{"id":73083,"date":"2017-09-29T18:24:38","date_gmt":"2017-09-29T21:24:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=73083"},"modified":"2017-09-29T22:00:14","modified_gmt":"2017-09-30T01:00:14","slug":"do-morro-da-conceicao-para-a-franca-ex-aluno-de-filosofia-da-catolica-faz-doutorado-na-paris-sorbonne-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/do-morro-da-conceicao-para-a-franca-ex-aluno-de-filosofia-da-catolica-faz-doutorado-na-paris-sorbonne-iv\/","title":{"rendered":"Do Morro da Concei\u00e7\u00e3o para a Fran\u00e7a: ex-aluno de Filosofia da Cat\u00f3lica faz doutorado na Paris-Sorbonne IV"},"content":{"rendered":"<p><img data-attachment-id=\"73090\" data-permalink=\"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/do-morro-da-conceicao-para-a-franca-ex-aluno-de-filosofia-da-catolica-faz-doutorado-na-paris-sorbonne-iv\/ednaldo-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?fit=1080%2C1920&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1080,1920\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;2.2&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;XT1097&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1461061051&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;2.16&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;64&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.00654&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Ednaldo 2\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?fit=169%2C300&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?fit=576%2C1024&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-73090 alignleft\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?resize=576%2C1024&#038;ssl=1\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?resize=576%2C1024&amp;ssl=1 576w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?resize=768%2C1365&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-2.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Mais que uma ascens\u00e3o acad\u00eamica, a hist\u00f3ria de vida de Ednaldo Isidoro mostra que a educa\u00e7\u00e3o transforma vidas. O ex-aluno do curso de Filosofia da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco est\u00e1 no \u00faltimo ano do Doutorado entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universit\u00e9 Paris-Sorbonne IV. Filho de uma fam\u00edlia pobre do Morro da Concei\u00e7\u00e3o, Zona Norte do Recife, ele narra em entrevista ao Boletim Unicap direto da Fran\u00e7a a trajet\u00f3ria que o levou a estudar em uma das universidades mais prestigiadas do mundo.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim Unicap &#8211;\u00a0 O que te motivou a fazer Filosofia na Unicap?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Ednaldo Isidoro<\/strong> &#8211; Os motivos que me levaram \u00e0 filosofia s\u00e3o religiosos. Devido \u00e0 religiosidade de minha v\u00f3 paterna e sua participa\u00e7\u00e3o paroquial, eu cresci e fui educado no seio de uma fam\u00edlia muito cat\u00f3lica, uma das fam\u00edlias mais conhecidas no Morro da Concei\u00e7\u00e3o (Recife). Seguindo seus ensinamentos e acompanhando-a durante as missas, naturalmente fui sendo guiado para entrar na vida pastoral do Santu\u00e1rio Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o do Morro. Catequizado pelo Pe. Reginaldo Veloso, minhas vis\u00f5es de mundo e de crist\u00e3o tiveram como inspira\u00e7\u00e3o a sua a\u00e7\u00e3o social de estar mais perto e ao lado e com o povo. Ainda tenho viva na mem\u00f3ria aquela antiga igreja colada com a torre onde celebr\u00e1vamos todos juntos e unidos ao som de atabaques, pandeiros, viol\u00f5es e dan\u00e7as que surgiam de nossa gente. Dom Helder e Pe. Reginaldo eram para mim modelos vivos de como viver o Evangelho. Por\u00e9m, ap\u00f3s o epis\u00f3dio que dividiu o Morro da Concei\u00e7\u00e3o, com a sa\u00edda do Pe. Reginaldo Veloso, ap\u00f3s a minha primeira comunh\u00e3o, minha av\u00f3 me orientou a continuar na comunidade paroquial que me possibilitasse receber o sacramento da confirma\u00e7\u00e3o, o crisma. Assim, eu retornei \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es