{"id":5939,"date":"2010-07-01T16:38:50","date_gmt":"2010-07-01T19:38:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=5939"},"modified":"2010-07-01T16:38:50","modified_gmt":"2010-07-01T19:38:50","slug":"viver-amparo-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/viver-amparo-caridade\/","title":{"rendered":"Artigo da professora Amparo Caridade"},"content":{"rendered":"<p>Uma das paix\u00f5es da professora Amparo Caridade, que faleceu nesta quarta-feira (30), era escrever. No dia 20 de junho, quando ela recebeu alta do hospital ap\u00f3s 12 dias de interna\u00e7\u00e3o, escreveu esse texto que publicamos abaixo:<\/p>\n<p>VIVER.<\/p>\n<p>Amparo Caridade<\/p>\n<p>Confinamento inevit\u00e1vel, adoecer demorado. Depois a luz cheia de gra\u00e7a. Inusitada. For\u00e7a total se impunha sobre mim. Jamais havia visto, tocado, sentido, algo parecido, t\u00e3o arrebatador, t\u00e3o especial. A luz tomou conta e se apossou da treva, passou da treva para a luz. At\u00e9 ali desconhecia aquela for\u00e7a de beleza encantadoramente nova. Devia ser um \u00eaxtase. Fora e muito dentro de mim eu estava ali, inteira como jamais pude me imaginar. Longe de qualquer conceito, ou pensamento. Era simplesmente Amparo. Atravessada por algo intenso, desconhecido. Cena destinada \u00e0 eternidade. Possu\u00edda, tomada, arrebatada, o sol tocou minha pele, com ternura jamais sentida. Perfeito. A experi\u00eancia foi divina, humana, diferente. N\u00e3o mais a mesma. Outra Amparo, mais bonita, energia pura, nascimento sem volta. Caixa de surpresas fazendo ver que dentro de mim h\u00e1 muita beleza a descortinar. Vi beleza por onde jamais vira antes, e o meu Recife estava estonteantemente encantador. A luz do sol sobre o Recife me enfeiti\u00e7ou. Possu\u00edda, j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais como ser a mesma. Outra Amparo busca agora dimens\u00f5es ainda n\u00e3o sentidas. Outra Amparo se aninha num viver, cuja busca de dimens\u00f5es ainda n\u00e3o foram sentidas. Possu\u00edda dessa for\u00e7a com a qual n\u00e3o pude me debater, entreguei-me. Experi\u00eancia n\u00e3o pede licen\u00e7a. Imp\u00f5e-se. N\u00e3o era eu. Era arrebate. Era outro ser que eu n\u00e3o dominava, n\u00e3o queria dominar, apenas experimentar. Entregue, vi o belo. N\u00e3o era eu que via, sentia. Algo se impunha. Era encantamento de outro nascimento.<\/p>\n<p>Quem dera isso n\u00e3o passasse! Que meus olhos se perdessem tontos dessa beleza e sentido. N\u00e3o quero ser mais a mesma. Quero muito mais. Invadida, envolvida, tomada pela for\u00e7a da vida entreguei-me. Quero olhos sentindo o que a vida tem de mais belo a ser revelado. A alegria de ser simplesmente um ser vivo que tem a chance de mergulhar na intensidade, sem medo de nela se perder. Desconhecia minha cidade t\u00e3o bela, pessoas t\u00e3o encantadoras. Demorei a voltar do encantamento. Meus olhos acostumados ao ordin\u00e1rio agora querem mais; querem intensidade e beleza sem ponto final. Delas n\u00e3o quero mais me perder.<\/p>\n<p>Tudo perfeito. Divino. Nasci ali para algo diferente, nascimento sem volta. Atravessada por belezas intensas. Cena destinada \u00e0 eternidade. Eu n\u00e3o sabia dessa experi\u00eancia. Foi divina. Humana. Ser\u00e1 imortal. Foi apenas o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Dentro de mim h\u00e1 muito para descobrir, beleza para enxergar, vida para sentir. Outra Amparo se aninha no meu existir, busca dimens\u00f5es ainda n\u00e3o percebidas.<\/p>\n<p>Quem dera isso n\u00e3o passasse. Quem dera meus olhos ficassem embriagados de beleza e sentido. N\u00e3o posso mais ser a mesma. Quero muito mais. Invadida, envolvida, tomada pela for\u00e7a da vida entreguei-me. Meus olhos sentiam. Acostumados ao ordin\u00e1rio agora querem mais, querem intensidade, beleza sem ponto final. Delas n\u00e3o quero mais me perder.<\/p>\n<p>Bendita doen\u00e7a que me possibilitou essa revolu\u00e7\u00e3o. A felicidade de me transformar num ser que ama e dignifica o existir. Sem medo de ser feliz.<\/p>\n<p>* <em>Texto escrito no dia 20 de junho de 2010 ao sair de Hospital ap\u00f3s 12 dias de interna\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das paix\u00f5es da professora Amparo Caridade, que faleceu nesta quarta-feira (30), era escrever. No dia 20 de junho, quando ela recebeu alta do hospital ap\u00f3s 12 dias de interna\u00e7\u00e3o, escreveu esse texto que publicamos abaixo: VIVER. Amparo Caridade Confinamento inevit\u00e1vel, adoecer demorado. Depois a luz cheia de gra\u00e7a. Inusitada. 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