{"id":42126,"date":"2013-09-20T23:41:40","date_gmt":"2013-09-21T02:41:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=42126"},"modified":"2013-09-20T23:41:40","modified_gmt":"2013-09-21T02:41:40","slug":"confira-entrevista-do-papa-francisco-a-revista-civilta-cattolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/confira-entrevista-do-papa-francisco-a-revista-civilta-cattolica\/","title":{"rendered":"Confira entrevista do Papa Francisco \u00e0 revista Civilt\u00e0 Cattolica"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel dialogar?<\/strong><\/p>\n<p>Por Padre Antonio Spadaro, SJ | Brot\u00e9ria &#8211;<\/p>\n<p>\u00c9 segunda-feira, 19 de agosto. O Papa Francisco marcou encontro para as 10h na Casa de Santa Marta. Eu, no entanto, herdei do meu pai a necessidade de chegar sempre mais cedo. As pessoas que me acolhem instalam-me numa pequena sala. A espera dura pouco, e, depois de uns breves minutos, acompanham-me ao elevador. Nesses dois minutos tive tempo de recordar como em Lisboa, numa reuni\u00e3o de diretores de algumas revistas da Companhia de Jesus, surgiu a proposta de publicar conjuntamente uma entrevista com o Papa. Tinha conversado com os outros diretores, ensaiando algumas perguntas que exprimissem os interesses de todos. Saio do elevador e vejo o Papa j\u00e1 \u00e0 porta, \u00e0 minha espera. Na verdade, tive a agrad\u00e1vel impress\u00e3o de n\u00e3o ter atravessado portas.<\/p>\n<p><strong>O Papa e Padre Antonio Spadaro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entro no seu quarto e o Papa convida-me a sentar numa poltrona. Ele senta-se numa cadeira mais alta e r\u00edgida, por causa dos seus problemas de coluna. O ambiente \u00e9 simples, austero. O espa\u00e7o de trabalho da escrivaninha \u00e9 pequeno. Toca-me a essencialidade n\u00e3o apenas dos m\u00f3veis, mas tamb\u00e9m das coisas. Veem-se poucos livros, poucos pap\u00e9is, poucos objetos. Entre estes, um \u00edcone de S\u00e3o Francisco, uma est\u00e1tua de Nossa Senhora de Luj\u00e1n (padroeira da Argentina), um crucifixo e uma est\u00e1tua de S\u00e3o Jos\u00e9 adormecido, muito semelhante \u00e0quela que tinha visto no seu quarto de reitor e superior provincial no Col\u00e9gio M\u00e1ximo de San Miguel. A espiritualidade de Bergoglio n\u00e3o \u00e9 feita de &#8220;energias harmonizadas&#8221;, como ele lhe chamaria, mas de rostos humanos: Cristo, S\u00e3o Francisco, S\u00e3o Jos\u00e9, Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa acolhe-me com o mesmo sorriso que j\u00e1 deu v\u00e1rias vezes a volta ao mundo e que abre os cora\u00e7\u00f5es. Come\u00e7amos a falar de tantas coisas, mas sobretudo da sua viagem ao Brasil. O Papa considera-a uma verdadeira gra\u00e7a. Pergunto-lhe se descansou. Ele diz-me que sim, que est\u00e1 bem, mas, sobretudo, que a Jornada Mundial da Juventude foi para ele um &#8220;mist\u00e9rio&#8221;. Diz-me que nunca foi habituado a falar para tanta gente: &#8220;Consigo olhar para as pessoas, uma de cada vez, e entrar em contacto de modo pessoal com quem tenho na minha frente. N\u00e3o estou habituado \u00e0s massas&#8221;. Digo-lhe que \u00e9 verdade e que se v\u00ea, e que isto impressiona toda a gente. V\u00ea-se que quando est\u00e1 no meio das pessoas, os seus olhos, de fato, pousam sobre cada um. Depois as c\u00e2maras televisivas difundem as imagens e todos podem v\u00ea-lo, mas assim ele pode sentir-se livre para ficar em contato direto, pelo menos visual, com quem tem diante de si. Parece-me contente com isso, por poder ser aquilo que \u00e9, por n\u00e3o ter de alterar o seu modo habitual de comunicar com as pessoas, mesmo quando tem diante de si milh\u00f5es de pessoas, como aconteceu na praia de Copacabana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de eu ligar o gravador, falamos de outras coisas. Comentando uma minha publica\u00e7\u00e3o, disse-me que os seus dois pensadores franceses contempor\u00e2neos predilectos s\u00e3o Henri de Lubac e Michel de Certeau. Digo-lhe ainda algumas coisas mais pessoais. Tamb\u00e9m ele me fala de si e particularmente da sua elei\u00e7\u00e3o pontif\u00edcia. Diz-me que quando come\u00e7ou a dar-se conta de que corria o risco de ser eleito, na quarta-feira, dia 13 de mar\u00e7o, \u00e0 hora do almo\u00e7o, sentiu descer sobre ele uma profunda e inexplic\u00e1vel paz e consola\u00e7\u00e3o interior, juntamente com uma escurid\u00e3o total e uma obscuridade profunda sobre tudo o mais. E estes sentimentos acompanharam-no at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, teria continuado a falar assim familiarmente ainda por muito tempo, mas pego nas folhas com algumas perguntas que tinha anotado e ligo o gravador. Antes de mais, agrade\u00e7o-lhe em nome de todos os diretores das revistas dos jesu\u00edtas que publicar\u00e3o esta entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes da audi\u00eancia que concedeu aos jesu\u00edtas da Civilt\u00e0 Cattolica, o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe v\u00eam depois de ter dado a primeira resposta: &#8220;N\u00e3o me reconheci a mim mesmo quando no voo de regresso do Rio de Janeiro respondi aos jornalistas que me faziam perguntas&#8221;, diz-me. Na verdade, nesta entrevista, v\u00e1rias vezes o Papa sentiu-se livre para interromper aquilo que estava a dizer respondendo a uma pergunta, para acrescentar algo sobre a precedente. Falar com o Papa Francisco \u00e9, realmente, uma<br \/>\nesp\u00e9cie de fluxo vulc\u00e2nico de ideias que se atam entre si. Mesmo o tomar apontamentos traz a desagrad\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de interromper um di\u00e1logo nascente. \u00c9 claro que o Papa Francisco est\u00e1 mais habituado a conversas, do que a li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem \u00e9 Jorge Mario Bergoglio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho a pergunta pronta, mas decido n\u00e3o seguir o esquema que fixara e pergunto um pouco \u00e0 queima-roupa: &#8220;Quem \u00e9 Jorge Mario Bergoglio?&#8221; O Papa fixa-me em sil\u00eancio. Pergunto se \u00e9 uma pergunta l\u00edcita para lhe colocar\u2026 Ele faz sinal de aceitar a pergunta e diz-me: &#8220;N\u00e3o sei qual possa ser a defini\u00e7\u00e3o mais correta\u2026 Eu sou um pecador. Esta \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 um modo de dizer, um g\u00eanero liter\u00e1rio. Sou um pecador&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa continua a refletir, como se n\u00e3o esperasse aquela pergunta, como se fosse obrigado a uma reflex\u00e3o ulterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sim, posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei mover-me, mas \u00e9 verdade que sou tamb\u00e9m um pouco ing\u00eanuo. Sim, mas a s\u00edntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, \u00e9 exatamente esta: \u201cSou um pecador para quem o Senhor olhou\u201d. E repete: &#8220;Sou algu\u00e9m que \u00e9 olhado pelo Senhor. A minha divisa, Miserando atque eligendo, senti-a sempre como muito verdadeira para mim&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A divisa do Papa Francisco \u00e9 tirada das Homilias de S\u00e3o Beda, o Vener\u00e1vel, o qual, comentando o epis\u00f3dio evang\u00e9lico da voca\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Mateus, escreve: &#8220;Viu Jesus um publicano e assim como o olhou com um sentimento de amor, escolheu-o e disse-lhe: \u201cSegue-me\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E acrescenta: &#8220;O ger\u00fandio latino miserando parece-me intraduz\u00edvel, seja em italiano, seja em espanhol. Gosto de o traduzir com um outro ger\u00fandio que n\u00e3o existe: misericordiando&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco continua a sua reflex\u00e3o e diz-me, fazendo um salto cujo sentido n\u00e3o compreendo, naquele momento: &#8220;Eu n\u00e3o conhe\u00e7o Roma. Conhe\u00e7o poucas coisas. Entre estas, Santa Maria Maior: ia sempre l\u00e1&#8221;. Rio e digo-lhe: &#8220;Todos o compreendemos muito bem, Santo Padre!&#8221;. &#8220;Sim \u2014 prossegue o Papa \u2013 conhe\u00e7o Santa Maria Maior, S\u00e3o Pedro\u2026 mas vindo a Roma sempre vivi na Via della Scrofa. Dali visitava frequentemente a igreja de S\u00e3o Lu\u00eds dos Franceses e ali ia contemplar o quadro da voca\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Mateus, de Caravaggio\u00bb. Come\u00e7o a intuir o que \u00e9 que o Papa quer dizer-me. &#8220;Aquele dedo de Jesus assim\u2026 dirigido a Mateus. Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus&#8221;. E aqui o Papa torna-se mais decidido, como se tivesse encontrado a imagem de si pr\u00f3prio de que estava \u00e0 procura: &#8220;\u00c9 o gesto de Mateus que me toca: agarra-se ao seu dinheiro, como que a dizer: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o eu! N\u00e3o, este dinheiro \u00e9 meu!\u201d. Este sou eu: um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar. E isto \u00e9 aquilo que disse quando me perguntaram se aceitava a minha elei\u00e7\u00e3o para Pont\u00edfice. Ent\u00e3o sussurra: Peccator sum, sed super misericordia et infinita patientia Domini nostri Jesu Christi, confusus et in spiritu penitentiae, accepto\u00bb. (Sou pecador, mas confiado na miseric\u00f3rdia e paci\u00eancia infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo, confundido e em esp\u00edrito de penit\u00eancia, aceito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que se fez jesu\u00edta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreendo que esta f\u00f3rmula de aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 para o Papa Francisco mesmo um bilhete de identidade. N\u00e3o h\u00e1 nada mais a acrescentar. Prossigo com aquela que tinha escolhido como primeira pergunta: &#8220;Santo Padre, o que foi que o fez escolher entrar na Companhia de Jesus? O que \u00e9 que o impressionou na ordem dos Jesu\u00edtas?