realizadas pelo Pe. <em>Constante Danielewicz, ent\u00e3o substituto do Pe. Reginaldo. <\/em><em>Deste novo administrador paroquial s\u00f3 me lembro dos chocolates ap\u00f3s cada missa matinal dos domingos. Foi com o jovem Pe. S\u00e9rgio Cabral Perez que minha vida pastoral ent\u00e3o realmente come\u00e7ou. Ap\u00f3s ser crismado sob o cajado do arcebispo Dom Jos\u00e9 Cardoso Sobrinho, que vi pela segunda vez naquele altar do Morro, uma nova inspira\u00e7\u00e3o se somou aos meus ideais: o desejo de educar e ensinar o povo. Ent\u00e3o, imediatamente ap\u00f3s a morte de minha av\u00f3 em 1997 e minha crisma, eu ingressei no grupo de jovem, de liturgia e de coroinhas da Par\u00f3quia. Naturalmente, fui me destacando e logo me tornei catequista de primeira eucaristia e de crisma e depois coordenador dos coroinhas. Foi, ent\u00e3o, numa manh\u00e3 de domingo de 2003, que o Pe. Josenildo Tavares, Oblato de Maria Imaculada, que estava no Morro para celebrar uma missa, indagou-me sobre a possibilidade de eu \u201cavan\u00e7ar para \u00e1guas mais profunda\u201d. Ap\u00f3s ter observado minha atividade entre os coroinhas, ele me fez notar que eu poderia ajudar o povo de Deus como padre.\u00a0 Aceitei o chamado, comecei gradualmente a conhecer sua congrega\u00e7\u00e3o \u2013 cuja escolha pelos pobres comungava com minha hist\u00f3ria ao lado do Pe. Reginaldo Veloso \u2013 e, em 2005, fui contado entre aqueles jovens que desejavam seguir a vida religiosa. Eis, portanto, a raz\u00e3o pragm\u00e1tica que me fez ingressar no curso de licenciatura em Filosofia da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco em 2005, pois a forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 o primeiro grau para os seminaristas e religiosos que desejam receber o sacramento da ordem e serem ordenados padres. <\/em><\/p>\n<p><em><strong>B.U &#8211; Voc\u00ea teve alguma bolsa\/incentivo?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I<\/strong> &#8211; Meus estudos foram financiados inicialmente pela congrega\u00e7\u00e3o Oblatos de Maria Imaculada, enquanto eu ainda estava ligado \u00e0 esta ordem religiosa at\u00e9 o primeiro semestre de 2006. A vida religiosa em comunidade n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, por\u00e9m foram as necessidades familiares que mais me fizeram deixar este projeto vocacional: tive que sair da congrega\u00e7\u00e3o\/semin\u00e1rio para poder trabalhar e sustentar minha fam\u00edlia. E visto que os Oblatos se comprometeram a pagar o semestre em curso, o que me permitiu continuar meus estudos foi a bolsa social concedida pela pr\u00f3pria Unicap. Durante alguns meses, no entanto, enquanto o processo corria, minha amiga de gradua\u00e7\u00e3o, a promotora de justi\u00e7a Gloria Maria Pereira da Costa de Souza Ramos, pagou algumas mensalidades. Por\u00e9m, quando o professor Marco Roberto Nunes me convidou para fazer um Pibic e nosso projeto foi aprovado, eu agradeci tal ajuda que Gloria me dava e disse que doravante eu mesmo pagaria visto que teria bolsa de pesquisa. Assim se fez e, enfim, com recursos provindos das minhas pesquisas eu pude terminar o curso de licenciatura em Filosofia em 2008.<\/p>\n<p><em><strong><img data-attachment-id=\"73091\" data-permalink=\"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/do-morro-da-conceicao-para-a-franca-ex-aluno-de-filosofia-da-catolica-faz-doutorado-na-paris-sorbonne-iv\/ednaldo-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?fit=2560%2C1440&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2560,1440\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;1.9&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;SM-J710F&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1473950027&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;2&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;100&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.058823529411765&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Ednaldo 3\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?fit=300%2C169&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-large wp-image-73091\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo-3.jpeg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/>B.U &#8211; Quais foram as maiores dificuldades para concluir a gradua\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea conciliava com alguma atividade profissional?