vez a identidade n\u00e3o pode se abster de nenhuma das suas marca\u00e7\u00f5es, mesmo que nem todas, contextualmente, estejam sejam explicitadas. A pesquisadora defende que a interseccionalidade observa \u201ca partir da avenida estruturada pelo racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, em seus m\u00faltiplos tr\u00e2nsitos, para revelar quais s\u00e3o as pessoas realmente acidentadas pela matriz de opress\u00f5es\u201d. Importa, portanto, um feminismo que trabalhe como projeto coletivo.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Se o termo surgiu como uma conceitua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e de interven\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, hoje ele vai al\u00e9m. Para Fl\u00e1via Rios, pesquisadora da Afro-Cebrap - N\u00facleo de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o em Ra\u00e7a, G\u00eanero e Justi\u00e7a Racial, a interseccionalidade est\u00e1 atrelada ao campo jur\u00eddico, como ferramenta de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, nos movimentos sociais. Est\u00e1 tamb\u00e9m na ONU, como instrumento pol\u00edtico para combater as desigualdades.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>A interseccionalidade deveria permear as pol\u00edticas p\u00fablicas, porque g\u00eanero, ra\u00e7a e classe social s\u00e3o matrizes de opress\u00e3o e interferem diretamente no acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Afeta tamb\u00e9m a circula\u00e7\u00e3o das pessoas pela cidade, a forma como ela \u00e9 ocupada, o acesso a bens culturais, na viol\u00eancia dom\u00e9stica. As viv\u00eancias de cada um e cada uma daqueles que sofrem essas opress\u00f5es \u2013 mulheres, negros e negras, ind\u00edgenas, gays, l\u00e9sbicas, pessoas com defici\u00eancia \u2013 ganham mais for\u00e7a quando observadas em uma perspectiva interseccional, contribuindo em uma compreens\u00e3o mais ampla os fen\u00f4menos sociais.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Quando pensamos na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, a interseccionalidade \u00e9 uma perspectiva norteadora. A presen\u00e7a das minorias pol\u00edticas com suas distintas viv\u00eancias \u00e9 necess\u00e1ria, seja constru\u00e7\u00e3o de campanhas publicit\u00e1rias ou em textos e produtos jornal\u00edsticos, no desenvolvimento de jogos e softwares, na intelig\u00eancia artificial, nos algoritmos, nos espa\u00e7os da cidade. Precisamos de equipes mais diversas, que abarquem as mudan\u00e7as e diferen\u00e7as que vemos no mundo, combatendo as opress\u00f5es.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"textColor\":\"black\",\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-small-font-size\"><strong><em>Carla Teixeira \u00e9 jornalista, doutora em Design, coordenadora do curso de Jornalismo e do eixo Interseccionalidade da Cl\u00ednica de Direitos Humanos do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Direito da Unicap.<\/em><\/strong><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->","_et_gb_content_width":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2907","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2907","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2907"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2907\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2918,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2907\/revisions\/2918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2907"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2907"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2907"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}