{"id":95497,"date":"2020-11-04T21:00:07","date_gmt":"2020-11-05T00:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=95497"},"modified":"2020-11-05T08:56:08","modified_gmt":"2020-11-05T11:56:08","slug":"pronunciamento-do-reitor-na-13a-semana-da-consciencia-negra-da-unicap","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/pronunciamento-do-reitor-na-13a-semana-da-consciencia-negra-da-unicap\/","title":{"rendered":"Pronunciamento do Reitor na 13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap"},"content":{"rendered":"<p><b>13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap<\/b><\/p>\n<p>Recife, 3 a 6 de novembro de 2020<\/p>\n<p>Pronunciamento do Reitor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Saudando todas as pessoas presentes, gostaria de falar da import\u00e2ncia da 13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap com tr\u00eas palavras-chaves: o <b><i>evento<\/i><\/b>, o <b><i>tema<\/i><\/b> e a <b><i>universidade.<\/i><\/b><\/p>\n<p>Primeiramente, a Semana da Consci\u00eancia Negra j\u00e1 \u00e9 um <b>evento<\/b> importante no calend\u00e1rio da Unicap, n\u00e3o como um acontecimento isolado e pontual, mas como uma agenda transformadora da universidade e da sociedade. Nesse processo de constru\u00e7\u00e3o, necessariamente coletiva, devemos fazer a mem\u00f3ria de alguns momentos fortes:<\/p>\n<p>&#8211; Em <b>1988<\/b>, quando eu era aluno de Filosofia da Cat\u00f3lica, tivemos debates sobre a quest\u00e3o, a partir da Campanha da Fraternidade, com o lema: <b><i>Ouvi os clamores do meu povo<\/i><\/b>.\u00a0 Para al\u00e9m dos debates e abordagem em salas de aulas, havia pesquisas e iniciativas da Pastoral da Unicap, sobretudo do CTCH, incluindo algumas express\u00f5es de matriz afro-brasileiras nas celebra\u00e7\u00f5es: aqui registro nosso agradecimento ao padre Jacques Trudel, jesu\u00edta canadense que trabalhou a dan\u00e7a lit\u00fargica e a incultura\u00e7\u00e3o, a partir da Mustardinha, bairro marcado pela maioria negra da popula\u00e7\u00e3o. Foi uma primeira sementinha plantada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No ano <b>2008<\/b>, j\u00e1 como Reitor da universidade, mais uma vez fazendo refer\u00eancia \u00e0 data de 1888, no entanto agora associada ao l\u00edder Zumbi dos Palmares e ao Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra. Aquela 1\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap aconteceu com a colabora\u00e7\u00e3o do Pe. Cl\u00f3vis Cabral, jesu\u00edta identificado e comprometido com o movimento negro no Brasil: na verdade, o evento ajudou a concluir o discernimento que possibilitou a vinda dele em miss\u00e3o para nossa universidade. Agradecendo ao Padre Cl\u00f3vis, a abertura dessa 13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra revela um itiner\u00e1rio, v\u00e1rios eventos, iniciativas, a\u00e7\u00f5es e uma agenda aberta: A \u00e1rvore cresceu, com ramos, flores e frutos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Gostaria de pontuar, al\u00e9m da consolida\u00e7\u00e3o do evento, dois <b>frutos<\/b> importantes: <b><i>primeiro<\/i><\/b>, a cria\u00e7\u00e3o do NEABI Unicap, N\u00facleo de Estudos Afro-brasileiros e Ind\u00edgenas, como gesto concreto da 1\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra na Unicap; <b><i>segundo<\/i><\/b>, em 2019, a cria\u00e7\u00e3o das Bolsas de Inclus\u00e3o Racial, baseada na lei do Prouni, criando uma pol\u00edtica afirmativa, no momento em que o Brasil parecia retroagir. Digno de nota ainda \u00e9 o surgimento de coletivos e outras iniciativas estudantis, ampliando as perspectivas e o protagonismo de negros e negras na Unicap.<\/p>\n<p>O <b>segundo aspecto<\/b> que revela a import\u00e2ncia desta Semana da Consci\u00eancia Negra de 2020 \u00e9 o tema escolhido: <b>O v\u00edrus do <\/b><b><i>racismo estrutural<\/i><\/b><b>: uma pandemia que desafia a sociedade brasileira h\u00e1 132 anos<\/b>. Com essa tem\u00e1tica faremos uma esp\u00e9cie de genealogia do racismo estrutural, isto \u00e9, a partir do momento presente marcado pela pandemia mundial provocada pelo coronav\u00edrus identificar outros v\u00edrus, como o do racismo estrutural, que n\u00e3o encontrou ainda sua vacina ou vai sofrendo muta\u00e7\u00f5es dificultando a sua real supera\u00e7\u00e3o: recordo aqui a fala brilhante de Tatiana Gomes, da UFBA, no ciclo de palestra de 29 de outubro \u00faltimo, organizado pelo NEABI Unicap. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil superar porque o racismo atacado reage multiplicando-se&#8230;<\/p>\n<p>O <b>tema<\/b> do racismo enraizado nas estruturas da sociedade sempre foi debatido por muitos\/as escritores\/as negros\/as a exemplo de <b><i>L\u00e9lia Gonzalez<\/i><\/b>, <b><i>Abdias do Nascimento<\/i><\/b>, <b><i>Sueli Carneiro<\/i><\/b>, dentre outros\/as pensadores\/as. No entanto, tornou-se p\u00fablico e ganhou as redes sociais, os debates dentro e fora da universidade, a partir do livro: <b>O que \u00e9 Racismo Estrutural?<\/b>, do advogado, fil\u00f3sofo e professor <b><i>S\u00edlvio Almeida<\/i><\/b>, propondo um tratamento mais complexo das rela\u00e7\u00f5es raciais.<\/p>\n<p>Para o autor, o racismo estrutural \u00e9 um processo legitimado hist\u00f3rica e politicamente por um grupo que tem acessado privil\u00e9gios, enquanto outro foi lan\u00e7ado \u00e0 subalternidade. O racismo estrutural potencializa pr\u00e1ticas racistas individuais e institucionais. Portanto, o racismo \u00e9 decorr\u00eancia da pr\u00f3pria estrutura social, ou seja do modo \u201cnormal\u201d como se constituem as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, jur\u00eddicas e at\u00e9 familiares. Isto n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo. A forma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica do Brasil foi estabelecida, tendo como fundamento os privil\u00e9gios em detrimento dos direitos. O tema em pauta apresenta diversos cen\u00e1rios para an\u00e1lise, mas o que se sobressai \u00e9 que o racismo tem historicamente sido mantido, porque o seu enfrentamento demanda a erradica\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios e uma democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento, propondo, assim, uma igualdade de acesso para todas as pessoas.<\/p>\n<p>Esses 132 anos de direitos conquistados s\u00e3o resultado da luta do <b>movimento negro organizado<\/b>, um verdadeiro patrim\u00f4nio imaterial e hist\u00f3rico da sociedade brasileira. No entanto, esses direitos est\u00e3o cotidianamente sempre amea\u00e7ados, sobretudo nos \u00faltimos anos e no atual governo, agravado mais ainda pela pandemia. Por isso, mais que nunca, \u00e9 preciso refletir sobre o tema, por um lado, reafirmando a import\u00e2ncia de tantos anos de luta e resist\u00eancia e, por outro, denunciando a persistente e inaceit\u00e1vel realidade da morte dos jovens negros (21 jovens por dia no Brasil &#8211; dados do relat\u00f3rio da CPI de assassinatos dos jovens negros), o encarceramento em massa, o aumento da viol\u00eancia contra a mulher negra etc. O racismo expresso nas suas m\u00faltiplas facetas impacta tamb\u00e9m o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e a sua supera\u00e7\u00e3o pela educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui, evoco o <b>terceiro e \u00faltimo aspecto<\/b> que mostra a import\u00e2ncia da Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap: a <b>universidade<\/b>. Trata-se n\u00e3o apenas de um evento e um tema, mas uma exig\u00eancia de <b>transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria universidade<\/b> para que ela seja mais o que ela quer e deve ser, uma universidade <b><i>comunit\u00e1ria<\/i><\/b> e <b><i>humanista<\/i><\/b>, de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e cat\u00f3lica, marcada pela pedagogia jesu\u00edta. Nada da identidade e miss\u00e3o da Unicap pode compactuar com o racismo.