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I &#8211;<\/strong> No in\u00edcio da gradua\u00e7\u00e3o, descobri o meu amor pelo discurso e problemas filos\u00f3ficos. Vi que a atividade filos\u00f3fica estava impregnada em minha vida, no modo como eu pensava, falava, agia. Ent\u00e3o, meu dia a dia passou a ser mais e melhor analisado, racionalizado. Eu passei a buscar sempre as raz\u00f5es ou motiva\u00e7\u00f5es, causas e efeitos de todas as coisas. Ent\u00e3o, a primeira dificuldade apareceu: fui acusado pelos meus superiores da congrega\u00e7\u00e3o de que eu tinha uma f\u00e9 e uma espiritualidade muito racional, que eu n\u00e3o estava ali para ser fil\u00f3sofo. Era comum, quando eu dirigia os momentos de ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria (principalmente seguindo o modelo da <em>lectio divina<\/em> engajado na contemporaneidade), o padre vir falar comigo ap\u00f3s e dizer que minha ora\u00e7\u00e3o era est\u00e9ril e vazia de espiritualidade porque muito racional. Por\u00e9m, a cada palavra sua, eu me lembrava da enc\u00edclica <em>Fides et Ratio<\/em> do Papa Jo\u00e3o Paulo II, lembrava de Santo Agostinho e, principalmente de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, do Bispo George Berkely \u2013 todos bispos cat\u00f3licos. Eu n\u00e3o perdia de vista meu desejo de educar e n\u00e3o s\u00f3 governar e santificar o povo de Deus \u2013 miss\u00e3o apost\u00f3lica dos bispos auxiliada pelos presb\u00edteros. Quando sa\u00ed da congrega\u00e7\u00e3o, foi dif\u00edcil continuar devido \u00e0 falta de recursos. \u00c0s vezes, para poder guardar dinheiro e economizar, eu ia a p\u00e9 para a Unicap. Eu saia cedo da casa de meus pais, no Morro da Concei\u00e7\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 universidade, de modo que eu chegasse e desse tempo de descansar. Principalmente quando tinha reuni\u00e3o dos grupos de estudo e pesquisa do professor Marcos Nunes e da professora Eleonoura Enoque, cujas aulas e grupo de estudos mudaram complemente minha vida.<\/p>\n<p><em><strong>B.U &#8211; De que maneira o contexto familiar influenciou\/dificultou\/contribuiu para o seu sucesso?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I<\/strong> &#8211; Meus pais n\u00e3o terminaram o ensino b\u00e1sico. Meu pai teve que deixar a escola para trabalhar muito jovem, o que o impediu de prosseguir a quinta s\u00e9rie. E minha m\u00e3e n\u00e3o conseguiu terminar a sexta. E entre meus parentes, igualmente ningu\u00e9m tinha terminado os estudos e, consequentemente, ingressado no ensino superior. Hoje em dia, somente os primos continuam estudando. Nem mesmo meu irm\u00e3o, que \u00e9 mais velho que eu, conseguiu terminar o ensino m\u00e9dio antes de mim. Assim, o reconhecimento de que meus pais fizeram tudo para que eu continuasse na escola foi minha motiva\u00e7\u00e3o. Para\u00a0 poder comprar meu material escolar e, inclusive um t\u00eanis para eu ir \u00e0 escola, minha m\u00e3e passou a trabalhar como empregada dom\u00e9stica. Paulatinamente, eu pude trocar a sacola pl\u00e1stica por uma mochila verde (s\u00f3 tive uma), as sand\u00e1lias por um t\u00eanis, o p\u00e3o assado na bolsa por algumas moedas no bolso para comprar pipoca e doces. \u00c9 muito duro e emocionante dizer isto, os dedos e a garganta travam, os olhos ficam emba\u00e7ados com l\u00e1grimas, mas a verdade \u00e9 que a nossa pobreza material n\u00e3o afetou o esfor\u00e7o de meus pais para que meu irm\u00e3o e eu n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o mesmo destino que eles. Outra dificuldade: morando numa comunidade muito barulhenta, devido \u00e0 presen\u00e7a de som alt\u00edssimo, comum em comunidades da periferia, eu tive que desenvolver o h\u00e1bito de estudar durante a madrugada. A isto se soma tamb\u00e9m o fato de que minha casa estava sempre repleta de gente. Por isso, passei a dormir somente 