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu queria algo mais. Mas n\u00e3o sabia o qu\u00ea. Tinha entrado no semin\u00e1rio. Gostava dos dominicanos e tinha amigos dominicanos. Mas depois escolhi a Companhia, que conhecia bem, porque o semin\u00e1rio estava entregue aos jesu\u00edtas. Da Companhia impressionaram-me tr\u00eas coisas: o esp\u00edrito mission\u00e1rio, a comunidade e a disciplina. Isto \u00e9 curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E depois uma coisa para mim verdadeiramente fundamental \u00e9 a comunidade. Procurava sempre uma comunidade. Eu n\u00e3o me via padre sozinho: preciso de uma comunidade. \u00c9 mesmo isso que explica o fato de eu estar aqui em Santa Marta: quando fui eleito, ocupava, por sorteio, o quarto 207. Este onde estamos agora era um quarto de h\u00f3spedes. Escolhi ficar aqui, no quarto 201, porque quando tomei posse do apartamento pontif\u00edcio, dentro de mim senti claramente um \u201cn\u00e3o\u201d. O apartamento pontif\u00edcio no Pal\u00e1cio Apost\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 luxuoso. \u00c9 antigo, arranjado com bom gosto e grande, n\u00e3o luxuoso. Mas acaba por ser como um funil ao contr\u00e1rio. \u00c9 grande e espa\u00e7oso, mas a entrada \u00e9 verdadeiramente estreita. Entra-se a conta-gotas e eu n\u00e3o, sem gente, n\u00e3o posso viver. Preciso de viver a minha vida junto dos outros&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o Papa fala de miss\u00e3o e de comunidade, v\u00eam-me \u00e0 mente todos os documentos da Companhia de Jesus onde se fala de &#8220;comunidade para a miss\u00e3o&#8221; e reencontro-os nas suas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que significa para um jesu\u00edta ser Papa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero prosseguir nesta linha e coloco ao Papa uma pergunta que surge do fato de que ele \u00e9 o primeiro jesu\u00edta a ser eleito bispo de Roma: &#8220;Como l\u00ea, \u00e0 luz da espiritualidade inaciana, o servi\u00e7o \u00e0 Igreja Universal a que foi chamado a exercer? O que significa para um jesu\u00edta ser eleito Papa? Que ponto da espiritualidade inaciana o ajuda melhor a viver o seu minist\u00e9rio?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O discernimento&#8221;, responde o Papa Francisco. &#8220;O discernimento \u00e9 uma das coisas que Santo In\u00e1cio mais trabalhou interiormente. Para ele, \u00e9 um instrumento de luta para conhecer melhor o Senhor e segui-l\u2019O mais de perto. Impressionou-me sempre uma m\u00e1xima com que se descreve a vis\u00e3o de In\u00e1cio: Non coerceri a maximo, sed contineri a minimo divinum est. (n\u00e3o estar constrangido pelo m\u00e1ximo, e no entanto, estar inteiramente contido no m\u00ednimo, isso \u00e9 divino). Refleti muito sobre esta frase a prop\u00f3sito do governo, de ser superior: n\u00e3o estarmos restringidos pelo espa\u00e7o maior, mas sermos capazes de estar no espa\u00e7o mais restrito. Esta virtude do grande e do pequeno \u00e9 a magnanimidade, que da posi\u00e7\u00e3o em que estamos nos faz olhar sempre o horizonte. \u00c9 fazer as coisas pequenas de cada dia com o cora\u00e7\u00e3o grande e aberto a Deus e aos outros. \u00c9 valorizar as coisas pequenas no interior de grandes horizontes, os do Reino de Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esta m\u00e1xima oferece os par\u00e2metros para assumir uma posi\u00e7\u00e3o correta para o discernimento, para escutar as coisas de Deus a partir do seu \u201cponto de vista\u201d. Para Santo In\u00e1cio, os grandes princ\u00edpios devem ser encarnados nas circunst\u00e2ncias de lugar, de tempo e de pessoas. A seu modo, Jo\u00e3o XXIII colocou-se nesta posi\u00e7\u00e3o de governo quando repetiu a m\u00e1xima Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere, (ver tudo, n\u00e3o dar import\u00e2ncia a muito, corrigir pouco) porque mesmo vendoomnia, a dimens\u00e3o m\u00e1xima, preferia agir sobre pauca, sobre uma dimens\u00e3o m\u00ednima. Podem ter-se grandes projetos e realiz\u00e1-los, agindo sobre poucas pequenas coisas. Ou podem usar-se meios fracos que se revelam mais eficazes do que os fortes, como diz S\u00e3o Paulo na Primeira Carta aos Cor\u00edntios&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Este discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudan\u00e7as e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio tempo para lan\u00e7ar as bases de uma mudan\u00e7a verdadeira e eficaz. E este \u00e9 o tempo do discernimento. E por vezes o discernimento, por seu lado, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois. E foi isto o que tamb\u00e9m me aconteceu nestes meses. E o discernimento realiza-se sempre na presen\u00e7a do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente dos pobres. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligadas \u00e0 vida quotidiana, como usar um autom\u00f3vel modesto, est\u00e3o ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exig\u00eancia que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos. O discernimento no Senhor guia-me no meu modo de governar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pelo contr\u00e1rio, desconfio das decis\u00f5es tomadas de modo repentino. Desconfio sempre da primeira decis\u00e3o, isto \u00e9, da primeira coisa que me vem \u00e0 cabe\u00e7a fazer, se tenho de tomar uma decis\u00e3o. Em geral, \u00e9 a decis\u00e3o errada. Tenho de esperar, avaliar interiormente, tomando o tempo necess\u00e1rio. A sabedoria do discernimento resgata a necess\u00e1ria ambiguidade da vida e faz encontrar os meios mais oportunos, que nem sempre se identificam com aquilo que parece grande ou forte&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Companhia de Jesus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discernimento \u00e9, portanto, um pilar da espiritualidade do Papa. Nisto se exprime de modo peculiar a sua identidade jesu\u00edtica. Pergunto-lhe, pois, como pensa que a Companhia de Jesus poder\u00e1 servir melhor a Igreja hoje, qual \u00e9 a sua especificidade, mas tamb\u00e9m os eventuais riscos que corre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Companhia \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o em tens\u00e3o, sempre radicalmente em tens\u00e3o. O jesu\u00edta \u00e9 um descentrado de si pr\u00f3prio. A Companhia \u00e9 descentrada de si mesma: o seu centro \u00e9 Cristo e a sua Igreja. Por isso: se a Companhia coloca Cristo e a Igreja no centro, tem dois pontos fundamentais de refer\u00eancia do seu equil\u00edbrio para viver na periferia. Se, pelo contr\u00e1rio, olha demasiado para si pr\u00f3pria, se se coloca a si mesma no centro como estrutura bem s\u00f3lida, muito bem \u201carmada\u201d, ent\u00e3o corre o perigo de sentir-se segura e autossuficiente. A Companhia deve ter sempre diante de si o Deus semper maior, a procura da gl\u00f3ria de Deus sempre maior, a Igreja Verdadeira Esposa de Cristo Nosso Senhor, Cristo Rei que nos conquista e a Quem oferecemos toda a nossa pessoa e toda o nosso esfor\u00e7o, mesmo se somos vasos de barro, inadequados. Esta tens\u00e3o leva-nos constantemente para fora de n\u00f3s pr\u00f3prios. O instrumento que torna verdadeiramente forte a Companhia descentrada de si mesma \u00e9 o da \u201cconta de consci\u00eancia\u201d, que \u00e9 simultaneamente paternal e fraternal, precisamente porque a ajuda a sair melhor em miss\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui o Papa refere-se a um ponto espec\u00edfico das Constitui\u00e7\u00f5es da Companhia de Jesus, no qual se l\u00ea que o jesu\u00edta deve &#8220;manifestar a sua consci\u00eancia&#8221;, isto \u00e9, a situa\u00e7\u00e3o interior que vive, de modo que o superior possa estar mais ao corrente e consciente ao enviar uma pessoa \u00e0 sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas \u00e9 dif\u00edcil falar da Companhia&#8221; \u2013 prossegue o Papa Francisco. &#8220;Quando se explicita demasiado, corremos o risco de nos enganarmos. A Companhia s\u00f3 se pode exprimir em forma narrativa. Somente na narra\u00e7\u00e3o se pode fazer discernimento, n\u00e3o na explica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ou<br \/>\nteol\u00f3gica, onde, pelo contr\u00e1rio, se pode discutir. O estilo da Companhia n\u00e3o \u00e9 o da discuss\u00e3o, mas o do discernimento, que obviamente pressup\u00f5e a discuss\u00e3o no processo. A aura m\u00edstica n\u00e3o define nunca os seus limites, n\u00e3o completa o pensamento. O jesu\u00edta deve ser uma pessoa de pensamento incompleto, de pensamento aberto. Houve \u00e9pocas na Companhia nas quais se viveu um pensamento fechado, r\u00edgido, mais instrutivo-asc\u00e9tico do que m\u00edstico: esta deforma\u00e7\u00e3o gerou o Epitome Instituti&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui o Papa refere-se a uma esp\u00e9cie de resumo pr\u00e1tico, que se usou na Companhia e reformulado no s\u00e9culo XX, que foi considerado como uma substitui\u00e7\u00e3o das Constitui\u00e7\u00f5es. A forma\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas na Companhia durante um certo tempo foi modelada por este texto, de tal maneira que alguns nunca leram as Constitui\u00e7\u00f5es, que, na verdade, s\u00e3o o texto fundante. Para o Papa, durante este per\u00edodo na Companhia as regras correram o risco de abafar o esp\u00edrito e foi a tenta\u00e7\u00e3o de explicitar e afirmar demasiado o carisma que venceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continua: \u00abN\u00e3o, o jesu\u00edta pensa sempre, continuamente, olhando o horizonte para onde deve ir, tendo Cristo no centro. Esta \u00e9 a sua verdadeira for\u00e7a. E isto estimula a Companhia a estar \u00e0 procura, a ser criativa, generosa. Portanto, hoje mais do que nunca, deve ser contemplativa na ac\u00e7\u00e3o; deve viver uma proximidade profunda a toda a Igreja, entendida como \u201cPovo de Deus\u201d e \u201cSanta Madre Igreja hier\u00e1rquica\u201d. Isto requer muita humildade, sacrif\u00edcio, coragem, especialmente quando se vivem incompreens\u00f5es ou se \u00e9 