{"id":39725,"date":"2013-06-10T23:35:10","date_gmt":"2013-06-10T23:35:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=39725"},"modified":"2013-06-10T23:35:10","modified_gmt":"2013-06-10T23:35:10","slug":"confira-entrevista-do-pro-reitor-comunitario-a-revista-do-instituto-humanitas-unisinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/confira-entrevista-do-pro-reitor-comunitario-a-revista-do-instituto-humanitas-unisinos\/","title":{"rendered":"Confira entrevista do Pr\u00f3-reitor Comunit\u00e1rio \u00e0 revista do Instituto Humanitas Unisinos"},"content":{"rendered":"<h1>O nexo indissol\u00favel entre a quest\u00e3o ecol\u00f3gica e a justi\u00e7a social<\/h1>\n<h1>Causas da marginaliza\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pela marginaliza\u00e7\u00e3o ambiental, observa L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne. \u00c9 fundamental superar o pensamento fragmentado e, muitas vezes, dualista que norteia o agir contempor\u00e2neo<\/h1>\n<h2>Por: M\u00e1rcia Junges<\/h2>\n<p>CIRNE, L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro. <strong>O Espa\u00e7o da Coexist\u00eancia \u2013 Uma vis\u00e3o interdisciplinar de \u00e9tica socioambiental.<\/strong> Recife e S\u00e3o Paulo: Unicap e Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2013.<\/p>\n<p>S\u00e3o in\u00fameros os desafios que a humanidade tem pela frente no que tange ao espa\u00e7o da coexist\u00eancia. Al\u00e9m da necessidade de haver uma vis\u00e3o integrada entre ser humano e natureza, \u201c\u00e9 importante ressaltar que a raiz que leva \u00e0 sistem\u00e1tica depreda\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 a mesma que causa as injusti\u00e7as contra os seres humanos\u201d, pondera o Padre <strong>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne<\/strong> na entrevista que concedeu por e-mail \u00e0 IHU On-Line. A partir das reflex\u00f5es que tece em sua rec\u00e9m-lan\u00e7ada obra <strong>O Espa\u00e7o da Coexist\u00eancia \u2013 Uma vis\u00e3o interdisciplinar de \u00e9tica socioambiental<\/strong> (Recife e S\u00e3o Paulo: Unicap e Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2013), Pe. L\u00facio acentua que \u201ca preserva\u00e7\u00e3o do ambiente n\u00e3o acontecer\u00e1 se permanecerem as numerosas formas estruturais de pobreza que existem em todo o mundo. Sem justi\u00e7a social n\u00e3o haver\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o entre ser humano e natureza, pois h\u00e1 um v\u00ednculo estreito \u2013 uma inderdepend\u00eancia, para usar um termo mais ecol\u00f3gico \u2013 entre prote\u00e7\u00e3o da natureza e justi\u00e7a social, entre ecologia e economia\u201d.<\/p>\n<p><strong>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne<\/strong> \u00e9 graduado em Agronomia pela Universidade Federal da Para\u00edba \u2013 UFPB, em Filosofia pela Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia \u2013 FAJE, em Belo Horizonte, e em Teologia pela Graduate Theological Union, em Berkeley, na Calif\u00f3rnia. \u00c9 mestre e doutor em Teologia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro \u2013 PUC-Rio com a tese <strong>O Espa\u00e7o da Coexist\u00eancia. Estudo interdisciplinar de \u00e9tica ambiental<\/strong>. L\u00facio Fl\u00e1vio, padre jesu\u00edta, \u00e9 pr\u00f3-reitor comunit\u00e1rio da Unicap e professor de Teologia nesta institui\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de coordenador do Instituto Humanitas Unicap.<br \/>\n<strong><br \/>\nConfira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como podemos pensar em um espa\u00e7o de coexist\u00eancia a partir da tem\u00e1tica que aborda em sua obra rec\u00e9m-lan\u00e7ada?