4h ou 5h por dia: quanto todos iam dormir eu come\u00e7ava a estudar. Quando a televis\u00e3o da sala desligava e as pessoas iam embora (como minha m\u00e3e \u00e9 muito querida pelos seus amigos e minhas primas, minha casa ainda hoje est\u00e1 diariamente repleta de gente e de crian\u00e7as), ent\u00e3o eu podia abrir o livro. Enquanto todos estavam hipnotizados pelas doutrinas da Globo, eu lia Jorge Amado, Machado de Assis, Pe. Antonio Vieira&#8230; Ficando visivelmente esgotado, mais uma vez minha amiga Gloria estendeu sua m\u00e3o: ela me convidou a morar com ela para eu ter mais condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas de estudar. Aceitei e passei a ir na casa de meus pais para matar a saudade e pegar roupas. Eu tinha ent\u00e3o duas casas. Nestas condi\u00e7\u00f5es, a inspira\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo que Gloria me dava tiveram em mim uma influ\u00eancia human\u00edstica muito forte. Com ela, eu passei a compreender melhor o estado de esp\u00edrito e condi\u00e7\u00e3o de minha fam\u00edlia e a me empenhar mais para conseguir terminar os estudos e dar-lhes melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Meu objetivo de vida \u00e9 dar uma boa vida para meus pais. Meu sonho \u00e9 reformar a pequena casa de meus pais, dar-lhe o sustento digno com uma boa refei\u00e7\u00e3o e possibilidade de lazer e ver minha m\u00e3e feliz. Quero salientar, no entanto, que sofri muito preconceito quando decidi ser professor de filosofia. Quando eu fui o orador da minha turma, na nossa formatura, fiz quest\u00e3o de salientar como nossas fam\u00edlias dizem que iremos passar fome sendo professores de filosofia, como a educa\u00e7\u00e3o e mais ainda a filosofia \u00e9 vista como desprez\u00edvel por aqueles cujo acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o foram negados e negligenciados. No entanto, paradoxalmente, em minha casa, \u00e9 a filosofia que nos d\u00e1 de comer. Felizmente, desde o fim da gradua\u00e7\u00e3o (com o Pibic) eu continuei tendo bolsas de estudo no Mestrado e no Doutorado em Filosofia. Desde que comecei a trabalhar com a filosofia, portanto, eu tenho a oportunidade de sustentar meus pais e muito mais nos \u00faltimos anos quando a crise no setor do servi\u00e7o de xerox p\u00f4s fim \u00e0 atividade que meu pai exercia. Por eles, para minha felicidade, eu continuo na atividade filos\u00f3fica.<\/p>\n<p><em><strong><img data-attachment-id=\"73092\" data-permalink=\"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/do-morro-da-conceicao-para-a-franca-ex-aluno-de-filosofia-da-catolica-faz-doutorado-na-paris-sorbonne-iv\/ednaldo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?fit=1920%2C1080&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1920,1080\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;2.2&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;XT1097&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1460894864&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;2.16&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;64&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.00246&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Ednaldo\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?fit=300%2C169&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignright size-large wp-image-73092\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Ednaldo.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/>B.U &#8211;\u00a0 O que te motivou a aprofundar a vida acad\u00eamica?