{"id":93007,"date":"2020-01-30T15:44:32","date_gmt":"2020-01-30T18:44:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=93007"},"modified":"2020-01-30T15:45:34","modified_gmt":"2020-01-30T18:45:34","slug":"discurso-do-reitor-da-unicap-na-colacao-de-grau-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/discurso-do-reitor-da-unicap-na-colacao-de-grau-2020\/","title":{"rendered":"Discurso do Reitor da Unicap na Cola\u00e7\u00e3o de Grau 2020"},"content":{"rendered":"<p>Motiva\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a para reconstruir o sentido da vida&#8230;<br \/>\nA alegria e a emo\u00e7\u00e3o de hoje indicam a import\u00e2ncia do momento como<br \/>\nconclus\u00e3o de uma etapa e o in\u00edcio de outra: a cola\u00e7\u00e3o de grau \u00e9 um \u201crito de<br \/>\npassagem\u201d. Mas qual o sentido de tudo isso? Valeu a pena tanto<br \/>\ninvestimento, sacrif\u00edcio e esfor\u00e7o? O que ser\u00e1 do amanh\u00e3? Em momentos<br \/>\nimportantes, cabe recolocar uma pergunta essencial: afinal, qual o<br \/>\nsentido da nossa vida? E a vida o que \u00e9 o que \u00e9?<\/p>\n<p>A vida \u00e9 feita de passagens, interpreta\u00e7\u00f5es e ritos. Desde o momento<br \/>\nem que deixamos o ventre materno para viver no ventre do mundo,<br \/>\nexperimentamos as sensa\u00e7\u00f5es de medo, inseguran\u00e7a, afli\u00e7\u00e3o, choro e<br \/>\nalegria: a vida surge com for\u00e7a, mas cercada de fragilidade, exige cuidado<br \/>\ne depend\u00eancia total dos outros&#8230; O leite, o carinho e o ber\u00e7o [ou a falta<br \/>\ndeles!] definem nossas primeiras experi\u00eancias de vida.<\/p>\n<p>O rito de passagem da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia \u00e9 marcado por<br \/>\nquest\u00f5es e receios, mudan\u00e7as no corpo e no esp\u00edrito, desejos contradit\u00f3rios<br \/>\ne coragem de assumir riscos: a vida, nesse per\u00edodo, \u00e9 uma pergunta<br \/>\naberta e o rosto do outro uma possibilidade de encontro e desencontro&#8230;<br \/>\nEntrar na universidade coincide, normalmente, com o rito da passagem<br \/>\nda 1a \u00e0 2a juventude, ou com o amadurecimento, com a autonomia da raz\u00e3o<br \/>\ne exerc\u00edcio da liberdade. \u00c9 um tempo marcado por questionamentos<br \/>\ndiversos e propostas alternativas, desafios e supera\u00e7\u00f5es, desejos e<br \/>\nrealiza\u00e7\u00f5es: a vida ganha asas e a experi\u00eancia transforma a pessoa em<br \/>\nadulto, independentemente da idade. As perguntas s\u00e3o mais profundas ou<br \/>\natrevidas, os desejos s\u00e3o maiores e a consci\u00eancia das dificuldades \u00e9 mais<br \/>\naguda: a vida depender\u00e1, portanto, do sentido que cada um der \u00e0 sua<br \/>\npr\u00f3pria exist\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m das mudan\u00e7as pr\u00f3prias dessas etapas, h\u00e1 uma diferen\u00e7a<br \/>\nfundamental entre a concep\u00e7\u00e3o do sentido da vida de ontem e de hoje.<br \/>\nAntigamente, o sentido da vida estava dado, bastava procurar e<br \/>\naprender; nos dias de hoje, por\u00e9m, o sentido da vida precisa ser constru\u00eddo<br \/>\ne reconstru\u00eddo, v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Antes, a fam\u00edlia ensinava seus valores b\u00e1sicos, os professores<br \/>\ntransmitiam os conhecimentos universais, a sociedade formava para o bem<br \/>\ncomum geral, o estado regulava e garantia os direitos fundamentais dos<br \/>\ncidad\u00e3os, as religi\u00f5es respondiam \u00e0s grandes quest\u00f5es sobre o sentido da<br \/>\nvida e da morte a partir de uma verdade absoluta: Deus! Nos \u00faltimos<br \/>\ntempos, a fam\u00edlia vem mudando de composi\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o se faz com<br \/>\nprocessos interativos, o estado n\u00e3o consegue garantir direitos e as religi\u00f5es<br \/>\nsuscitam mais perguntas que respostas&#8230;<\/p>\n<p>Assim, as institui\u00e7\u00f5es que poderiam nos ajudar nesta constru\u00e7\u00e3o de<br \/>\nsentido foram enfraquecidas pelo relativismo (\u201ctudo \u00e9 relativo\u201d), pelo<br \/>\nimediatismo (\u201co que importa \u00e9 o aqui e agora, o momento\u201d) e pelo niilismo<br \/>\n(\u201cNada vale nada\u201d, \u201cnada tem sentido\u201d).