<\/p>\n<p>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne \u2013<\/strong> Em face \u00e0 complexidade das rela\u00e7\u00f5es entre sociedade e natureza, evidenciada mais intensamente pela profunda crise ambiental que hoje vivemos, faz-se necess\u00e1ria uma reflex\u00e3o \u00e9tica cujo horizonte seja demarcado por uma perspectiva relacional e integradora capaz de superar posicionamentos redutores e fragmentados. Ou seja, que afirmem o direito \u00e0 alteridade: o reconhecimento e aceita\u00e7\u00e3o do outro.<br \/>\nA vis\u00e3o dual\u00edstica entre o sujeito (raz\u00e3o humana) e objeto (a natureza), pr\u00f3pria da racionalidade instrumental moderna, n\u00e3o permitiu que as \u00e9ticas que emergiram nesse paradigma rigidamente antropoc\u00eantrico fizessem o reconhecimento da natureza em sua complexidade e concretude pr\u00f3pria. No lado oposto desse pensamento, como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 mentalidade antropoc\u00eantrica, tem surgido um vigoroso movimento ambientalista em cujo interior encontra-se uma corrente sustentada por princ\u00edpios \u00e9ticos que defendem uma harmoniza\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a natureza. S\u00e3o modelos de \u00e9tica ambiental centrados numa vis\u00e3o bioc\u00eantrica em que o indiv\u00edduo se dilui no horizonte de um todo igualit\u00e1rio, de modo que a diferencia\u00e7\u00e3o fica suprimida e tanto a natureza como o ser humano, paradoxalmente, n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como um outro.<\/p>\n<p><strong>Multiplicidade e coexist\u00eancia<br \/>\n<\/strong><br \/>\nOra, no mundo diferenciado e plural em que vivemos, faz-se necess\u00e1rio aprender a ser distintivamente o \u201ceu\u201d dentro de um quadro que inclua tamb\u00e9m o outro, sem domin\u00e2ncia, numa imagem de igualdade. \u00c9 o que defendemos na proposta de um discurso \u00e9tico que se configura como um espa\u00e7o da coexist\u00eancia. Em seu livro Espa\u00e7os de Esperan\u00e7a , D. Harvey coloca no centro do seu pensamento geogr\u00e1fico o princ\u00edpio da diferen\u00e7a que enfatiza que cada um tem a sua hist\u00f3ria, concretizada em espacialidades pr\u00f3prias. Nessa perspectiva, enquanto a desigualdade exclui outras presen\u00e7as, a diferen\u00e7a, resgata-as justamente porque necessita da multiplicidade e da coexist\u00eancia. De modo an\u00e1logo, colocamos no centro de nossa reflex\u00e3o \u00e9tica esse conceito de espa\u00e7o entendido como uma teia de rela\u00e7\u00f5es, espa\u00e7o da multiplicidade onde os indiv\u00edduos est\u00e3o interligados e ajustados pela complementaridade dial\u00e9tica do eu e do outro.<\/p>\n<p>\u00c9 a arena din\u00e2mica da vida que respeita a particularidade e a subjetividade de cada componente. O espa\u00e7o assim considerado permite superar as v\u00e1rias dicotomias (sujeito\/objeto, natureza\/ser humano, opressor\/oprimido) \u2013 rela\u00e7\u00e3o desigual na qual um dos polos fica esquecido ou dominado pelo outro \u2013 e d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para se pensar em uma exist\u00eancia relacional e harmoniosa. Sendo um espa\u00e7o, lugar de todos os outros, seja o outro da natureza ou os outros de nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie humana, ser\u00e1 mais f\u00e1cil compreender que cuidar do ambiente, o que implica tamb\u00e9m cuidar de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que medida se pode falar de uma vis\u00e3o interdisciplinar de \u00e9tica socioambiental?