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I<\/strong> &#8211; O meu futuro como historiador da filosofia surgiu dentro na Unicap. No segundo semestre de 2005, durante as aulas de filosofia da natureza, ministrada pela professora Eleonoura Enoque, eu me deparei com a metaf\u00edsica de Arist\u00f3teles. Fiquei absolutamente fascinado e, ent\u00e3o, a professora me encarregou de apresentar, durante os semin\u00e1rios da disciplina, sobre o conceito aristot\u00e9lico de subst\u00e2ncia presente no livro Z de sua Metaf\u00edsica. Fiquei ainda mais apaixonado por sua filosofia e fiz a exposi\u00e7\u00e3o. Neste momento, alguns alunos da sala demonstraram o mesmo interesse e paix\u00e3o \u2013 o que levou a professora Eleonoura a criar o grupo de estudos \u201cFilosofia da Natureza\u201d, no qual l\u00edamos e discut\u00edamos os dois primeiros livros da obra \u201cF\u00edsica\u201d de Arist\u00f3teles. Eu estava t\u00e3o apaixonado por esta tem\u00e1tica que me vi cada dia mais apegado \u00e0 linha de pesquisa de filosofia da natureza. Por\u00e9m, somente num dos \u00faltimos semin\u00e1rios da disciplina foi que pude conhecer o pensamento filos\u00f3fico que me acompanha atualmente. O aluno Tiago Tinoco estava falando sobre \u201ca filosofia de Descartes\u201d e de um livro que fala sobre seu discurso a respeito das leis da natureza \u2013 <em>Le Monde ou le Trait\u00e9 de la Lumi\u00e8re<\/em> (O Mundo ou o Tratado da Luz) \u2013 n\u00e3o tinha tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas e, por isso, ele n\u00e3o p\u00f4de expor melhor sobre a filosofia da natureza de Descartes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao final das quest\u00f5es pertinentes ao semin\u00e1rio e ap\u00f3s a breve exposi\u00e7\u00e3o da professora sobre a import\u00e2ncia e contexto hist\u00f3rico do referido livro, eu me prontifiquei a tentar traduzi-lo \u2013 o que causou um evidente entusiasmo na professora. Tal atividade fora poss\u00edvel porque a congrega\u00e7\u00e3o da qual eu fazia parte, ap\u00f3s consultar qual l\u00edngua estrangeira eu gostaria de aprender, financiou meus estudos da l\u00edngua francesa na Alian\u00e7a Francesa do Derby. Tal permiss\u00e3o foi poss\u00edvel porque esta congrega\u00e7\u00e3o religiosa teve sua origem na Fran\u00e7a e os meus superiores ficaram muito animados com o fato de que somente um continuou a aprender a l\u00edngua do fundador Santo Eug\u00eanio de Mazenod (todos os outros escolheram e continuaram a estudar a l\u00edngua inglesa, visto que a maioria dos oblatos que estavam no Recife eram norte-americanos).<\/p>\n<p>Dois meses ap\u00f3s as primeiras p\u00e1ginas traduzidas do livro e tendo mostrado a tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 professora Eleonoura, ela ficou extremamente contente com o que estava lendo e decidimos continuar a tradu\u00e7\u00e3o para fazer uma publica\u00e7\u00e3o comentada do livro. Algum tempo depois, vimos o professor \u00c9rico Andrade (UFPE) publicar a ent\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita do <em>Le Monde<\/em>. Tal fato n\u00e3o nos desestimulou, visto que h\u00e1 toda uma linha de tradu\u00e7\u00e3o, estilo e mais ainda de interpreta\u00e7\u00e3o. Comecei, ent\u00e3o, a me aprofundar sobre a quest\u00e3o da \u201ccria\u00e7\u00e3o continuada do mundo\u201d na filosofia de Descartes.\u00a0 Depois, apresentei os resultados dos meus primeiros trabalhos em sala de aula. Procurei o professor \u00c9rico, ele me falou sobre um grupo de estudos \u201cFilosofia da Natureza\u201d, procurei este grupo, vi que ele era dirigido pelo Prof. Dr. Witold Skwara. Apresentei minhas pesquisas e trabalhos realizados com a professora Eleonoura e manifestei meu projeto de estudar sobre o discurso cartesiano a respeito do mundo. Ele me apresentou alguns autores e comentadores cartesianos e tamb\u00e9m um fil\u00f3sofo que fizeram na filosofia contempor\u00e2nea mais uma cr\u00edtica \u00e0 filosofia de Descartes. Atrav\u00e9s deste professor da UFPE eu conheci a cosmologia do organismo do ingl\u00eas naturalizado norte-americano Alfred North Whitehead. E devido \u00e0 toda influ\u00eancia cr\u00edtica e pejorativa que eu fora formado sobre a vis\u00e3o de mundo cartesiana, eu me vi envolvido pelos temas provindos da \u00e9tica ecol\u00f3gica e ambiental, cujo advers\u00e1rio te\u00f3rico primordial era Descartes. Fui dominado pela ideia de uma mundo conectado, vivo, org\u00e2nico, que sente \u2013 completamente diferente da concep\u00e7\u00e3o de natureza professada por este moderno: para quem o corpo \u00e9 pura <em>res extensa<\/em>, radicalmente distinto da alma, \u00fanica subst\u00e2ncia capaz de sentir porque \u00e9 coisa pensante, pensamento, enfim <em>res cogitans<\/em>.