{"id":2863,"date":"2021-07-09T18:59:38","date_gmt":"2021-07-09T21:59:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/?p=2863"},"modified":"2021-07-09T19:16:22","modified_gmt":"2021-07-09T22:16:22","slug":"coluna-de-sexta-pra-que-serve-um-tamborete-quinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/coluna-de-sexta-pra-que-serve-um-tamborete-quinha\/","title":{"rendered":"Coluna de sexta: Pra que serve um tamborete, Quinha?"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Adriana D\u00f3ria Matos<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-1.jpg?resize=1024%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2864\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-1-980x980.jpg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-1-480x480.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Era uma tarde de dia de semana, antes, bem antes da pandemia, e eu estava no computador, trabalhando. Daqui a pouco, os barulhos que vinham da rua foram silenciados por uma voz potente que cantava alto: \u201cO tamboreeeeeeete, olha! O tamborete s\u00f3 paga cinco, olha! Ainda serve pra sentar, pra conversar, pra namorar, falar de bem, falar de maaaaaal, olha!\u201d. Olhei l\u00e1 pra baixo e avistei uma mulher empurrando um carrinho de m\u00e3o em que estavam empilhados uns seis tamboretes de madeira, presos com stick. Ela devia ter uns 45, 50 anos e me hipnotizou com seu canto agudo, um preg\u00e3o que me transportou para um tempo imemorial de antes, muito de eu existir, mas que estava dentro de mim agora, como uma for\u00e7a estranha, como diz a m\u00fasica de Roberto Carlos. A mulher passou com seu encantamento pela minha rua, e o tempo tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bDomingo passado est\u00e1vamos reunidos na casa do meu filho, na Ilha do Leite, era j\u00e1 de noitinha e daqui a pouco ouvi de l\u00e1 de longe: \u201cO tamboreeeeeeete, olha! O tamborete s\u00f3 paga quinze, olha! Ainda serve pra sentar, pra conversar, pra namorar, falar de bem, falar de maaaaaal, olha!\u201d. Era ela de novo, aquela mulher que me enfeiti\u00e7ou com sua cantiga. Corri pra janela e gritei: \u201cEi, mo\u00e7a, t\u00e1 me vendo aqui? Espere, quero comprar um tamborete!\u201d. Descemos meu companheiro e eu as escadas. E eu correndo, na alegria daquele encontro adiado. A mulher estacionou o carrinho de m\u00e3o e come\u00e7ou a contar sua hist\u00f3ria pra gente. Ela falava e cantava, como num musical.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bSeu nome \u00e9 \u00c2ngela Maria, que ganhou esse nome porque a m\u00e3e era f\u00e3 da cantora carioca. Tinha uma sina nesse nome, porque, de algum modo, ela veio a se tornar cantora, quisera que tamb\u00e9m tivesse ascendido ao estrelato, como aconteceu com a Rainha do R\u00e1dio (que, a prop\u00f3sito, se chamava Abelim Maria da Cunha, um nome \u201cpouco art\u00edstico\u201d, substitu\u00eddo pelo f\u00e1cil pseud\u00f4nimo), mas o seu canto \u00e9 das ruas, e d\u00e1 combust\u00edvel ao seu sustento de vendedora ambulante. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 como \u00c2ngela Maria que ela \u00e9 conhecida: aquela senhora atende por Quinha do Tamborete, pois seu of\u00edcio \u00e9 o de vender os banquinhos que produz com o reaproveitamento de madeira encontrada, doada por madeireiras ou por qualquer pessoa que se dispuser a lhe ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bPois Quinha, gentilmente, nos contou um pouquinho de sua hist\u00f3ria, como havia feito antes com quem quisesse lhe ouvir, como \u00e9 caracter\u00edstico das pessoas comunicativas. (Depois daquele nosso encontro, numa pesquisa b\u00e1sica na internet, constatei que Quinha do Tamborete era famosa, com v\u00eddeos no Youtube, mat\u00e9rias de TV, essas coisas; vou deixar pra voc\u00eas uns links de mat\u00e9rias sobre ela no final desse texto.)<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bEssa mulher, hoje na faixa dos 55, h\u00e1 35 anos empurra o carrinho de m\u00e3o, com o qual vende seus banquinhos, que, ao longo do tempo \u2013 e \u00e9 muito legal que seu preg\u00e3o referende isso \u2013, j\u00e1 custaram cinco, sete, dez e, mais recentemente, 15 reais, sempre um precinho camarada. Embora, como ela diz, se n\u00e3o tiver banquinho para vender, ela sai vendendo \u00e1gua, pipoca, o que puder levar para garantir o seu sustento e o da fam\u00edlia. Para Quinha, o importante \u00e9 vender o produto honesto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-2-1.jpg?resize=1024%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2867\" srcset=\"https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-2-1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-2-1-980x980.jpg 980w, https:\/\/www1.unicap.br\/jornalismo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Animacao-Verde-e-Rosa-de-Natal-em-Familia-para-Redes-Sociais-2-1-480x480.jpg 480w\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do preg\u00e3o que ela mesma criou \u2013 aquele hipn\u00f3tico reproduzido l\u00e1 no in\u00edcio do texto \u2013, tem a vers\u00e3o que ela fez para o Rap da Felicidade, de Cidinho &amp; Doca: \u201cEu s\u00f3 quero \u00e9 ser feliz, vender os meus banquinhos na cidade onde eu nasci. E poder me orgulhar e ter a consci\u00eancia que meu p\u00e3o irei