{"id":32466,"date":"2012-08-02T22:30:45","date_gmt":"2012-08-02T22:30:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=32466"},"modified":"2012-08-02T22:30:45","modified_gmt":"2012-08-02T22:30:45","slug":"trabalho-do-padre-jacques-trudel-e-apresentado-em-video-documentario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/trabalho-do-padre-jacques-trudel-e-apresentado-em-video-documentario\/","title":{"rendered":"Trabalho do Padre Jacques Trudel \u00e9 apresentado em v\u00eddeo-document\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<h2><\/h2>\n<p>Confiram abaixo texto do coordenador do Mestrado em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o da Unicap, Prof. Dr. Gilbraz Arag\u00e3o, sobre um v\u00eddeo-document\u00e1rio de uma aluna de Jornalismo da Faculdade Maur\u00edcio de Nassau que enfocou o trabalho de incultura\u00e7\u00e3o da liturgia crist\u00e3 realizado pelo Padre Jacques Trudel, mais conhecido como Padre Jaime, ouvidor da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco.<\/p>\n<div>\u201cMostrem-me como dan\u00e7a um povo e eu lhes direi se sua civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 doente ou tem sa\u00fade\u201d (Conf\u00facio).<\/div>\n<div>Ouvi dizer que hoje \u00e9 dia das mulheres negras: muito apropriado pro que vou falar! A gente planta sementes e n\u00e3o sabe direito no que elas v\u00e3o dar&#8230; Dia desses, no curso de Teologia da Unicap, tivemos o prazer de conviver com o sorriso contagiante de uma menina linda e muito quietinha l\u00e1 da Mustardinha: Ang\u00e9lica Souza. Pois bem, neste m\u00eas Ang\u00e9lica apresentou, toda amostrada, como trabalho de conclus\u00e3o agora do seu curso de Jornalismo na Faculdade Joaquim Nabuco, o v\u00eddeo-document\u00e1rio &#8220;Dan\u00e7a, um culto ao Sagrado&#8221;, onde resgata, de maneira testemunhal e compartilhada, o trabalho de incultura\u00e7\u00e3o da liturgia crist\u00e3 realizado pelo Pe. Jacques Trudel e companheir@s l\u00e1 na par\u00f3quia dela, na periferia pobre do Recife &#8211; todavia uma regi\u00e3o rica em religiosidade e cultura afro-pernambucana, com importantes terreiros do nosso candombl\u00e9\/xang\u00f4. O filme, mostrando e problematizando a busca da beleza como reden\u00e7\u00e3o de uma comunidade empobrecida, o toque do\/no sagrado como re-anima\u00e7\u00e3o dos corpos alquebrados e reprimidos daquela gente majoritariamente &#8220;negra&#8221;, poderia invocar, como s\u00edntese, a famosa frase de Nietzsche: &#8220;Eu somente acreditaria em um Deus que soubesse dan\u00e7ar&#8221;!<\/div>\n<div>At\u00e9 fui convidado pra compor a banca de avalia\u00e7\u00e3o do trabalho de Ang\u00e9lica. N\u00e3o pude estar por causa do Congresso da Soter, mas foi at\u00e9 bom: a nota 10 que ela ganhou n\u00e3o poder\u00e1 ser questionada por influ\u00eancia de um f\u00e3 seu! O v\u00eddeo de Ang\u00e9lica revela como o pessoal do bairro, louvando o sagrado crist\u00e3o com os tra\u00e7os da cultura &#8220;afrolat\u00edndia&#8221;, aprendendo a respeitar e assumir os valores dan\u00e7antes que correm no &#8220;sangue&#8221;, conseguiu levantar a sua autoestima de gente e se descobrir amado mesmo por Deus, com seus corpos de negros e sua ginga afrodescendente. O document\u00e1rio tamb\u00e9m coloca a deixa da incultura\u00e7\u00e3o: uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa consegue se deixar encarnar por um grupo humano quando assume o seu jeito de viver e celebrar, recriando a sua identidade (lit\u00fargica, mas tamb\u00e9m catequ\u00e9tica e ministerial) em di\u00e1logo com as outras tradi\u00e7\u00f5es do grupo, num processo que os estudiosos laicos chamam de sincretismo &#8211; e explica como todas as culturas do mundo se desdobram. O cristianismo, que nos chegou t\u00e3o branco e helenizado (a despeito de um Jesus bailando pelas suas festas judaicas!), pode mesmo se refazer em torno de atabaques e dan\u00e7as &#8220;negras&#8221;? Quais seriam as semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre uma dan\u00e7a na igreja e outra do terreiro?! S\u00e3o quest\u00f5es que se vislumbram no roteiro.