<\/p>\n<p><em><strong>B.U &#8211; Qual sua linha de pesquisa no mestrado?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I<\/strong> &#8211; A partir de 2007 comecei a participar de mais um grupo de pesquisa: um na Unicap e o outro na UFPE, ambos sobre filosofia da natureza. Como o grupo da UFPE tinha por orienta\u00e7\u00e3o as pesquisas individuais dos membros, eu passei a estudar a filosofia da natureza de Descartes e de Whitehead. O ent\u00e3o namorado franc\u00eas de minha amiga Gloria, Gabril Brilhault, ao ver a minha paix\u00e3o por Descartes, presenteou-me com a cole\u00e7\u00e3o Adam-Tannery obras completas de Descartes. Meu entusiasmo cresceu abundantemente ao ver aqueles onze volumes com todos os escritos cartesianos. E ap\u00f3s comprar tamb\u00e9m todos os livros de Whitehead, pude fazer o projeto de mestrado sobre \u201cA Cosmologia Filos\u00f3fica de Alfred North Whitehead\u201d focando em sua cr\u00edtica \u00e0 vis\u00e3o de mundo cartesiano. Eu me tornei, ent\u00e3o, o primeiro estudante a realizar um mestrado sobre tal fil\u00f3sofo, desprezado neste dom\u00ednio porque a comunidade filos\u00f3fica tradicional do Brasil considera irrelevante discutir tal tem\u00e1tica ap\u00f3s o criticismo kantiano. Para conseguir obter o t\u00edtulo de mestre em 2011, eu tive que ir para a PUC-SP em 2009 porque o Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia da UFPE tinha sido descredenciado pela Capes. Passei um semestre estudando com os professores Marcelo Perini, Rachel Gazolla, Mario Ariel Gonz\u00e1lez Porta e o professor Ivo A. Ibri. Estando em S\u00e3o Paulo, vi o Mestrado em Filosofia da UFPE reabrir. E tal fato me fez querer voltar para casa. Constantemente em contato com o Prof. Witold, ele se mostrou muito entusiasmado com minha trajet\u00f3ria, visto que foi ele quem me apresentou e me acompanhou nos estudos sobre a filosofia de Whitehead. Fiz minha inscri\u00e7\u00e3o para a sele\u00e7\u00e3o do mestrado. \u00c9ramos 30 candidatos para preencher 15 vagas. Inscri\u00e7\u00e3o homologada: projeto e documentos aceitos. A primeira prova eliminat\u00f3ria foi de l\u00edngua. Muitos candidatos foram eliminados nesta segunda fase. Formos para a prova escrita, que teve como obrigatoriedade a leitura oral em p\u00fablico. Escrevi sobre Heidegger. As aulas do professor Karl Heinz Efken ecoavam na minha mente. Reutilizei os textos que meu antigo professor de filosofia da Unicap nos disponibilizou. E entre os 15 candidatos finais aptos para a entrevista com os sete professores da comiss\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o, somente 7 candidatos foram aprovados. Minha ansiedade e nervosismo eram enormes. Meu amigo Leandro Santos e eu fomos \u00e0 praia para eu poder me acalmar naquele dia cujo resultado seria divulgado. Minha prova e minhas notas me colocaram no terceiro lugar do processo seletivo do Mestrado em Filosofia da UFPE. Para minha satisfa\u00e7\u00e3o, eu fora contemplado com a \u00faltima bolsa para aquela entrada. Deixei a praia de Boa Viagem e realmente avancei para \u00e1guas mais profundas da atividade filos\u00f3fica. Licenciado em filosofia, agora eu estava na UFPE como mestrando em filosofia e tudo isso gra\u00e7as \u00e0 base filos\u00f3fica adquirida na Unicap.<\/p>\n<p><em><strong>B.U &#8211; Como foi o processo de sele\u00e7\u00e3o para o Doutorado a\u00ed na Fran\u00e7a?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I<\/strong> &#8211; Durante meu mestrado na UFPE (2010-2011), participei constantemente dos eventos organizados pelo Departamento e PPG de Filosofia. Num destes eventos, enquanto eu apresentava a cr\u00edtica whiteheadiana sobre a filosofia de Descartes, um professor da Unicamp tomou conhecimento de minhas falas e apresenta\u00e7\u00e3o. Foi assim que o Prof. \u00c9rico Andrade me apresentou ao Prof. En\u00e9ias J\u00fanior Forlin. Tivemos uma conversa, eu falei sobre minhas pesquisas e, prontamente, este professor fez a seguinte pergunta: \u201cVoc\u00ea gostaria de fazer um doutorado comigo l\u00e1 na Unicamp? Sua tem\u00e1tica \u00e9 muito boa e estas discuss\u00f5es me interessam\u201d. Extasiado e surpreendentemente feliz