objeto de equ\u00edvocos e cal\u00fanias, mas \u00e9 a atitude mais fecunda. Pensemos nas tens\u00f5es do passado sobre os ritos chineses, sobre os ritos malabares, nas redu\u00e7\u00f5es no Paraguai&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu mesmo sou testemunha das incompreens\u00f5es e problemas que a Companhia viveu mesmo recentemente. Entre estes, contam-se os tempos dif\u00edceis de quando se tratou da quest\u00e3o de alargar o \u201cquarto voto\u201d de obedi\u00eancia ao Papa a todos os jesu\u00edtas. Aquilo que me dava seguran\u00e7a no tempo do Padre Arrupe era o facto de que ele era um homem de ora\u00e7\u00e3o, um homem que passava muito tempo em ora\u00e7\u00e3o. Recordo-o quando rezava sentado no ch\u00e3o, como fazem os japoneses. Por isso ele tinha a atitude certa e tomou as decis\u00f5es correctas\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O modelo: Pedro Fabro, &#8220;padre reformado&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento pergunto-me se entre os jesu\u00edtas existem figuras, das origens da Companhia at\u00e9 hoje, que o tenham impressionado de modo particular. E assim pergunto ao Pont\u00edfice se existem, quais s\u00e3o e porqu\u00ea. O Papa come\u00e7a a citar-me In\u00e1cio e Francisco Xavier, mas depois det\u00e9m-se sobre uma figura que os jesu\u00edtas conhecem, mas que certamente n\u00e3o \u00e9 muito notada em geral: o Beato Pedro Fabro (1506-1646), da Sab\u00f3ia. \u00c9 um dos primeiros companheiros de Santo In\u00e1cio, ali\u00e1s o primeiro, com o qual partilhou o quarto quando eram os dois estudantes na Sorbonne. O terceiro no mesmo quarto era Francisco Xavier. Pio IX declarou-o beato a 5 de setembro de 1872, e est\u00e1 em curso o seu processo de canoniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cita-me o seu Memorial, cuja edi\u00e7\u00e3o ele encarregou a dois jesu\u00edtas especialistas, Miguel A. Fiorito e Jaime H. Amadeo, quando era superior provincial. O Papa gosta particularmente da edi\u00e7\u00e3o a cargo de Michel de Certeau. Pergunto-lhe porque ficou t\u00e3o impressionado por Fabro, que tra\u00e7os da sua figura o impressionam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O di\u00e1logo com todos, mesmo os mais afastados e os advers\u00e1rios; a piedade simples, talvez uma certa ingenuidade, a disponibilidade imediata, o seu atento discernimento interior, o facto de ser um homem de grandes e fortes decis\u00f5es e ao mesmo tempo capaz de ser assim doce, doce\u2026&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o Papa Francisco faz esta lista de caracter\u00edsticas pessoais do seu jesu\u00edta preferido, compreendo quanto esta figura ter\u00e1 sido na verdade para ele um modelo de vida. Michel de Certeau define Fabro simplesmente como &#8220;o padre reformado&#8221;, para quem a experi\u00eancia interior, a express\u00e3o dogm\u00e1tica e a reforma estrutural s\u00e3o intimamente indissoci\u00e1veis. Parece-me compreender, portanto, que o Papa Francisco se inspira precisamente neste g\u00eanero de reforma. Assim, o Papa continua com uma reflex\u00e3o sobre o verdadeiro rosto do fundador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;In\u00e1cio \u00e9 um m\u00edstico, n\u00e3o um asceta. Aborrece-me muito ouvir dizer que os Exerc\u00edcios Espirituais s\u00e3o inacianos apenas porque s\u00e3o feitos em sil\u00eancio. Na verdade, os Exerc\u00edcios podem ser perfeitamente inacianos tamb\u00e9m na vida corrente e sem o sil\u00eancio. A corrente que sublinha o<br \/>\nascetismo, o sil\u00eancio e a penit\u00eancia \u00e9 uma corrente deformada que se difundiu na pr\u00f3pria Companhia, especialmente no \u00e2mbito espanhol. Pelo contr\u00e1rio, eu estou pr\u00f3ximo da corrente m\u00edstica, a de Louis Lallemant e de Jean-Joseph Surin. E Fabro era um m\u00edstico\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A experi\u00eancia de governo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que tipo de experi\u00eancia de governo pode fazer amadurecer a forma\u00e7\u00e3o que teve o padre Bergoglio, que foi superior e depois provincial na Companhia de Jesus? O estilo de governo da Companhia implica a decis\u00e3o por parte do superior, mas tamb\u00e9m o atender ao parecer dos seus &#8220;consultores&#8221;. Assim, pergunto ao Papa: &#8220;Acha que a sua passada experi\u00eancia de governo pode servir \u00e0 sua atual ac\u00e7\u00e3o no governo da Igreja Universal?&#8221; O Papa Francisco, depois de uma breve pausa de reflex\u00e3o, torna-se s\u00e9rio, mas muito sereno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na minha experi\u00eancia de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necess\u00e1rias consultas. E isso n\u00e3o foi uma boa coisa. O meu governo como jesu\u00edta no in\u00edcio tinha muitos defeitos. Est\u00e1vamos num tempo dif\u00edcil para a Companhia: tinha desaparecido uma inteira gera\u00e7\u00e3o de jesu\u00edtas. Por isto, vi-me nomeado Provincial ainda muito jovem. Tinha 36 anos: uma loucura. Era preciso enfrentar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e eu tomava as decis\u00f5es de modo brusco e individualista. Sim, devo acrescentar, no entanto, uma coisa: quando entrego uma coisa a uma pessoa, confio totalmente nessa pessoa. Ter\u00e1 que cometer um erro verdadeiramente grande para que eu a repreenda. Mas, apesar disto, as pessoas acabam por se cansar do autoritarismo. O meu modo autorit\u00e1rio e r\u00e1pido de tomar decis\u00f5es levou-me a ter s\u00e9rios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em C\u00f3rdova. Claro, n\u00e3o, n\u00e3o sou certamente como a Beata Imelda, mas nunca fui de direita. Foi o meu modo autorit\u00e1rio de tomar decis\u00f5es que criou problemas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Digo estas coisas como uma experi\u00eancia de vida e para ajudar a compreender quais s\u00e3o os perigos. Com o tempo aprendi muitas coisas. O Senhor permitiu esta pedagogia de governo, mesmo atrav\u00e9s dos meus defeitos e dos meus pecados. Assim, como arcebispo de Buenos Aires, fazia cada quinze dias uma reuni\u00e3o com os seis bispos auxiliares e v\u00e1rias vezes por ano com o Conselho Presbiteral. Colocavam-se perguntas e abria-se espa\u00e7o para a discuss\u00e3o. Isto ajudou-me muito a tomar as melhores decis\u00f5es. E agora oi\u00e7o algumas pessoas que me dizem: \u201cN\u00e3o consulte demasiado e decida\u201d. Acredito, no entanto, que a consulta \u00e9 muito importante. Os Consist\u00f3rios e os S\u00ednodos s\u00e3o, por<br \/>\nexemplo, lugares importantes para tornar verdadeira e ativa esta consulta. \u00c9 necess\u00e1rio torn\u00e1-los, no entanto, menos r\u00edgidos na forma. Quero consultas reais, n\u00e3o formais. A consulta dos oito cardeais, este grupo outsider, n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o simplesmente minha, mas \u00e9 fruto da vontade dos cardeais, tal como foi expressa nas Congrega\u00e7\u00f5es Gerais antes do Conclave. E quero que seja uma consulta real, n\u00e3o formal&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Sentir com a Igreja&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mantenho-me no tema da Igreja e procuro compreender o que significa exatamente para o Papa Francisco o &#8220;sentir com a Igreja&#8221;, de que escreve Santo In\u00e1cio nos seus Exerc\u00edcios Espirituais. O Papa responde sem hesita\u00e7\u00e3o, partindo de uma imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A imagem da Igreja de que gosto \u00e9 a do povo santo e fiel de Deus. \u00c9 a defini\u00e7\u00e3o que uso mais vezes e \u00e9 a da Lumen Gentium, no n\u00famero 12. A perten\u00e7a a um povo tem um forte valor teol\u00f3gico: Deus na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o salvou um povo. N\u00e3o existe plena identidade sem perten\u00e7a a um povo. Ningu\u00e9m se salva sozinho, como indiv\u00edduo isolado, mas Deus atrai-nos considerando a complexa trama de rela\u00e7\u00f5es interpessoais quese realizam na comunidade humana. Deus entra nesta din\u00e2mica do povo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O povo \u00e9 sujeito. E a Igreja \u00e9 o povo de Deus a caminho na hist\u00f3ria, com alegrias e dores. Sentire cum Ecclesia \u00e9 para mim, pois, estar neste povo. E o conjunto dos fi\u00e9is \u00e9 infal\u00edvel no crer, e manifesta esta sua infallibilitas in credendo mediante o sentido sobrenatural da f\u00e9 de todo o povo que caminha. \u00c9 isto o que eu entendo hoje como o \u201csentir com a Igreja\u201d de que fala Santo In\u00e1cio. Quando o di\u00e1logo entre as pessoas e o bispo e o Papa segue este caminho e \u00e9 leal, ent\u00e3o \u00e9 assistido pelo Esp\u00edrito Santo. N\u00e3o \u00e9, portanto, um sentir ligado aos te\u00f3logos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 como com Maria: se se quiser saber quem \u00e9, pergunta-se aos te\u00f3logos; se se quiser saber como am\u00e1-la, \u00e9 necess\u00e1rio pergunt\u00e1-lo ao povo. Por sua vez, Maria amou Jesus com cora\u00e7\u00e3o de povo, como lemos no Magnificat. N\u00e3o \u00e9 preciso sequer pensar que a compreens\u00e3o do sentir com a Igreja esteja ligada somente ao sentir com a sua parte hier\u00e1rquica&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o Papa, depois de um momento de pausa, para evitar mal-entendidos, secamente precisa: &#8220;E, obviamente, \u00e9 necess\u00e1rio estar bem atentos a n\u00e3o pensar que esta infallibilitas de todos os fi\u00e9is de que estou a falar \u00e0 luz do Conc\u00edlio seja uma forma de populismo. N\u00e3o: \u00e9 a experi\u00eancia da \u201cSanta Madre Igreja hier\u00e1rquica\u201d, como lhe chamava Santo In\u00e1cio, da Igreja como povo de Deus, pastores e povo em conjunto. A Igreja \u00e9 a totalidade do povo de Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vejo a santidade no povo de Deus, a sua santidade quotidiana. Existe uma \u201cclasse m\u00e9dia da santidade\u201d da qual todos podemos fazer parte, aquela de que fala Mal\u00e8gue&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa est\u00e1 a referir-se a Joseph Mal\u00e8gue, um escritor franc\u00eas que lhe \u00e9 querido, nascido em 1876 e falecido em 1940. Em particular, \u00e0 sua trilogia incompletaPierres noires. Les Classes moyennes du Salut. Alguns cr\u00edticos franceses definiram-no como o &#8220;Proust cat\u00f3lico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vejo a santidade \u2014 continua o Papa \u2014 no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que trabalha para levar o p\u00e3o para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com tantas feridas mas com um sorriso por terem servido o Senhor, as Irm\u00e3s que trabalham tanto e que vivem uma santidade escondida. Esta \u00e9, para mim, a santidade comum. Associo frequentemente a santidade \u00e0 paci\u00eancia: n\u00e3o s\u00f3 a santidade como hypomon\u00e9, o encarregar-se dos acontecimentos e circunst\u00e2ncias da vida, mas tamb\u00e9m como const\u00e2ncia no seguir em frente dia ap\u00f3s dia. Esta \u00e9 a santidade da Igreja militante de que fala tamb\u00e9m Santo In\u00e1cio. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a santidade dos meus pais: do meu pai, da minha m\u00e3e, da minha av\u00f3 Rosa, que me fez tanto bem. No brevi\u00e1rio tenho o testamento da minha av\u00f3 Rosa e leio-o frequentemente: para mim \u00e9 como uma ora\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 uma santa que sofreu tanto, tamb\u00e9m moralmente, e seguiu sempre em frente com coragem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esta Igreja com a qual devemos \u201csentir\u201d \u00e9 a casa de todos, n\u00e3o uma pequena capela que s\u00f3 pode conter um grupinho de pessoas selecionadas. N\u00e3o devemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade. E a Igreja \u00e9 M\u00e3e \u2014 continua. A Igreja \u00e9 fecunda, deve s\u00ea-lo. Veja: quando me apercebo de comportamentos negativos de ministros da Igreja ou de consagrados ou consagradas, a primeira coisa que me vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9: &#8220;C\u00e1 est\u00e1 um solteir\u00e3o&#8221; ou &#8220;C\u00e1 est\u00e1 uma solteirona&#8221;. N\u00e3o s\u00e3o nem pais, nem m\u00e3es. N\u00e3o s\u00e3o capazes de gerar vida. Pelo contr\u00e1rio, quando leio, por exemplo, a vida dos mission\u00e1rios salesianos que foram para a Patag\u00f4nia, leio uma hist\u00f3ria de vida, de fecundidade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um outro exemplo destes dias: vi que foi muito referido nos jornais o telefonema que fiz a um rapaz que me tinha escrito uma carta. Telefonei-lhe, porque aquela carta era t\u00e3o bela, t\u00e3o simples. Para mim isto foi um ato de fecundidade. Apercebi-me que \u00e9 um jovem que est\u00e1 a crescer, sentiu em mim um pai, e assim eu disse-lhe alguma coisa sobre a sua vida. Um pai n\u00e3o pode dizer: \u201cN\u00e3o tenho nada que ver com isso\u201d. Esta fecundidade faz-me muito bem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Igrejas jovens e Igrejas antigas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Permane\u00e7o no tema da Igreja, colocando ao Papa uma pergunta, tamb\u00e9m \u00e0 luz da recente Jornada Mundial da Juventude: &#8220;Este grande evento acendeu ulteriormente os focos sobre os jovens, mas tamb\u00e9m sobre aqueles \u201cpulm\u00f5es espirituais\u201d que s\u00e3o as Igrejas de institui\u00e7\u00e3o mais recente. Quais as esperan\u00e7as para a Igreja universal que lhe parecem provir destas Igrejas?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As Igrejas jovens desenvolvem uma s\u00edntese de f\u00e9, cultura e vida em devir, e, portanto, diferente da desenvolvida pelas Igrejas mais antigas. Para mim, a rela\u00e7\u00e3o entre as Igrejas mais antigas e as mais recentes \u00e9 semelhante \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre jovens e velhos numa sociedade: constroem o futuro, mas uns com a sua for\u00e7a e os outros com a sua sabedoria. Correm-se sempre riscos, obviamente; as Igrejas mais jovens correm o risco de se sentirem autossuficientes, as mais antigas correm o risco de querer impor \u00e0s mais jovens os seus modelos culturais. Mas o futuro constr\u00f3i-se conjuntamente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Igreja? Um hospital de campanha\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Bento XVI, ao anunciar a sua ren\u00fancia ao Pontificado, retratou o mundo de hoje como sujeito a r\u00e1pidas mudan\u00e7as e agitado por quest\u00f5es de grande relev\u00e2ncia para a vida da f\u00e9, que requerem vigor, seja do corpo, seja da alma. Pergunto ao Papa, tamb\u00e9m \u00e0 luz daquilo que acabou<br \/>\nde me dizer: &#8220;De que \u00e9 que a Igreja tem maior necessidade neste momento hist\u00f3rico? S\u00e3o necess\u00e1rias reformas? Quais s\u00e3o os seus desejos para a Igreja dos pr\u00f3ximos anos? Que Igreja \u201csonha\u201d?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco, tomando o incipit da minha pergunta, come\u00e7a por dizer: &#8220;O Papa Bento teve um acto de santidade, de grandeza, de humildade. \u00c9 um homem de Deus&#8221;, demonstrando um grande afecto e uma enorme estima pelo seu predecessor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vejo com clareza \u2014 continua \u2014 que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje \u00e9 a capacidade de curar as feridas e de aquecer o cora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. \u00c9 in\u00fatil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o a\u00e7\u00facar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas\u2026 E \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar de baixo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, \u00e9 o primeiro an\u00fancio: \u201cJesus Cristo salvou-te\u201d. E os ministros da Igreja devem ser, acima de tudo, ministros de miseric\u00f3rdia. O confessor, por exemplo, corre sempre o risco de ser ou demasiado rigorista ou demasiado laxista. Nenhum dos dois \u00e9 misericordioso, porque nenhum dos dois toma verdadeiramente a seu cargo a pessoa. O rigorista lava as m\u00e3os porque remete-o para o mandamento. O laxista lava as m\u00e3os dizendo simplesmente \u201cisto n\u00e3o \u00e9 pecado\u201d ou coisas semelhantes. As pessoas t\u00eam de ser acompanhadas, as feridas t\u00eam de ser curadas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como estamos a tratar o povo de Deus? Sonho com uma Igreja M\u00e3e e Pastora. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu pr\u00f3ximo. Isto \u00e9 Evangelho puro. Deus \u00e9 maior que<br \/>\no pecado. As reformas organizativas e estruturais s\u00e3o secund\u00e1rias, isto \u00e9, v\u00eam depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o cora\u00e7\u00e3o das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer \u00e0s suas noites, na sua escurid\u00e3o, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e n\u00e3o funcion\u00e1rios ou cl\u00e9rigos de Estado. Os bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paci\u00eancia os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ningu\u00e9m fique para tr\u00e1s, mas tamb\u00e9m para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que \u00e9 capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem n\u00e3o a frequenta, de quem a abandonou ou lhe \u00e9 indiferente. Quem a abandonou f\u00ea-lo, por vezes, por raz\u00f5es que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas \u00e9 necess\u00e1rio aud\u00e1cia, coragem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reflicto naquilo que o Papa est\u00e1 a dizer e refiro o facto que existem crist\u00e3os que vivem em situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o regulares para a Igreja ou, de qualquer modo, em situa\u00e7\u00f5es complexas, crist\u00e3os que, de um modo ou de outro, vivem feridas abertas. Penso nos divorciados recasados, casais homossexuais, outras situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Como fazer uma pastoral mission\u00e1ria nestes casos? Em que insistir? O Papa faz sinal de ter compreendido o que pretendo dizer e responde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, tamb\u00e9m com a nossa prega\u00e7\u00e3o, todo o tipo de doen\u00e7a e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que s\u00e3o \u201cferidos sociais\u201d, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja n\u00e3o quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual \u00e9 de boa vontade e est\u00e1 \u00e0 procura de Deus, eu n\u00e3o sou ningu\u00e9m para julg\u00e1-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religi\u00e3o tem o direito de exprimir a pr\u00f3pria opini\u00e3o para servi\u00e7o das pessoas, mas Deus, na cria\u00e7\u00e3o, tornou-nos livres: a<br \/>\ninger\u00eancia espiritual na vida pessoal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Uma vez uma pessoa, de modo provocat\u00f3rio, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, ent\u00e3o, respondi-lhe com uma outra pergunta: \u201cDiz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua exist\u00eancia com afecto ou rejeita-a, condenando-a?\u201d \u00c9 necess\u00e1rio sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mist\u00e9rio do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e n\u00f3s devemos acompanh\u00e1-las a partir da sua condi\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso acompanhar com miseric\u00f3rdia. Quando isto acontece, o Esp\u00edrito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esta \u00e9 tamb\u00e9m a grandeza da confiss\u00e3o: o facto de avaliar caso a caso e de poder discernir qual \u00e9 a melhor coisa a fazer por uma pessoa que procura Deus e a sua gra\u00e7a. O confession\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 uma sala de tortura, mas lugar de miseric\u00f3rdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso tamb\u00e9m na situa\u00e7\u00e3o de uma mulher que carregou consigo um matrim\u00f3nio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora est\u00e1 serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e est\u00e1 sinceramente arrependida. Gostaria de avan\u00e7ar na vida crist\u00e3. O que faz o confessor?