levar\u201d. Mas se, por acaso, naqueles dias n\u00e3o tiver mat\u00e9ria-prima para fazer os utens\u00edlios e ela precisar vender \u00e1gua, est\u00e1 na ponta da l\u00edngua: \u201cQuem \u00e9 que t\u00e1 com sede? Olha a \u00e1gua geladinha, gostosinha, \u00e9 a \u00e1gua da coroa, olha! Eu s\u00f3 quero \u00e9 ser feliz, vender a minha \u00e1gua geladinha, gostosinha na cidade onde eu nasci. E poder me orgulhar e ter a consci\u00eancia que voc\u00eas ir\u00e3o comprar\u201d. Quinha se reinventa, como se reinventam todos os que n\u00e3o podem esperar que o dinheiro caia do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bE essa senhora bate perna pelo Recife empurrando o carrinho de m\u00e3o cheio de banquinhos. Quinha conta que tem freguesia no Pina, na Mustardinha, na Vila de S\u00e3o Miguel (Afogados), que percorre tamb\u00e9m Santo Amaro, Bairro do Recife, Coelhos, Madalena, outros bairros, inclusive montando venda na pr\u00f3pria comunidade onde vive. A\u00ed pergunto a ela onde mora. Claro, a resposta vem cantada: \u201cDe onde eu sei de onde ela \u00e9? \u00c9 de Piedade? N\u00e3o \u00e9. Ela \u00e9 de Olinda? N\u00e3o \u00e9. Ela \u00e9 dos Coelhos, n\u00e3o \u00e9. Ela \u00e9 do Coque, do Bairro de S\u00e3o Jos\u00e9!\u201d. Numa reportagem de jornal, pontuaram: a casa de Quinha fica na Favela do Papel\u00e3o, no Coque, populoso bairro do centro do Recife.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bComo todo mundo, Quinha tamb\u00e9m tem hist\u00f3ria triste para contar, de dias sem comida na mesa, de falta de material pra trabalhar, de sonhos frustrados, de homem ruim que lhe assedia, de viol\u00eancia que ela aprendeu a lembrar sem chorar. Garota de 13 anos, ela conta que foi enganada por um tarado vestido de policial que lhe arrastou para um ermo e lhe violou. Aquilo ficou no corpo, na cabe\u00e7a, nem sabia direito o que tinha acontecido, medo, vergonha, dor. Somente agora, diz, pode contar a hist\u00f3ria sem chorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinha ri e chora das coisas que viveu, das injusti\u00e7as, das tro\u00e7as que fizeram dela, quando levantou a voz para vender seus tamboretes. No dia que conversou com a gente, empurrava um carrinho emprestado, que tinha os bra\u00e7os meio frouxos, o que lhe dificultava o manuseio. O carrinho dela, emprestou, e a mulher devolveu com o pneu furado. Teve carrinho de m\u00e3o tomado pela prefeitura, no carnaval do ano passado. Os contratempos e obst\u00e1culos todos da pobreza e da experi\u00eancia de ser mulher no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ela prefere a alegria, o riso; prefere cantar, levando a cabo a sabedoria propagada pelos quatro cantos de que quem canta os males espanta. E assim a gente acredita, e canta junto com Quinha, que espalha sua voz pelos bairros e ruas do Recife. Pra tudo tem um jeito e uma melodia, nos ensina Quinha. Ela at\u00e9 criou um preg\u00e3o para aquela vizinha que s\u00f3 olha ela passar vendendo os banquinhos e nunca compra nada; pior, \u00e0s vezes at\u00e9 pede um deles emprestado, dizendo que paga depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as pirangueiras, Quinha do Tamborete tasca: \u201cMam\u00e3e, l\u00e1 vem ela, mam\u00e3e l\u00e1 vem ela, com o banco dos outros dizendo que \u00e9 dela!\u201d. Eita coisa incr\u00edvel \u00e9 viver numa cidade desigual da mizera feito o Recife e ter a sorte de ouvir os preg\u00f5es de gente como Quinha. Isso, como se diz por a\u00ed, n\u00e3o tem pre\u00e7o. Nem tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><sup><sub><strong><em>Adriana D\u00f3ria Matos, jornalista formada pela Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco, com mestrado em Teoria da Literatura pela UPFE, professora do curso de Jornalismo da Unicap e editora da revista cultural Continente.<\/em><\/strong><\/sub><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Como prometido, seguem os links para alguns v\u00eddeos sobre Quinha do Tamborete na internet:<\/p>\n\n\n\n<p>Reportagem na TV Record (mar\/2013)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/recordtv.r7.com\/domingo-espetacular\/videos\/vendedora-conta-com-gogo-de-ouro-para-vender-tamboretes-em-pernambuco-14092018\">https:\/\/recordtv.r7.com\/domingo-espetacular\/videos\/vendedora-conta-com-gogo-de-ouro-para-vender-tamboretes-em-pernambuco-14092018<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Diario de Pernambuco TV (dez\/19)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Primeira Pessoa com Quinha do tamborete\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ypjuUp-miEg?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>P\u00e9 na Rua (mar\/2011)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Quinha do Tamborete \u00e9 Nossa Cara\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ygK9tYhUyHQ?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Uma trama por minuto<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Uma Trama por Minuto - Quinha do Tamborete\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2enf94sT_yg?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriana D\u00f3ria Matos Era uma tarde de dia de semana, antes, bem antes da pandemia, e eu estava no computador, trabalhando. 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