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a revolu\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>e a promessa de um \u201cmundo sem fronteiras\u201d veiculam um<br \/>\nbombardeamento de informa\u00e7\u00f5es e prop\u00f5em uma infinidade de op\u00e7\u00f5es<br \/>\ndificultando a constru\u00e7\u00e3o do sentido, seja por excesso de dados, seja por<br \/>\nembara\u00e7o de escolha.<\/p>\n<p>Nesse contexto contempor\u00e2neo, o sentido da vida deixou de ser<br \/>\nevidente, dif\u00edcil de ser encontrado ou dado de uma vez por todas: \u00e9<br \/>\nnecess\u00e1rio ser constru\u00eddo continuamente. Claro que as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o<br \/>\nrepensando seu papel social e poder\u00e3o oferecer a sua contribui\u00e7\u00e3o; mas,<br \/>\nn\u00e3o creio que elas ser\u00e3o capazes de dar sentido \u00e0 vida e \u00e0 exist\u00eancia<br \/>\nhumana. Mais que nunca e cada vez mais, a dif\u00edcil e n\u00e3o menos<br \/>\napaixonante tarefa de construir o sentido da vida, depende de cada<br \/>\npessoa.<\/p>\n<p>Creio, realmente, que embora dif\u00edcil, essa tarefa \u00e9 apaixonante.<br \/>\nImporta voltar ao essencial e come\u00e7ar a reconstru\u00e7\u00e3o do sentido de nossa<br \/>\nexist\u00eancia com o material que a vida nos oferece. Nessa constru\u00e7\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\nduas atitudes s\u00e3o fundamentais: a motiva\u00e7\u00e3o e a esperan\u00e7a.<br \/>\nNada melhor para entender a import\u00e2ncia da motiva\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria<br \/>\ndos tr\u00eas oper\u00e1rios de uma mesma constru\u00e7\u00e3o: o primeiro, for\u00e7ado a<br \/>\ntrabalhar como puni\u00e7\u00e3o de um crime, amaldi\u00e7oava o que estava fazendo; o<br \/>\nsegundo, que estava a\u00ed para ganhar o p\u00e3o para a fam\u00edlia, trabalhava de<br \/>\nboa vontade; j\u00e1 o terceiro, convicto de estar construindo uma catedral,<br \/>\ntrabalhava com todo o fervor. Os tr\u00eas faziam materialmente a mesma coisa,<br \/>\npor\u00e9m, com motiva\u00e7\u00f5es distintas (cf. Clodovis Boff, O livro do sentido, vol.<br \/>\nI, p. 31).<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o cresce com a esperan\u00e7a. Entretanto, esperan\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nsignifica \u201cesperar\u201d, mas \u201ccaminhar\u201d&#8230; Por isso, foi criado o verbo<br \/>\n\u201cesperan\u00e7ar\u201d, neologismo inspirado no sentido b\u00edblico: Abra\u00e3o tornou-se o<br \/>\npai da f\u00e9 porque foi o primeiro exemplo registrado na hist\u00f3ria de algu\u00e9m que<br \/>\ndeixou a sua terra e aventurou-se pelos caminhos da vida, caminhando<br \/>\nrumo \u00e0 terra prometida. A ele se atribui a virtude de \u201cesperar contra toda<br \/>\nesperan\u00e7a (4,18). Ou como traduz o povo mais simples: \u201ca esperan\u00e7a \u00e9 a<br \/>\n\u00faltima que morre\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, importa considerar que nem todo mundo constroe o<br \/>\nsentido da vida a partir da motiva\u00e7\u00e3o da f\u00e9 ou da esperan\u00e7a crist\u00e3. Nesse<br \/>\ncaso, cabe relembrar uma frase do fil\u00f3sofo J. P. Sartre:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o importa o que a vida fez de voc\u00ea,<br \/>\nimporta o que voc\u00ea fez do que a vida fez de voc\u00ea\u201d.