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o podemos insistir somente sobre quest\u00f5es ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos m\u00e9todos contraceptivos. Isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Eu n\u00e3o falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, \u00e9 necess\u00e1rio falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja \u00e9 conhecido e eu sou filho da Igreja, mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio falar disso continuamente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os ensinamentos, tanto dogm\u00e1ticos como morais, n\u00e3o s\u00e3o todos equivalentes. Uma pastoral mission\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 obcecada pela transmiss\u00e3o desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O an\u00fancio de car\u00e1cter mission\u00e1rio concentra-se no essencial, no necess\u00e1rio, que \u00e9 tamb\u00e9m aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o cora\u00e7\u00e3o, como aos disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Devemos, pois, encontrar um novo equil\u00edbrio; de outro modo, mesmo o edif\u00edcio moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evang\u00e9lica deve ser mais simples, profunda, irradiante. \u00c9 desta proposta que v\u00eam depois as consequ\u00eancias morais&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Digo isto tamb\u00e9m pensando na prega\u00e7\u00e3o e nos conte\u00fados da nossa prega\u00e7\u00e3o. Uma bela homilia, uma verdadeira homilia, deve come\u00e7ar com o primeiro an\u00fancio, com o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada de mais s\u00f3lido, profundo e seguro do que este an\u00fancio. Depois deve fazer-se uma catequese. Assim, pode tirar-se tamb\u00e9m uma consequ\u00eancia moral. Mas o an\u00fancio do amor salv\u00edfico de Deus precede a obriga\u00e7\u00e3o moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa. A<br \/>\nhomilia \u00e9 a pedra de compara\u00e7\u00e3o para calibrar a proximidade e a capacidade de encontro de um pastor com o seu povo, porque quem prega deve reconhecer o cora\u00e7\u00e3o da sua comunidade para procurar onde est\u00e1 vivo e ardente o desejo de Deus. A mensagem evang\u00e9lica n\u00e3o pode limitar-se, portanto, apenas a alguns dos seus aspectos, que, mesmo importantes, sozinhos n\u00e3o manifestam o cora\u00e7\u00e3o do ensinamento de Jesus.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O primeiro religioso Papa desde h\u00e1 182 anos\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco \u00e9 o primeiro Pont\u00edfice proveniente de uma Ordem Religiosa, depois do camaldolense Greg\u00f3rio XVI, eleito em 1831, h\u00e1 182 anos. Pergunto, pois: \u00abQual \u00e9 hoje na Igreja o lugar dos religiosos e religiosas?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os religiosos s\u00e3o profetas. S\u00e3o os que escolheram um seguimento de Jesus, que imitam a sua vida com a obedi\u00eancia ao Pai, a pobreza, a vida de comunidade e a castidade. Neste sentido, os votos n\u00e3o podem cair em caricaturas; de outro modo, por exemplo, a vida comunit\u00e1ria torna-se um inferno e a castidade um modo de viver como solteir\u00f5es. O voto de castidade deve ser um voto de fecundidade. Na Igreja, os religiosos s\u00e3o chamados em particular a ser profetas que testemunham<br \/>\ncomo Jesus viveu nesta terra e que anunciam como o Reino de Deus ser\u00e1 na sua perfei\u00e7\u00e3o. Um religioso nunca deve renunciar \u00e0 profecia. Isto n\u00e3o significa contrapor-se \u00e0 parte hier\u00e1rquica da Igreja, mesmo se a fun\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica e a estrutura hier\u00e1rquica n\u00e3o coincidem. Estou a falar de uma proposta sempre positiva, que, no entanto, n\u00e3o deve ser medrosa. Pensemos naquilo que fizeram tantos grandes santos monges, religiosos e religiosas, desde Santo Ant\u00e3o, abade. Ser profeta pode<br \/>\nsignificar, por vezes, fazer ru\u00eddo, n\u00e3o sei como dizer. A profecia faz ru\u00eddo, alarido, alguns chamam &#8220;chinfrim&#8221;. Mas, na realidade, o seu carisma \u00e9 o de ser fermento: a profecia anuncia o esp\u00edrito do<br \/>\nEvangelho&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dicast\u00e9rios romanos, sinodalidade, ecumenismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando a refer\u00eancia \u00e0 hierarquia, pergunto neste ponto ao Papa:<br \/>\n&#8220;O que pensa dos Dicast\u00e9rios romanos?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os dicast\u00e9rios romanos est\u00e3o ao servi\u00e7o do Papa e dos bispos: devem ajudar tanto as Igrejas particulares como as Confer\u00eancias Episcopais. S\u00e3o mecanismos de ajuda. Nalguns casos, quando n\u00e3o s\u00e3o bem entendidos, correm o risco, pelo contr\u00e1rio, de se tornarem organismos de censura.<br \/>\n\u00c9 impressionante ver as den\u00fancias de falta de ortodoxia que chegam a Roma. Creio que os casos devem ser estudados pelas Confer\u00eancias Episcopais locais, \u00e0s quais pode chegar uma v\u00e1lida ajuda de Roma. De fato, os casos tratam-se melhor no local. Os dicast\u00e9rios romanos s\u00e3o mediadores, nem intermedi\u00e1rios nem gestores&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo ao Papa que no passado dia 29 de Junho, durante a cerim\u00f3nia da b\u00ean\u00e7\u00e3o e da imposi\u00e7\u00e3o do p\u00e1lio a 34 bispos metropolitas, tinha afirmado &#8220;o caminho da sinodalidade\u00bb como o caminho que leva a Igreja unida a \u00abcrescer em harmonia com o servi\u00e7o do primado\u00bb. Eis ent\u00e3o a minha pergunta: \u00abComo conciliar em harmonia primado petrino e sinodalidade? Que caminhos s\u00e3o pratic\u00e1veis, tamb\u00e9m numa perspectiva ecum\u00e9nica?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Devemos caminhar juntos: as pessoas, os Bispos e o Papa. A sinodalidade vive-se a v\u00e1rios n\u00edveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do s\u00ednodo, porque a atual parece-me est\u00e1tica. Isto poder\u00e1 tamb\u00e9m ter valor ecum\u00e9nico, especialmente com os nossos irm\u00e3os ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradi\u00e7\u00e3o da sinodalidade. O esfor\u00e7o de reflex\u00e3o comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros s\u00e9culos, antes da ruptura entre Oriente e Ocidente, dar\u00e1 frutos a seu tempo. Nas rela\u00e7\u00f5es ecum\u00eanicas isto \u00e9 importante: n\u00e3o s\u00f3 conhecer-se melhor, mas tamb\u00e9m reconhecer o que o Esp\u00edrito semeou nos<br \/>\noutros como um dom tamb\u00e9m para n\u00f3s. Quero prosseguir a reflex\u00e3o sobre como exercitar o primado petrino, j\u00e1 iniciada em 2007 pela Comiss\u00e3o Mista, e que levou \u00e0 assinatura do documento de Ravena. \u00c9 preciso continuar neste caminho&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procuro compreender como o Papa v\u00ea o futuro da unidade da Igreja. Responde-me: &#8220;Devemos caminhar unidos nas diferen\u00e7as: n\u00e3o h\u00e1 outro caminho para nos unirmos. Este \u00e9 o caminho de Jesus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o papel da mulher na Igreja? O Papa referiu-se a este tema em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Numa entrevista tinha afirmado que a presen\u00e7a feminina na Igreja n\u00e3o emergiu mais, porque a tenta\u00e7\u00e3o do machismo n\u00e3o deixou espa\u00e7o para tornar vis\u00edvel o papel que compete \u00e0s mulheres na comunidade. Retomou a quest\u00e3o durante a viagem de regresso do Rio de Janeiro, afirmando que ainda n\u00e3o foi feita uma teologia profunda da mulher. Ent\u00e3o, pergunto: &#8220;Qual deve ser o papel da mulher na Igreja? Como fazer para torn\u00e1-lo hoje mais vis\u00edvel?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 necess\u00e1rio ampliar os espa\u00e7os de uma presen\u00e7a feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solu\u00e7\u00e3o do \u201cmachismo de saias\u201d, porque, na verdade, a mulher tem uma estrutura diferente do homem. E, pelo contr\u00e1rio, os argumentos que ou\u00e7o sobre o papel da mulher s\u00e3o muitas vezes inspirados precisamente numa ideologia machista. As mulheres t\u00eam vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja n\u00e3o pode ser ela pr\u00f3pria sem a mulher e o seu papel. A mulher, para<br \/>\nIgreja, \u00e9 imprescind\u00edvel. Maria, uma mulher, \u00e9 mais importante que os bispos. Digo isto, porque n\u00e3o se deve confundir a fun\u00e7\u00e3o com a dignidade. \u00c9 necess\u00e1rio, pois, aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja. \u00c9 preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. S\u00f3 realizando esta etapa se poder\u00e1 refletir melhor sobre a fun\u00e7\u00e3o da mulher no interior da Igreja. O g\u00e9nio feminino \u00e9 necess\u00e1rio nos lugares em que se tomam as decis\u00f5es importantes. O desafio hoje \u00e9<br \/>\nexactamente esse: reflectir sobre o lugar espec\u00edfico da mulher, precisamente tamb\u00e9m onde se exerce a autoridade nos v\u00e1rios \u00e2mbitos da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Conc\u00edlio Vaticano II<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que \u00e9 que realizou o Conc\u00edlio Vaticano II? Que \u00e9 que foi?