<\/p>\n<p>Infelizmente, o racismo e as suas implica\u00e7\u00f5es est\u00e3o em todas as formas e espa\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o somente de forma manifesta, mas tamb\u00e9m inconsciente e disfar\u00e7ada, sobretudo em um pa\u00eds como o Brasil [aqui imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar da grande obra de Lilia Schwarcz e Helo\u00edsa Starling, <em>Brasil: uma biografia<\/em>]. Nesse cen\u00e1rio, <b>a educa\u00e7\u00e3o tem um papel insubstitu\u00edvel<\/b>, mas n\u00e3o sem fazer uma <b>autocr\u00edtica<\/b> constante de sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m ela marcada pelas mazelas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Isso significa que, embora o papel da educa\u00e7\u00e3o no combate ao racismo pare\u00e7a claro, a realidade, infelizmente, mostra que o racismo est\u00e1 enraizado tamb\u00e9m nos <b>processos de aprendizagem<\/b>, da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica at\u00e9 o ensino superior, manifestando-se de formas diversas e multiplicando seus efeitos nas pessoas atingidas, desde as crian\u00e7as fazendo brincadeiras aos conte\u00fados escolares, envolvendo os funcion\u00e1rios mais simples e os educadores mais qualificados. Como se trata de um problema hist\u00f3rico, estrutural e sist\u00eamico, somente pensando <b>estrat\u00e9gias de supera\u00e7\u00e3o<\/b> do racismo no ensino superior e a partir do pensamento cr\u00edtico universit\u00e1rio, poderemos vislumbrar transforma\u00e7\u00f5es efetivas nas estruturas da sociedade, aqui e no mundo.<\/p>\n<p>Pensar estrat\u00e9gias de supera\u00e7\u00e3o do racismo implica, portanto, propor a\u00e7\u00f5es e adotar medidas concretas que permitam a transforma\u00e7\u00e3o das atuais estruturas sociais, historicamente criadas e fundamentadas na desigualdade e na opress\u00e3o. No mundo globalizado e na sociedade contempor\u00e2nea do conhecimento, cada vez mais complexa, a senha para \u201centrar\u201d \u00e9 o pr\u00f3prio conhecimento. Mais que nunca, portanto, a <b>educa\u00e7\u00e3o superior<\/b> \u00e9 respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o dos profissionais que ter\u00e3o maior <b><i>poder de decis\u00e3o<\/i><\/b> e <b><i>influ\u00eancia<\/i><\/b> na sociedade do conhecimento. Por isso, a universidade n\u00e3o somente \u00e9 um lugar privilegiado para pensar estrat\u00e9gias, mas \u00e9 ela mesma um <b>lugar estrat\u00e9gico<\/b> para preparar as pessoas que ter\u00e3o a maior incid\u00eancia em vista de uma nova sociedade sem racismo e com verdadeira justi\u00e7a social. Trata-se de uma utopia, mas isso significa algo que ainda n\u00e3o teve lugar na hist\u00f3ria, mas que poder\u00e1 e precisar\u00e1 ter.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel, fa\u00e7amos a nossa aposta, repensando os <b>tr\u00eas eixos estruturantes da universidade<\/b>: primeiro, um <b>ensino<\/b> cada vez mais inclusivo (n\u00e3o somente ampliando bolsas, oportunidades e protagonismo da popula\u00e7\u00e3o negra); segundo, uma <b>pesquisa<\/b> cada vez mais pertinente no estudo de nossos reais problemas e com a busca de novas solu\u00e7\u00f5es; e, enfim, uma extens\u00e3o respons\u00e1vel, isto \u00e9, que responda aos grandes apelos da comunidade, promovendo um real desenvolvimento humano e socioambiental.<\/p>\n<p>Assim o combate ao racismo institucional, n\u00e3o \u00e9 somente um desafio para a educa\u00e7\u00e3o superior, mas uma <b>oportunidade<\/b> para realizar a sua miss\u00e3o na sociedade; em nosso caso, \u00e9 uma oportunidade para revelar o diferencial humanista e comunit\u00e1rio, a ser visto como uma constru\u00e7\u00e3o coletiva. Nesse passo, a 13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra e o protagonismo de negras e negros da comunidade universit\u00e1ria s\u00e3o indispens\u00e1veis. Termino, agradecendo \u00e0 nossa Pr\u00f3-reitora de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mulher ativista e cientista social, negra e crist\u00e3, mas sobretudo uma inspiradora da universidade que queremos ser. E seremos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pedro Rubens<\/p>\n<p>Reitor<\/p>\n<p>Recife, 3 de novembro de 2020<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap Recife, 3 a 6 de novembro de 2020 Pronunciamento do Reitor &nbsp; Saudando todas as pessoas presentes, gostaria de falar da import\u00e2ncia da 13\u00aa Semana da Consci\u00eancia Negra da Unicap com tr\u00eas palavras-chaves: o evento, o tema e a universidade. 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