<br \/>\nSem estar motivado pela esperan\u00e7a crist\u00e3, Sartre indica outro<br \/>\ncaminho poss\u00edvel: construir o sentido da vida n\u00e3o pode depender apenas<br \/>\nde condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, nem pode ser determinado pelas experi\u00eancias<br \/>\nnegativas da exist\u00eancia. Depende de como cada um de n\u00f3s reinterpreta e<br \/>\nreelabora o vivido. Para dizer de um jeito bem brasileiro: n\u00e3o importa se<br \/>\nvoc\u00ea cair, mas, \u201clevantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima\u201d. Ou ainda,<br \/>\ncomo reza o samba: \u201cDesesperar jamais, aprendemos muito nesses anos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Caros concluintes, queridas concluintes: n\u00e3o conhe\u00e7o a f\u00e9 nem a<br \/>\nmotiva\u00e7\u00e3o de voc\u00eas. Mas, acredito, com muita convic\u00e7\u00e3o, que cada um de<br \/>\nvoc\u00eas tem tudo para reconstruir o sentido da vida. Primeiro porque a<br \/>\nUnicap pode conferir a cada um de seus concluintes qualidade acad\u00eamica<br \/>\ne excel\u00eancia humana, pois h\u00e1 mais de 76 anos formamos pessoas,<br \/>\ndesenvolvendo habilidades para o mundo do trabalho e cultivando<br \/>\nvalores human\u00edsticos para enfrentar as dificuldades da vida. Em segundo<br \/>\nlugar, cada um de voc\u00eas sabe muito bem o quanto custou, em recursos<br \/>\nfinanceiros e humanos, para chegar at\u00e9 aqui: portanto, voc\u00eas podem<br \/>\ntestemunhar uns para os outros que \u00e9 poss\u00edvel superar obst\u00e1culos e atingir<br \/>\nobjetivos. Terceiro, o diploma que coroa esta etapa, \u00e9 o registro de um<br \/>\nbem inalien\u00e1vel que nada nem ningu\u00e9m poder\u00e1 roubar de voc\u00eas. Isso<br \/>\nsignifica que os pr\u00f3ximos sonhos de voc\u00eas e a reconstru\u00e7\u00e3o do sentido<br \/>\nda vida agora t\u00eam como ponto de partida um tesouro inalien\u00e1vel, uma<br \/>\nexperi\u00eancia s\u00f3lida e uma capacidade pessoal comprovada.<\/p>\n<p>Para encerrar, tr\u00eas palavras-chaves: gratid\u00e3o, presente e convite.<br \/>\nAos pais e familiares nosso agradecimento por investir em voc\u00eas e<br \/>\npor nos confiarem essa bela tarefa: sabemos que tudo isso custou<br \/>\nsacrif\u00edcios, mas temos a consci\u00eancia de uma miss\u00e3o cumprida.<br \/>\nPara fazer desta festa um momento \u00fanico, um presente: gra\u00e7as a um<br \/>\nmutir\u00e3o de nossos funcion\u00e1rios, em alguns instantes, vamos entregar a<br \/>\ncada um de voc\u00eas n\u00e3o um canudo vazio, mas o diploma real e definitivo,<br \/>\nassinado e v\u00e1lido em qualquer lugar do Brasil e do mundo.<br \/>\nO risco de entregar o diploma definitivo, por\u00e9m, \u00e9 que voc\u00eas n\u00e3o ser\u00e3o<br \/>\nobrigados a voltar \u00e0 universidade&#8230; Por isso, concluo com uma peti\u00e7\u00e3o que<br \/>\n\u00e9 um convite: voltem \u00e0 Unicap como muitos outros j\u00e1 o fizeram. Uns<br \/>\nvoltaram para trabalhar como professor ou funcion\u00e1rio, outros para fazer<br \/>\numa p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, pois sabemos que a forma\u00e7\u00e3o \u00e9 permanente: neste<\/p>\n<p>sentido, inclusive, criamos bolsas especiais para todos os nossos ex-<br \/>\nalunos.<\/p>\n<p>Mas, se voc\u00eas n\u00e3o tiverem nenhuma dessas motiva\u00e7\u00f5es para retornar<br \/>\n\u00e0 Cat\u00f3lica, por favor, voltem ou passem pelo nosso jardim, pois os patos e<br \/>\nos pav\u00f5es poder\u00e3o morrer de saudades de voc\u00eas&#8230; assim como n\u00f3s!<\/p>\n<p><strong>Pe. Pedro Rubens, SJ<\/strong><br \/>\n<strong>Reitor Unicap<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Motiva\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a para reconstruir o sentido da vida&#8230; A alegria e a emo\u00e7\u00e3o de hoje indicam a import\u00e2ncia do momento como conclus\u00e3o de uma etapa e o in\u00edcio de outra: a cola\u00e7\u00e3o de grau \u00e9 um \u201crito de passagem\u201d. 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