&#8221;, pergunto-lhe \u00e0 luz das suas afirma\u00e7\u00f5es precedentes, imaginando uma resposta longa e articulada. Tenho, pelo contr\u00e1rio, como que a<br \/>\nimpress\u00e3o de que o Papa simplesmente considera o Conc\u00edlio como um fato de tal modo indiscut\u00edvel que para sublinhar a sua import\u00e2ncia n\u00e3o vale a pena falar disso demasiado tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho \u00e0 luz da cultura contempor\u00e2nea. Produziu um movimento de renova\u00e7\u00e3o que vem simplesmente do pr\u00f3prio Evangelho. Os frutos s\u00e3o enormes. Basta recordar a liturgia. O trabalho da reforma lit\u00fargica foi um servi\u00e7o ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica concreta. Sim, existem linhas de hermen\u00eautica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa \u00e9 clara: a din\u00e2mica de leitura do Evangelho no hoje, que \u00e9 pr\u00f3pria do Conc\u00edlio, \u00e9 absolutamente irrevers\u00edvel. Depois existem quest\u00f5es particulares, como a liturgia segundo o Vetus Ordo2 [O rito lit\u00fargico de S. Pio V, usado at\u00e9 ao<br \/>\nConc\u00edlio Vaticano II]. Penso que a escolha do Papa Bento XVI foi prudente, ligada \u00e0 ajuda a algumas pessoas que t\u00eam esta sensibilidade particular. Considero, no entanto, preocupante o risco de ideologiza\u00e7\u00e3o do Vetus Ordo, a sua instrumentaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Procurar e encontrar Deus em todas as coisas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso do Papa Francisco sobre os desafios de hoje \u00e9 muito desconcertante. H\u00e1 uns anos tinha escrito que para ver a realidade \u00e9 necess\u00e1rio o olhar da f\u00e9; de outra forma, v\u00ea-se uma realidade aos<br \/>\nbocados, fragmentada. \u00c9 este tamb\u00e9m um dos temas da Enc\u00edclica Lumen Fidei. Tenho em mente tamb\u00e9m algumas passagens dos discursos do Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro. Cito-lhos: \u00abDeus \u00e9 real se Se manifesta no hoje\u00bb; &#8220;Deus est\u00e1 em toda a<br \/>\nparte&#8221;. S\u00e3o frases que fazem eco da express\u00e3o inaciana &#8220;procurar e encontrar Deus em todas as coisas&#8221;. Pergunto ent\u00e3o ao Papa: &#8220;Santidade, como se faz para procurar e encontrar Deus em todas as coisas?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que eu disse no Rio tem um valor temporal. Existe, de facto, a tenta\u00e7\u00e3o de procurar Deus no passado ou no futuro. Deus est\u00e1, certamente, no passado porque est\u00e1 nas pegadas que deixou. E est\u00e1<br \/>\ntamb\u00e9m no futuro como promessa. Mas o Deus \u201cconcreto\u201d, digamos assim, \u00e9 hoje. Por isso, os queixumes nunca, nunca, nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje de como o mundo anda \u201cb\u00e1rbaro\u201d acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura<br \/>\nconserva\u00e7\u00e3o, defesa. N\u00e3o. Deus deve ser encontrado no hoje&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Deus manifesta-Se numa revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espa\u00e7o cristaliza-os. Deus encontra-Se no tempo, nos processos em curso. N\u00e3o \u00e9 preciso privilegiar os espa\u00e7os de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espa\u00e7os. Deus manifesta-Se no tempo e est\u00e1 presente nos processos da Hist\u00f3ria. Isto faz privilegiar as a\u00e7\u00f5es que geram din\u00e2micas novas. E exige paci\u00eancia, espera&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Encontrar Deus em todas as coisas n\u00e3o \u00e9 um eureka emp\u00edrico. No fundo, quando desejamos encontrar Deus, querer\u00edamos constat\u00e1-l\u2019O de imediato com um m\u00e9todo emp\u00edrico. Assim n\u00e3o se encontra Deus. Ele encontra-Se na brisa ligeira sentida por Elias. Os sentidos que constatam Deus s\u00e3o os que Santo In\u00e1cio designa por \u201csentidos espirituais\u201d. In\u00e1cio pede para abrir a sensibilidade espiritual para encontrar Deus para al\u00e9m de uma abordagem puramente emp\u00edrica. \u00c9 necess\u00e1ria uma atitude contemplativa: \u00e9 o sentir que se vai pelo bom caminho da compreens\u00e3o e do afecto no<br \/>\nque diz respeito \u00e0s coisas e \u00e0s situa\u00e7\u00f5es. O sinal de que se est\u00e1 neste bom caminho \u00e9 o sinal da paz profunda, da consola\u00e7\u00e3o espiritual, do amor de Deus e de todas as coisas em Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Certezas e erros<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o encontro com Deus em todas as coisas n\u00e3o \u00e9 um \u00abeureka emp\u00edrico\u00bb \u2014 digo ao Papa \u2014 e se, portanto, se trata de um caminho que l\u00ea a hist\u00f3ria, podem cometer-se erros\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sim, neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem que ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e n\u00e3o aflora uma margem de incerteza, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 bem. Para mim, esta \u00e9 uma chave importante. Se algu\u00e9m tem a resposta a todas as perguntas, esta \u00e9 a prova de que Deus n\u00e3o est\u00e1 com ela. Quer dizer que \u00e9 um falso profeta, que usa a religi\u00e3o para si pr\u00f3prio. Os grandes guias do povo de Deus, como Mois\u00e9s, sempre<br \/>\ndeixaram espa\u00e7o para a d\u00favida. Devemos deixar espa\u00e7o ao Senhor, n\u00e3o \u00e0s nossas certezas. \u00c9 necess\u00e1rio ser humilde. A incerteza existe em cada discernimento verdadeiro que se abre \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o da consola\u00e7\u00e3o espiritual&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas \u00e9, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrog\u00e2ncia: \u201cDeus est\u00e1 aqui\u201d. Encontraremos somente um deus \u00e0 nossa medida. A atitude correta \u00e9 a agostiniana: procurar a Deus para O encontrar e encontr\u00e1-l\u2019O para O procurar sempre. E muitas vezes procura-se por tentativas, como se l\u00ea na B\u00edblia. \u00c9 esta a experi\u00eancia dos grandes Pais da F\u00e9, que s\u00e3o o nosso modelo. \u00c9 necess\u00e1rio reler o cap\u00edtulo 11 da Carta aos Hebreus. Abra\u00e3o partiu sem saber para onde ia, pela f\u00e9. Todos os nossos antepassados da f\u00e9 morreram vendo os bens prometidos, mas longe\u2026 A nossa vida n\u00e3o nos \u00e9 dada como um libreto de \u00f3pera onde est\u00e1 tudo escrito, mas \u00e9 ir, caminhar, fazer, procurar, ver\u2026 Deve-se entrar na aventura da procura do encontro e do deixar-se procurar e deixar-se encontrar por Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Porque Deus est\u00e1 antes, Deus est\u00e1 sempre antes, Deus antecede. Deus \u00e9 um pouco como a flor da amendoeira da tua Sic\u00edlia, Ant\u00f3nio, que floresce sempre antes (O Padre Ant\u00f3nio Spadaro, autor desta entrevista \u00e9 um jesu\u00edta italiano, nascido na Sic\u00edlia.] . Lemo-lo nos profetas. Portanto, encontra-se Deus caminhando, no caminho. E neste ponto algu\u00e9m poderia dizer que isto \u00e9 relativismo. \u00c9 relativismo? Sim, se \u00e9 mal interpretado, como esp\u00e9cie de pante\u00edsmo indistinto. N\u00e3o, se \u00e9 interpretado em sentido b\u00edblico, onde Deus \u00e9 sempre uma surpresa e, portanto, n\u00e3o sabes nunca onde e como O encontras, n\u00e3o \u00e9s tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento \u00e9 fundamental&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se o crist\u00e3o \u00e9 restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, ent\u00e3o n\u00e3o encontra nada. A tradi\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espa\u00e7os para Deus. Quem hoje procura sempre solu\u00e7\u00f5es disciplinares, quem tende de modo exagerado \u00e0 \u201cseguran\u00e7a\u201d doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma vis\u00e3o est\u00e1tica e involutiva. E deste modo a f\u00e9 torna-se uma ideologia entre tantas. Tenho uma certeza<br \/>\ndogm\u00e1tica: Deus est\u00e1 na vida de cada pessoa. Deus est\u00e1 na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destru\u00edda pelos v\u00edcios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus est\u00e1 na sua vida. Pode-se e deve-se procurar na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa \u00e9 um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, h\u00e1 sempre um espa\u00e7o onde a semente boa pode crescer. \u00c9 preciso confiar em Deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Devemos ser optimistas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas palavras do Papa recordam-me algumas reflex\u00f5es suas do passado, nas quais o ent\u00e3o cardeal Bergoglio escreveu que Deus vive j\u00e1 na cidade, vitalmente misturado no meio de todos e unido a cada um. \u00c9 um outro modo, na minha opini\u00e3o, para dizer o que Santo In\u00e1cio escreve nos Exerc\u00edcios Espirituais, ou seja, que Deus \u00abtrabalha e opera\u00bb no nosso mundo. Pergunto-lhe ent\u00e3o: &#8220;Devemos ser optimistas? Quais s\u00e3o os sinais de esperan\u00e7a no mundo de hoje? Como conseguir ser optimista num mundo em crise?