<\/p>\n<p>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne \u2013<\/strong> A elabora\u00e7\u00e3o de um discurso \u00e9tico no contexto da atual crise ecol\u00f3gica enfrenta, entre tantos desafios, a necessidade de superar o pensamento fragmentado e n\u00e3o raro dualista que orienta o nosso agir contempor\u00e2neo. Percebemos, por exemplo, que nas v\u00e1rias tend\u00eancias e modelos de \u00e9tica nem sempre h\u00e1 uma vis\u00e3o integrada da realidade, apresentando uma ou outra forma de reducionismo, seja antropol\u00f3gico, biol\u00f3gico, socioecon\u00f4mico ou religioso. Al\u00e9m disso, sabemos que a complexidade do nosso mundo pede que tenhamos uma necess\u00e1ria abertura a um pluralismo epistemol\u00f3gico na considera\u00e7\u00e3o das grandes quest\u00f5es que nos afetam, particularmente aquelas relacionadas ao meio ambiente. Ha, pois, a necessidade de uma colabora\u00e7\u00e3o de todos os saberes, um esfor\u00e7o conjugado no qual as diferentes aproxima\u00e7\u00f5es da realidade podem interagir numa tarefa interdisciplinar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como podemos compreender a rela\u00e7\u00e3o entre Teologia da Cria\u00e7\u00e3o, com paradigma ecol\u00f3gico, e o conceito geogr\u00e1fico de espa\u00e7o?<\/p>\n<p>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne \u2013 <\/strong>Na dire\u00e7\u00e3o do que mencionamos acima, a teologia tamb\u00e9m \u00e9 convocada a dar a sua contribui\u00e7\u00e3o na reflex\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o de um discurso \u00e9tico que ajude ao crist\u00e3o de hoje a pensar e agir cr\u00edtica e responsavelmente diante da problem\u00e1tica socioambiental. Partindo daquilo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio \u2013 a compreens\u00e3o b\u00edblico-crist\u00e3 da cria\u00e7\u00e3o em sua perspectiva integradora e relacional \u2013, a Teologia procura a media\u00e7\u00e3o de dados cient\u00edficos para expressar de forma atualizada a riqueza humanizadora de sua mensagem e, assim, contribuir no esfor\u00e7o comum para superar a crise ecol\u00f3gica atual. No debate sobre as quest\u00f5es ambientais, tem surgido com grande for\u00e7a o horizonte compreensivo sist\u00eamico que nos vem dos estudos da ecologia. Por outro lado, no \u00e2mbito da ci\u00eancia geogr\u00e1fica, uma categoria que tem sido incorporada \u00e0 discuss\u00e3o sobre desenvolvimento \u00e9 o conceito de espa\u00e7o, feito territ\u00f3rio. Pareceu-nos oportuno, na constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de um espa\u00e7o \u00e9tico em vista da supera\u00e7\u00e3o da crise socioambiental, estabelecer um di\u00e1logo com esses tr\u00eas saberes: o teol\u00f3gico, o ecol\u00f3gico e o geogr\u00e1fico, buscando uma intera\u00e7\u00e3o fecunda e enriquecedora entre esses tr\u00eas modos distintos de encarar a realidade.<\/p>\n<p><strong>Antropocentrismo unilateral<br \/>\n<\/strong><br \/>\nRespeitando o m\u00e9todo pr\u00f3prio de cada um e tendo o cuidado de n\u00e3o fazer uma mera transposi\u00e7\u00e3o conceitual de um campo para o outro, percebemos que h\u00e1, sim, possibilidade de articula\u00e7\u00e3o entre o legado da f\u00e9 crist\u00e3, o paradigma ecol\u00f3gico e o conceito de espa\u00e7o geogr\u00e1fico na elabora\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica socioambiental. Com a contribui\u00e7\u00e3o da ecologia (natureza compreendida como organismo vivo do qual o ser humano \u00e9 parte integrante dentro de um sistema de v\u00ednculos e inter-rela\u00e7\u00f5es) e da geografia (vis\u00e3o social de ambiente, feito territ\u00f3rio, constru\u00eddo pela a\u00e7\u00e3o humana), superamos tanto o antropocentrismo unilateral, desenvolvido pela racionalidade instrumental moderna, quanto o biocentrismo totalizador. Como numa estrada de m\u00e3o dupla, abre-se assim o caminho de um di\u00e1logo cr\u00edtico com a Teologia crist\u00e3 da cria\u00e7\u00e3o na procura de uma \u00e9tica capaz de compreender a realidade atual, planejar e orientar o agir humano para superar a crise socioambiental.