por este reconhecimento, apenas conseguir dizer \u201csim, eu quero e muito obrigado pelo convite\u201d. Indaguei, ent\u00e3o, como seria o processo seletivo para o doutorado em Filosofia na Universidade Estadual de Campinas \u2013 Unicamp, e o professor En\u00e9ias, especialista na filosofia cartesiana, falou que bastava encontrar um professor que aceitasse orientar o projeto de doutorado e passar nas provas de l\u00ednguas. Como eu tinha uma trajet\u00f3ria em filosofia, ele me liberou de efetuar uma prova de conhecimento espec\u00edfico. Foi assim que ingressei em 2012 no Doutorado em Filosofia da Unicamp com o projeto \u201cOs Fundamentos Epistemol\u00f3gicos da Metaf\u00edsica de Alfred North Whitehead: a Resposta Whiteheadiana ao Criticismo Kantiano\u201d. Fui sem bolsa e enviei o projeto para a Fapesp a fim de obter uma bolsa de estudos. Por\u00e9m, como n\u00e3o h\u00e1, no Brasil, professor doutor especializado na filosofia de Whitehead, o parecerista viu por bem negar a concess\u00e3o da bolsa. Ap\u00f3s trabalhar como professor de filosofia no ensino Fundamental II e M\u00e9dio no Col\u00e9gio Santa Catarina (Recife) e professor universit\u00e1rio na Faculdade IBGM em 2011, eu pude juntar um bom dinheiro para viver durante um ano em Campinas. Por\u00e9m, o alto custo de vida da cidade, cada m\u00eas em Campinas consumia dois meses previstos dos meus recursos. Assim, fui obrigado a mudar de tema de doutorado a fim de que eu pudesse ter mais chances de obter uma bolsa de estudos e, sobretudo, ter reconhecimento entre os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o: meus professores da Unicamp sabiamente me orientaram a estudar um autor e tema cl\u00e1ssico na hist\u00f3ria de filosofia. Foi assim que, a partir de outubro de 2012, empacotei todos os livros sobre Whitehead, e me vi diante de uma quest\u00e3o muito importante na filosofia de Descartes. No fim de 2012, fiz o levantamento bibliogr\u00e1fico e fichamentos sobre a metaf\u00edsica cartesiana e durante os primeiros seis meses de 2013, auxiliado por meu orientador, constru\u00ed um novo projeto de doutorado, agora sobre a famosa quest\u00e3o da \u201cdistin\u00e7\u00e3o real entre alma e corpo e a sua uni\u00e3o substancial\u201d. Encerramos o projeto e, no in\u00edcio de 2014, a Fapesp me concedeu uma bolsa de estudo para desenvolver o projeto \u201cA Distin\u00e7\u00e3o Real Cartesiana e a Possibilidade da Uni\u00e3o Substancial e Intera\u00e7\u00e3o entre Alma e Corpo\u201d.<\/p>\n<p>Foi como doutorando da Unicamp que tive a oportunidade de entrar em contato com os grandes pesquisadores da filosofia cartesiana e membros do Centre d\u2019\u00c9tudes Cart\u00e9sienne de Paris (Fran\u00e7a). Durante col\u00f3quios em Campinas, conheci os professores franceses da Univesit\u00e9 Paris Sorbonne (Jean-Luc Marion e Laurence Renault) e da Univesit\u00e1 de Salento (Giulia Belgioioso, Maximiliano Savini e Igor Agostini). Uma das atividades deste evento foram os minicursos dados por esta professora italiana, que abordava o tema de pesquisa que eu me ocupava no doutorado e, inacreditavelmente, t\u00ednhamos diferen\u00e7as de interpreta\u00e7\u00e3o referente aos mesmos textos. Eram pequenas diferen\u00e7as que implicavam grandes diverg\u00eancias. A referida professora ficou atenta \u00e0 minha l\u00f3gica interpretativa dos textos cartesianos e, ent\u00e3o, me convidou para desenvolver um doutorado sob sua orienta\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia. Lisonjeado com o convite, conversei com a ela alegando meu desejo de continuar com o doutorado na Unicamp e me comprometendo a traduzir meus trabalhos e lhe enviar, bem como participar futuramente de algum evento na It\u00e1lia. No dia seguinte, por\u00e9m, visto o cronograma de atividades elaborado com meu orientador, conversei e marquei uma reuni\u00e3o com a Prof. Laurence Renault, professora da Univesit\u00e9 Paris-Sorbonne IV e secret\u00e1ria cient\u00edfica do Centre d\u2019\u00c9tudes Cart\u00e9siennes ligado a esta IES. Na ocasi\u00e3o, eu lhe indaguei sobre a possibilidade de ela ser a supervisora do meu interc\u00e2mbio. Ela prontamente aceitou ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o do meu projeto de pesquisa de doutorado e do programa de pesquisa que eu desenvolveria sob sua orienta\u00e7\u00e3o. Eis, ent\u00e3o, o grande salto que eu dava: aquele menino pobre do Morro da Concei\u00e7\u00e3o fora aceito para estudar na Universit\u00e9 Paris-Sorbonne IV, na Fran\u00e7a. A imagem de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o veio ao Brasil, da Fran\u00e7a ao Morro, agora um estudante de Casa Amarela estava indo do Morro para a Fran\u00e7a. Foi assim que, ap\u00f3s o processo de aquisi\u00e7\u00e3o do visto e tamb\u00e9m ser aceito como residente na Maison du Br\u00e9sil situada na Cit\u00e9 Universit\u00e9 de Paris, eu pude viver sete (15 de abril \u2013 15 novembro de 2016) meses em Paris como estudante doutorando estrangeiro na Universit\u00e9 Paris Sorbonne sob a supervis\u00e3o de Prof. Mme. Laurence Renault. O t\u00edtulo de meu projeto desenvolvido foi \u201cL\u2019apport m\u00e9taphysique presente dans la notion de passions de l\u2019\u00e2me, les Verit\u00e9s Eternelles et les Principes L\u00f3giques dans la Philosophie Cart\u00e9sienne\u201d. Com o fim do meu <em>s\u00e9jour<\/em> em Paris, voltei para a Unicamp, em Campinas-SP.<\/p>\n<p><em><strong>B.U &#8211; Qual a influ\u00eancia da Unicap na sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>E.I &#8211;<\/strong> Ao chegar na PUC-SP, na UFPE e na Unicamp, o fato de eu ter estudado a hist\u00f3ria e os textos filos\u00f3ficos segundo o m\u00e9todo gen\u00e9tico e n\u00e3o estruturalista, proporcionou-me ter uma vis\u00e3o mais abrangente da hist\u00f3ria da filosofa. \u00c9 fato tamb\u00e9m que o m\u00e9todo de leitura a partir e focado nos textos traz grande contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento filos\u00f3fico dos estudantes. Mas ressalto que foi gra\u00e7as ao modo panor\u00e2mico das principais correntes e tem\u00e1ticas que me possibilitou melhor entrar no mercado de trabalho. Devido \u00e0 minha desenvoltura particular de falar e ensinar e o aporte te\u00f3rico adquirido na Unicap eu pude ter muito sucesso dentro da sala de aula tanto no ensino fundamental e m\u00e9dio quanto no superior. Eu pude, ent\u00e3o, pegar minhas viv\u00eancias e experi\u00eancias cotidianas como ilustra\u00e7\u00e3o para a exposi\u00e7\u00e3o de conte\u00fados program\u00e1ticos que eu deveria facilitar durante minha atividade docente. Mesmo frente a outros estudantes, eu percebia esta diferen\u00e7a: conheci muitos estudantes que nunca tiveram aulas sobre Plat\u00e3o e Plotino, Santo Agostinho, por exemplo. Por\u00e9m, conheci muitos que estudaram minuciosamente textos de Arist\u00f3teles e Tom\u00e1s de Aquino, Descartes, Spinoza e Kant. Assim, foi na Unicamp que meu reconhecimento enquanto licenciado em filosofia pela Unicap se mostrou. Devido \u00e0 esta forma\u00e7\u00e3o e \u00e0 minha atividade docente, fui convidado a ser o professor estagi\u00e1rio da disciplina \u201cEst\u00e1gio Supervisionado em Filosofia\u201d do curso de licenciatura da Unicamp. Sob meu projeto pedag\u00f3gico, os alunos desta Universidade se viram com uma nova proposta de ensinar filosofia. As atividades do est\u00e1gio tiveram sucesso, e fui convidado a permanecer no posto por mais dois semestres, cujo fluxo de alunos gradativamente aumentou. Tenho a alegria de encontrar os alunos e professores que ainda hoje falam de como a minha vis\u00e3o de ensinar a filosofia influenciou os alunos durante e ap\u00f3s minha passagem pelo Programa de Est\u00e1gio Docente (PED) da Unicamp. E tudo isso foi gra\u00e7as \u00e0 Unicap, institui\u00e7\u00e3o onde me formei e tenho o sonho de um dia me tornar professor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais que uma ascens\u00e3o acad\u00eamica, a hist\u00f3ria de vida de Ednaldo Isidoro mostra que a educa\u00e7\u00e3o transforma vidas. O ex-aluno do curso de Filosofia da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco est\u00e1 no \u00faltimo ano do Doutorado entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universit\u00e9 Paris-Sorbonne IV. 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