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o gosto de usar a palavra \u201coptimismo\u201d, porque indica uma atitude psicol\u00f3gica. Gosto, pelo contr\u00e1rio, de usar a palavra \u201cesperan\u00e7a\u201d, segundo aquilo que se l\u00ea no cap\u00edtulo 11 da Carta aos Hebreus, como j\u00e1 citei. Os Pais continuaram a caminhar, atravessando grandes dificuldades. E a esperan\u00e7a n\u00e3o engana, como lemos na Carta aos Romanos. Pensa, pelo contr\u00e1rio, no primeiro enigma da \u00f3pera Turandot, de Puccini&#8221;, pede-me o Papa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento recordei, um pouco de mem\u00f3ria, os versos daquele enigma da princesa que tem como resposta a esperan\u00e7a: Na noite escura voa um fantasma \/ Iluminado. \/ Sobe e abre as asas \/ Sobre a negra infinita humanidade. \/ Todo o mundo o invoca \/ E todo mundo o implora. \/ Mas o fantasma desaparece com a Aurora para renascer no \/ cora\u00e7\u00e3o. \/ E cada noite nasce e cada dia morre! Versos que revelam o desejo de uma esperan\u00e7a que aqui, no entanto, \u00e9 um fantasma cintilante e que desaparece com a aurora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aqui est\u00e1 \u2014 continua o Papa \u2014, a esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um fantasma e n\u00e3o engana. \u00c9 uma virtude teologal e, portanto, definitivamente, um presente de Deus que n\u00e3o se pode reduzir ao optimismo, que \u00e9 apenas humano. Deus n\u00e3o defrauda a esperan\u00e7a, n\u00e3o pode negar-Se a Si mesmo. Deus \u00e9 todo promessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A arte e a criatividade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico impressionado pela cita\u00e7\u00e3o de Turandot para falar do mist\u00e9rio da esperan\u00e7a. Gostaria de compreender melhor quais s\u00e3o as suas refer\u00eancias art\u00edsticas e liter\u00e1rias. Recordo-lhe que em 2006 tinha dito que os grandes artistas sabem apresentar com beleza as realidades tr\u00e1gicas e dolorosas da vida. Pergunto ent\u00e3o quais s\u00e3o os artistas e escritores que prefere; se eles t\u00eam algo em comum\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Gostei muito de autores diferentes entre si. Gosto muit\u00edssimo de Dostoi\u00e9vski e H\u00f6lderlin. De H\u00f6lderlin quero recordar aquela poesia para o anivers\u00e1rio da sua av\u00f3, que \u00e9 de grande beleza e que me fez tanto bem espiritual. \u00c9 aquela que termina com o verso \u201cQue o homem mantenha o que o rapaz prometeu\u201d. Impressionou-me tamb\u00e9m porque amava muito a minha av\u00f3 Rosa, e ali H\u00f6lderlin compara a sua av\u00f3 a Maria que gerou Jesus, que para ele \u00e9 o amigo da terra que n\u00e3o considerou<br \/>\nningu\u00e9m estrangeiro. Li I Promessi Sposi tr\u00eas vezes e tenho-o agora sobre a mesa para reler. Manzoni deu-me muito. A minha av\u00f3, quando eu era crian\u00e7a, ensinou-me de cor o in\u00edcio dos Promessi Sposi: \u201cQuel ramo del lago di Como, che volge a mezzogiorno, tra due catene non<br \/>\ninterrotte di monti\u2026\u201d(Dos dois bra\u00e7os que formam o lago de Como, um deles dirige-se para o sul, entre duas cadeias ininterruptas de montanhas\u2026) Tamb\u00e9m gostei muito de Gerard Manley Hopkins&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na pintura admiro Caravaggio: as suas telas falam-me. Mas tamb\u00e9m Chagall, com a sua Crucifix\u00e3o Branca\u2026&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na m\u00fasica gosto muito de Mozart, obviamente. Aquele Et Incarnatus est da sua Missa em D\u00f3 \u00e9 insuper\u00e1vel: leva-te a Deus! Gosto muito de Mozart executado por Clara Haskil. Mozart preenche-me: n\u00e3o posso pens\u00e1-lo, devo ouvi-lo. Gosto de ouvir Beethoven, mas prometeicamente.<br \/>\nE o int\u00e9rprete mais prometeico para mim \u00e9 Furtw\u00e4ngler. E depois as Paix\u00f5es de Bach. O trecho de Bach de que gosto muito \u00e9 o Erbarme Dich, o pranto de Pedro da Paix\u00e3o segundo S\u00e3o Mateus. Sublime. Depois, num outro n\u00edvel, n\u00e3o t\u00e3o \u00edntimo, gosto de Wagner. Gosto de ouvi-lo, mas<br \/>\nn\u00e3o sempre. A Tetralogia do Anel executada por Furtw\u00e4ngler no Scala nos anos 50 \u00e9, para mim, a melhor. Mas tamb\u00e9m o Parsifal executado em 1962 por Knappertsbusch\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Dever\u00edamos tamb\u00e9m falar do cinema. La strada de Fellini \u00e9 talvez o filme de que mais gostei. Identifico-me com aquele filme, no qual est\u00e1 impl\u00edcita uma refer\u00eancia a S\u00e3o Francisco. Depois, creio ter visto todos os filmes com Anna Magnani e Aldo Fabrizi quando eu tinha entre 10 e 12 anos. Um outro filme de que muito gostei \u00e9Roma citt\u00e0 aperta. Devo a minha cultura cinematogr\u00e1fica sobretudo aos meus pais, que nos levavam frequentemente ao cinema&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em todo o caso, em geral gosto muito dos artistas tr\u00e1gicos, especialmente os mais cl\u00e1ssicos. H\u00e1 uma bela defini\u00e7\u00e3o que Cervantes coloca na boca do bacharel Carrasco para fazer o elogio da hist\u00f3ria de Dom Quixote: \u201cOs rapazes t\u00eam-na entre as m\u00e3os, os jovens l\u00eaem-na, os adultos entendem-na, os velhos elogiam-na\u201d. Esta, para mim, pode ser uma boa defini\u00e7\u00e3o para os cl\u00e1ssicos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apercebo-me de estar absorvido por estas suas refer\u00eancias e de ter o desejo de entrar na sua vida, pela porta das suas escolhas art\u00edsticas. Seria um percurso a fazer, imagino que longo. E incluiria tamb\u00e9m o cinema, do neo-realismo italiano at\u00e9 a A Festa de Babette. V\u00eam-me \u00e0mente outros autores e outras obras que ele citou noutras ocasi\u00f5es, mesmo menores ou menos conhecidas ou locais: de Mart\u00edn Fierro de Jos\u00e9m Hern\u00e1ndez \u00e0 poesia de Nino Costa, a Il grande esodo de Luigi Orsenigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas penso tamb\u00e9m em Joseph Mal\u00e8gue e Jos\u00e9 Mar\u00eda Pem\u00e1n. E, obviamente, em Dante e Borges, mas tamb\u00e9m em Leopoldo Marechal, o autor de Ad\u00e1n Buenosayres, El banquete de Severo Arc\u00e1ngelo e Megaf\u00f3n o la guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso em particular precisamente em Jorge Luis Borges, porque Bergoglio, quando tinha 28 anos e era professor de Literatura em Santa F\u00e9 no Colegio de la Inmaculada Concepci\u00f3n, conheceu-o directamente. Bergoglio ensinava os \u00faltimos dois anos do Liceu e encaminhou os seus rapazes para a escrita criativa. Tamb\u00e9m eu tive uma experi\u00eancia parecida \u00e0 sua, quando tinha a mesma idade, no Istituto Massimo de Roma, fundando BombaCarta, e conto-lha. No final, pe\u00e7o ao Papa para me contar a sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi uma coisa um pouco arriscada \u2014 responde. Devia fazer de tal modo que os meus alunos estudassem El Cid. Mas os rapazes n\u00e3o gostavam. Pediam-me para ler Garc\u00eda Lorca. Ent\u00e3o decidi que deveriam estudar El Cid em casa e durante as li\u00e7\u00f5es eu trataria os autores de que os rapazes mais gostavam. Obviamente, os jovens queriam ler as obras liter\u00e1rias mais \u201cpicantes\u201d, contempor\u00e2neas como La casada infiel ou cl\u00e1ssicas como La Celestina de Fernando de Rojas. Mas, ao ler estas<br \/>\ncoisas que os atra\u00edam naquele momento, ganhavam mais gosto em geral pela literatura, pela poesia e passavam a outros autores. Para mim, esta foi uma grande experi\u00eancia. Cumpri o programa, mas de modo desestruturado, isto \u00e9, n\u00e3o ordenado segundo aquilo que estava previsto, mas segundo uma ordem que resultava natural na leitura dos autores. E esta modalidade tinha muito que ver comigo: n\u00e3o gostava de fazer uma programa\u00e7\u00e3o r\u00edgida, mas eventualmente saber mais ou menos<br \/>\nonde chegar. Ent\u00e3o comecei tamb\u00e9m a faz\u00ea-los escrever. No final decidi dar a ler a Borges dois contos escritos pelos meus rapazes. Conhecia a sua secret\u00e1ria, que tinha sido a minha professora de piano. Borges gostou muit\u00edssimo e ent\u00e3o ele prop\u00f4s escrever a introdu\u00e7\u00e3o de uma colect\u00e2nea&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Ent\u00e3o, Santo Padre, para a vida de uma pessoa a criatividade \u00e9 importante?\u00bb, pergunto-lhe. Ele ri e responde: &#8220;Para um jesu\u00edta \u00e9 extremamente importante! Um jesu\u00edta deve ser criativo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fronteiras e laborat\u00f3rios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criatividade, portanto: para um jesu\u00edta \u00e9 importante. O Papa Francisco, ao receber os Padres e colaboradores de La Civilt\u00e0 Cattolica, tinha tra\u00e7ado uma tr\u00edade de outras caracter\u00edsticas importantes para o trabalho cultural dos jesu\u00edtas. Regresso \u00e0 mem\u00f3ria desse dia, o passado 14 de Junho. Recordo que ent\u00e3o, no col\u00f3quio pr\u00e9vio ao encontro com todo o nosso grupo, me tinha pr\u00e9-anunciado a tr\u00edade: di\u00e1logo, discernimento, fronteira. E tinha insistido particularmente no \u00faltimo ponto, citando-me Paulo VI, que num famoso discurso tinha dito dos jesu\u00edtas: &#8220;Onde quer que, na Igreja, tamb\u00e9m nos campos mais dif\u00edceis e de vanguarda, nas encruzilhadas das<br \/>\nideologias e nas trincheiras sociais, tenha havido e haja o confronto entre as exig\u00eancias ardentes do homem e a mensagem perene do Evangelho, l\u00e1 estiveram e est\u00e3o presentes os jesu\u00edtas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pe\u00e7o ao Papa Francisco algum esclarecimento: &#8220;Pediu-nos para estarmos atentos, para n\u00e3o cair na \u201ctenta\u00e7\u00e3o de domesticar as fronteiras: deve ir-se em direc\u00e7\u00e3o \u00e0s fronteiras, e n\u00e3o trazer as fronteiras para casa a fim de enverniz\u00e1-las um pouco e domestic\u00e1-las\u201d. A que \u00e9 que se referia? O que \u00e9 que pretendia dizer-nos exactamente? Esta entrevista foi acordada num grupo de revistas dirigidas pela Companhia de Jesus: que convite deseja exprimir-lhes? Quais devem ser as suas prioridades?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As tr\u00eas palavras-chave que dirigi a La Civilt\u00e0 Cattolica podem ser extensivas a todas as revistas da Companhia, qui\u00e7\u00e1 com diferentes acentua\u00e7\u00f5es segundo a sua natureza e os seus objectivos. Quando<br \/>\ninsisto na fronteira, de modo particular, refiro-me \u00e0 necessidade para o homem da cultura de estar inserido no contexto em que opera e sobre o qual reflete. Est\u00e1 sempre \u00e0 espreita o perigo de viver num laborat\u00f3rio. A nossa f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e9-laborat\u00f3rio, mas uma f\u00e9-caminho, uma f\u00e9 hist\u00f3rica. Deus revelou-Se como hist\u00f3ria, n\u00e3o como um comp\u00eandio de verdades abstractas. Tenho medo dos laborat\u00f3rios, porque no laborat\u00f3rio pegam-se nos problemas e levam-se para a pr\u00f3pria casa,<br \/>\npara domestic\u00e1-los, para os envernizar, fora do seu contexto. N\u00e3o \u00e9 preciso levar a fronteira para casa, mas viver na fronteira e ser audazes&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pe\u00e7o ao Papa se pode dar algum exemplo baseado na sua experi\u00eancia pessoal.