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nIHU On-Line \u2013 Em quais aspectos o senhor busca realizar uma vis\u00e3o integrada e relacional do ser humano e da natureza?<\/p>\n<p>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne \u2013<\/strong> A \u00e9tica da coexist\u00eancia segue um dinamismo b\u00e1sico que \u00e9 o da integra\u00e7\u00e3o\u2013inclus\u00e3o, buscando sempre a complementaridade. Sabemos que a reflex\u00e3o \u00e9tica n\u00e3o pode renunciar ao \u201cprinc\u00edpio antropot\u00f3pico\u201d segundo o qual o sujeito moral da \u00e9tica \u00e9 sempre o ser humano, pois somente ele, enquanto ser de intencionalidade, levanta as quest\u00f5es, elabora reflex\u00f5es e pode agir responsavelmente. A especificidade do ser humano, face \u00e0s outras criaturas, \u00e9 a sua capacidade de intervir na natureza. Nesse sentido, podemos dizer que toda \u00e9tica tem um aspecto antropoc\u00eantrico. Por outro lado, enquanto ecol\u00f3gica, a \u00e9tica segue a orienta\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do paradigma ecol\u00f3gico, considerando a vida em todas as suas formas dentro da grande rede de rela\u00e7\u00f5es e interdepend\u00eancias da biosfera. A vida humana \u00e9 compreendida como parte de uma realidade maior, rejeitando-se, portanto, o dualismo ser humano\/natureza, desenvolvido pela racionalidade t\u00e9cnico-cient\u00edfica, em favor de um relacionamento respons\u00e1vel e harmonioso com o mundo natural no qual se reconhece um valor em si mesmo.<\/p>\n<p>Dito de outro modo, a \u00e9tica da coexist\u00eancia n\u00e3o concebe o relacionamento humano com o mundo natural em termos de \u201cser humano e natureza\u201d, e sim como \u201co ser humano na natureza\u201d. \u00c9 uma \u00e9tica que considera a ecosfera como oikos, a casa no interior da qual se partilha o dom da vida, a casa de todos, a casa dos seres humanos e a morada de todos os seres vivos.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nIHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o os principais desafios que a humanidade tem pela frente no que diz respeito ao espa\u00e7o de coexist\u00eancia?<\/p>\n<p>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne \u2013 <\/strong>S\u00e3o muitos os desafios. Ao lado do que j\u00e1 falamos sobre a necessidade de uma vis\u00e3o integrada ser humano e a natureza, \u00e9 importante ressaltar que a raiz que leva \u00e0 sistem\u00e1tica depreda\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 a mesma que causa as injusti\u00e7as contra os seres humanos. H\u00e1 uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a quest\u00e3o ecol\u00f3gica e o drama da injusti\u00e7a social que aflige tanta gente neste nosso planeta. As causas que levam \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica tamb\u00e9m marginalizam ambientalmente. Tomemos, por exemplo, a degrada\u00e7\u00e3o das \u00e1reas nativas das quais depende a sobreviv\u00eancia de in\u00fameras popula\u00e7\u00f5es tradicionais; ou as habita\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias das grandes favelas urbanas. Uma \u00e9tica ecol\u00f3gica n\u00e3o pode ficar alheia a essas quest\u00f5es. A preserva\u00e7\u00e3o do ambiente n\u00e3o acontecer\u00e1 se permanecerem as numerosas formas estruturais de pobreza que existem em todo o mundo. Sem justi\u00e7a social n\u00e3o haver\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o entre ser humano e natureza, pois h\u00e1 um v\u00ednculo estreito \u2013 uma interdepend\u00eancia, para usar um termo mais ecol\u00f3gico \u2013 entre prote\u00e7\u00e3o da natureza e justi\u00e7a social, entre ecologia e economia. Numa palavra, a quest\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 uma quest\u00e3o socioambiental.\u00a0 Aqui est\u00e1 um tra\u00e7o decisivo do espa\u00e7o da coexist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nIHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel buscar formas de sustentabilidades que integrem o cuidado com a natureza e a solidariedade com o ser humano, principalmente com os mais pobres?<\/p>\n<p>L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne \u2013 <\/strong>Acredito que sim, desde que seja reexaminado o conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel, incorporado nos discursos ecol\u00f3gicos e adotado nos documentos das grandes confer\u00eancias mundiais sobre esse tema. Um ponto cr\u00edtico \u00e9 a perman\u00eancia do fator crescimento econ\u00f4mico como gerador de desenvolvimento e como categoria base para se pensar o social. Uma sociedade que busca a todo custo o desenvolvimento \u2013 na l\u00f3gica do crescimento econ\u00f4mico \u2013 n\u00e3o pode ser uma sociedade sustent\u00e1vel porque est\u00e1 transgredindo os limites dos ecossistemas e esgotando as capacidades limitadas da biosfera. Al\u00e9m disso, falar em sustentabilidade implica tamb\u00e9m o campo das rela\u00e7\u00f5es sociais, pois a quest\u00e3o do desenvolvimento sustent\u00e1vel, al\u00e9m do meio ambiente, envolve tamb\u00e9m as formas sociais de apropria\u00e7\u00e3o e uso do ambiente (a categoria do espa\u00e7o, feito territ\u00f3rio, ajuda-nos a compreende esse processo), o que implica, entre outras coisas, legitimar atores e considerar a diversidade das formas culturais (na linha da geografia da diferen\u00e7a, que mencionamos acima). Estamos falando de um outro desenvolvimento, talvez um ecodesenvolviemento, como propunha I. Sachs , orientado para as necessidades reais das comunidades (em lugar de governado pelo mercado), em harmonia com a natureza e aberto \u00e0s mudan\u00e7as das estruturas sociais injustas.<\/p>\n<p><strong>Desenvolvimento sustent\u00e1vel no plural<br \/>\n<\/strong><br \/>\nOs efeitos nocivos da cria\u00e7\u00e3o de camar\u00e3o no litoral nordestino t\u00eam mostrado que esse n\u00e3o \u00e9 um caminho de desenvolvimento ideal para essa regi\u00e3o, da mesma forma como erradicar a floresta e substituir por campos para atividade pecu\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 o melhor uso do solo para a Amaz\u00f4nia. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 o respeito tanto \u00e0 diversidade biol\u00f3gica dos ecossistemas quanto \u00e0 pluralidade de culturas, constituindo a base de um \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d pensado no plural. Em vez de um modelo \u00fanico, devemos priorizar formas verdadeiramente sustent\u00e1veis de apropria\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os. A busca, portanto, de um desenvolvimento sustent\u00e1vel deve ter com base a sustentabilidade dos lugares e das pessoas. \u00c9 este o sentido de desenvolvimento que vamos encontrar na Carta da Terra: \u201cQue o nosso tempo seja lembrado por um compromisso firme de alcan\u00e7ar a sustentabilidade, pela luta pela justi\u00e7a e pela paz e pela celebra\u00e7\u00e3o da vida\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nexo indissol\u00favel entre a quest\u00e3o ecol\u00f3gica e a justi\u00e7a social Causas da marginaliza\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pela marginaliza\u00e7\u00e3o ambiental, observa L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro Cirne. \u00c9 fundamental superar o pensamento fragmentado e, muitas vezes, dualista que norteia o agir contempor\u00e2neo Por: M\u00e1rcia Junges CIRNE, L\u00facio Fl\u00e1vio Ribeiro. 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