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando se fala de problemas sociais, uma coisa \u00e9 reunir-se para estudar o problema da droga num bairro-de-lata, e uma outra coisa \u00e9 ir l\u00e1, morar e compreender o problema a partir de dentro e estud\u00e1-lo. H\u00e1 uma carta genial do P. Arrupe aos Centros de Investigaci\u00f3n y Acci\u00f3n Social (CIAS) sobre a pobreza, na qual se diz claramente que n\u00e3o se pode falar de pobreza se n\u00e3o se experimenta com inser\u00e7\u00e3o direta nos lugares nos quais ela se vive. Esta palavra \u201cinser\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 perigosa,<br \/>\nporque alguns religiosos a tomaram como uma moda, e aconteceram desastres por falta de discernimento. Mas \u00e9 verdadeiramente importante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E as fronteiras s\u00e3o tantas. Pensemos nas religiosas que vivem nos hospitais: elas vivem nas fronteiras. Eu estou vivo gra\u00e7as a uma delas. Quando tive o problema no pulm\u00e3o no hospital, o m\u00e9dico deu-me penicilina e estrectomicina em certas doses. A Irm\u00e3 que estava de servi\u00e7o triplicou as doses, porque tinha intui\u00e7\u00e3o, sabia o que fazer, porque estava com os doentes todo o dia. O m\u00e9dico, que era verdadeiramente bom, vivia no seu laborat\u00f3rio, a Irm\u00e3 vivia na fronteira e dialogava com a fronteira todos os dias. Domesticar a fronteira significa limitar-se a falar de uma posi\u00e7\u00e3o distante, fechar-se nos laborat\u00f3rios. S\u00e3o coisas \u00fateis, mas a reflex\u00e3o para n\u00f3s deve sempre partir da experi\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o homem se compreende a si mesmo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunto ent\u00e3o ao Papa se isto \u00e9 v\u00e1lido e de que modo, mesmo para uma fronteira cultural importante, como \u00e9 a do desafio antropol\u00f3gico. A antropologia a que a Igreja tradicionalmente tem feito refer\u00eancia e a linguagem com a qual a expressou mant\u00eam-se como uma refer\u00eancia s\u00f3lida,<br \/>\nfruto da sabedoria e da experi\u00eancia seculares. Todavia, o homem a que a Igreja se dirige j\u00e1 n\u00e3o parece compreend\u00ea-las ou consider\u00e1-las suficientes. Come\u00e7o a pensar no facto de que o homem est\u00e1 a interpretar-se num modo diferente do passado, com categorias diferentes. E isto tamb\u00e9m por causa das grandes mudan\u00e7as na sociedade e de um mais amplo estudo de si pr\u00f3prio\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa neste momento levanta-se e vai buscar o brevi\u00e1rio \u00e0 sua escrivaninha. \u00c9 um brevi\u00e1rio em Latim, j\u00e1 muito gasto pelo uso. Abre-o no Of\u00edcio de Leitura da Feria sexta, isto \u00e9, sexta-feira da XXVII semana. L\u00ea-me uma passagem tirada do Commonit\u00f3rium Primum de S\u00e3o Vicente de L\u00e9rins: ita \u00e9tiam christi\u00e1nae religi\u00f3nis dogma sequ\u00e1tur has decet prof\u00e9ctuum leges, ut annis sc\u00edlicet consolid\u00e9tur, dilat\u00e9tur t\u00e9mpore, sublim\u00e9tur aet\u00e1te (\u201cMesmo o dogma da religi\u00e3o crist\u00e3 deve<br \/>\nseguir estas leis de aperfei\u00e7oamento. Progride, consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo, aprofundando-se com a idade\u201d)\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim continua o Papa: S\u00e3o Vicente de L\u00e9rins faz a compara\u00e7\u00e3o entre o desenvolvimento biol\u00f3gico do homem e a transmiss\u00e3o de uma \u00e9poca \u00e0 outra do depositum fidei, que cresce e se consolida com o passar do tempo. C\u00e1 est\u00e1: a compreens\u00e3o do homem muda com o tempo e assim tamb\u00e9m<br \/>\na consci\u00eancia do homem aprofunda-se. Pensemos no tempo em que a escravatura era aceite ou a pena de morte era admitida sem nenhum problema. Assim, cresce-se na compreens\u00e3o da verdade. Os exegetas e os te\u00f3logos ajudam a Igreja a amadurecer o pr\u00f3prio ju\u00edzo. Tamb\u00e9m as<br \/>\noutras ci\u00eancias e a sua evolu\u00e7\u00e3o ajudam a Igreja neste crescimento na compreens\u00e3o. Existem normas e preceitos eclesiais secund\u00e1rios que noutros tempos eram eficazes, mas que agora perderam valor ou significado. Uma vis\u00e3o da doutrina da Igreja como um bloco monol\u00edtico<br \/>\na defender sem matizes \u00e9 errada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;De resto, em cada \u00e9poca o homem procura compreender e exprimir melhor a sua pr\u00f3pria realidade. E assim o homem, com o tempo, muda o modo de se perceber a si mesmo: uma coisa \u00e9 o homem que se exprime esculpindo a Nike (Vit\u00f3ria) de Samotr\u00e1cia, outra a de Caravaggio, outra a de<br \/>\nChagall e ainda outra a de Dal\u00ed. Tamb\u00e9m as formas de express\u00e3o da verdade podem ser multiformes e isto \u00e9 necess\u00e1rio para a transmiss\u00e3o da mensagem evang\u00e9lica no seu significado imut\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O homem est\u00e1 \u00e0 procura de si mesmo, e, obviamente, nesta procura pode tamb\u00e9m cometer erros. A Igreja viveu tempos de genialidade, como, por exemplo, o do tomismo. Mas viveu tamb\u00e9m tempos de decad\u00eancia de pensamento. Por exemplo, n\u00e3o podemos confundir a genialidade do tomismo com o tomismo decadente. Eu, infelizmente, estudei a filosofia com manuais de tomismo decadente. No pensar o homem, portanto, a Igreja deveria tender \u00e0 genialidade, n\u00e3o \u00e0 decad\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando \u00e9 que uma express\u00e3o do pensamento n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida? Quando o pensamento perde de vista o humano ou at\u00e9 quando tem medo do humano ou se deixa enganar sobre si mesmo. \u00c9 o pensamento enganado que pode ser representado como Ulisses diante do canto das sereias, ou como Tannh\u00e4user, rodeado numa orgia por s\u00e1tiros e bacantes, ou como Parsifal, no segundo acto da \u00f3pera wagneriana, no castelo de Klingsor. O pensamento da Igreja deve recuperar genialidade e entender sempre melhor como \u00e9 que o homem se compreende hoje, para desenvolver e aprofundar o pr\u00f3prio ensino&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rezar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloco ao Papa uma \u00faltima pergunta sobre o seu modo preferido de rezar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Rezo o Of\u00edcio todas as manh\u00e3s. Gosto de rezar com os Salmos. Depois, a seguir, celebro a Missa. Rezo o Ros\u00e1rio. O que verdadeiramente prefiro \u00e9 a Adora\u00e7\u00e3o vespertina, mesmo quando me distraio e penso noutra coisa ou mesmo quando adorme\u00e7o rezando. Assim, \u00e0 tarde, entre as sete e as oito, estou diante do Sant\u00edssimo durante uma hora, em adora\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m rezo mentalmente quando espero no dentista ou noutros momentos do dia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 para mim uma ora\u00e7\u00e3o \u201cmemoriosa\u201d, cheia de mem\u00f3ria, de recorda\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m mem\u00f3ria da minha hist\u00f3ria ou daquilo que o Senhor fez na sua Igreja ou numa par\u00f3quia particular. Para mim \u00e9 a mem\u00f3ria de que Santo In\u00e1cio fala na Primeira Semana dos Exerc\u00edcios, no encontro<br \/>\nmisericordioso com Cristo Crucificado. E pergunto-me: \u201cQue fiz por Cristo? Que fa\u00e7o por Cristo? Que farei por Cristo?\u201d \u00c9 a mem\u00f3ria de que fala In\u00e1cio tamb\u00e9m na Contemplatio ad amorem, quando pede para trazer \u00e0 mem\u00f3ria os benef\u00edcios recebidos. Mas, sobretudo, eu sei tamb\u00e9m que o Senhor tem mem\u00f3ria de mim. Eu posso esquecer-me d\u2019Ele, mas sei que Ele nunca, nunca, se esquece de mim. A mem\u00f3ria funda radicalmente o cora\u00e7\u00e3o de um jesu\u00edta: \u00e9 a mem\u00f3ria da gra\u00e7a, a mem\u00f3ria de que se fala no Deuteron\u00f3mio, a mem\u00f3ria das obras de Deus que est\u00e3o na base da alian\u00e7a entre Deus e o seu povo. \u00c9 esta mem\u00f3ria que me faz filho e me faz ser tamb\u00e9m pai&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dou-me conta que continuaria ainda por muito tempo este di\u00e1logo, mas sei que, como o Papa disse uma vez, n\u00e3o \u00e9 preciso &#8220;maltratar os limites&#8221;. Dialogamos amplamente por mais de seis horas, ao longo de tr\u00eas encontros, nos dias 19, 23 e 29 de Agosto. Aqui preferi articular o discurso sem assinalar os intervalos, para n\u00e3o perder o fio condutor. A nossa foi, na realidade, uma conversa, mais que uma entrevista: as perguntas fizeram de pano de fundo sem limit\u00e1-la em par\u00e2metros pr\u00e9-definidos e r\u00edgidos. Mesmo linguisticamente atravess\u00e1mos fluidamente o Italiano e o Espanhol sem que nos aperceb\u00eassemos de quando em vez das mudan\u00e7as. N\u00e3o houve nada de mec\u00e2nico e as respostas nasceram no interior de um pensamento que aqui procurei transmitir, de modo sint\u00e9tico, o melhor que puder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 poss\u00edvel dialogar? Por Padre Antonio Spadaro, SJ | Brot\u00e9ria &#8211; \u00c9 segunda-feira, 19 de agosto. O Papa Francisco marcou encontro para as 10h na Casa de Santa Marta. Eu, no entanto, herdei do meu pai a necessidade de chegar sempre mais cedo. As pessoas que me acolhem instalam-me numa pequena sala. A espera dura [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42126"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42126"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42126\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42226,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42126\/revisions\/42226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42126"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42126"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42126"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}