<\/div>\n<div>Al\u00e9m desses m\u00e9ritos antropol\u00f3gico e teol\u00f3gico, o trabalho ainda tem um outro, hist\u00f3rico: lembra que os cat\u00f3licos do Recife precisam recuperar e cuidar (pois \u00e9 isso, afinal, que pode converter de verdade algu\u00e9m \u00e0 f\u00e9) a mem\u00f3ria de muitos santos mission\u00e1rios que, malgrado seus limites ideol\u00f3gicos e pessoais, procurando seguir o Movimento do Hom\u00e3o da Galileia, aqui fizeram e fazem fermentar o Governo de Deus, como\u00a0Maur\u00edcio Parran na pastoral com as putas e dom\u00e9sticas (ou pastoral de promo\u00e7\u00e3o da mulher, pra sermos elegantes), Jaime Kometscher na luta com a comunidade de Bras\u00edlia Teimosa, Louren\u00e7o Rosebaugh com os moradores da rua (por causa de quem padeceu da mesma repress\u00e3o que vitimou o Padre Henrique), Ren\u00e9 Guerre e os padres oper\u00e1rios franceses na espiritualidade popular,\u00a0Tiago Thorlby no MST,\u00a0Jo\u00e3o Geisen dirigindo o seu t\u00e1xi e animando o Encontro de Irm\u00e3os&#8230; (Isso &#8220;sem contar as crian\u00e7as e as mulheres&#8221; mais da terra &#8211; de quem os anais oficiais n\u00e3o guardam nem os sobrenomes &#8211; como Lizete, Biluca, Ivone, Ana, Helena, Maria&#8230;). Ah, e entre muitos outros, Jacques Trudel.<\/p>\n<p>&#8220;Padre Jaime&#8221;, como \u00e9 conhecido e querido na Mustardinha, \u00e9 jesu\u00edta canadense\u00a0e doutor em teologia lit\u00fargica pelo Instituto Santo Anselmo (Roma), com a tese &#8220;Eucharistie et Vie Sociale&#8221;. Talvez j\u00e1 a\u00ed tenha descoberto que o lugar mais adequado pra um religioso fazer pol\u00edtica &#8211; afinal, &#8220;tudo \u00e9 pol\u00edtico, mesmo que o pol\u00edtico n\u00e3o seja tudo&#8221;, como dizia Mounier &#8211; \u00e9 no trato com o simb\u00f3lico, ajudando a emancipar o n\u00facleo \u00e9tico-m\u00edtico das comunidades, soltando as &#8220;asas do desejo&#8221; e libertando poeticamente as pessoas &#8211; pra engajamentos mais amplos na &#8220;p\u00f3lis&#8221;. Com efeito, a desaliena\u00e7\u00e3o e incultura\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos religiosos\u00a0\u00e9 a marca,\u00a0militante,\u00a0da pastoral de\u00a0Trudel (se uma menina negada e denegada v\u00ea as cores e ritmos de sua gente nas imagens e rituais sagrados da comunidade, sai da igreja empoderada pra ser mais altiva e exercitar santidade com toda a largueza do seu nariz &#8211; e n\u00e3o pra depender de santas de nariz empinado). Professor em diversas escolas da nossa regi\u00e3o, Jaime foi chefe da Teologia e da Pastoral da Unicap, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Liturgistas do Brasil,\u00a0por\u00e9m tornou-se famoso como vig\u00e1rio da Mustardinha &#8211; onde desenvolveu trabalho pioneiro de dan\u00e7a lit\u00fargica e encarna\u00e7\u00e3o da missa na cultura morena da gente. Trudel virou at\u00e9 Cidad\u00e3o do Recife, mas foi afastado da par\u00f3quia.<\/p><\/div>\n<div>\nCulturas e manifesta\u00e7\u00f5es culturais diferentes s\u00e3o consideradas problem\u00e1ticas quando vistas pela interpreta\u00e7\u00e3o depauperada de uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa. E a dan\u00e7a, ent\u00e3o, \u00e9 de modo geral uma fronteira delicada para os crist\u00e3os. A dan\u00e7a, dizia Plat\u00e3o, &#8220;\u00e9 um dom dos deuses. Ela deve ser consagrada aos deuses que a criaram&#8221;. Mas os romanos andaram degradando as artes, a dan\u00e7a inclusive, em seu imperialismo ruinoso. O cristianismo, na sua condena\u00e7\u00e3o desse mundo que apodrecia, principalmente com os imperadores ditos crist\u00e3os do s\u00e9c. IV, englobou as artes e dan\u00e7as. Santo Agostinho, j\u00e1 ele, condenava &#8220;esta loucura lasciva chamada dan\u00e7a, neg\u00f3cio do diabo&#8221;. Isso juntou-se a um dualismo grego que\u00a0inclusive tinha levado S\u00e3o Paulo a opor o esp\u00edrito aos sentidos e a desprezar o corpo e as suas express\u00f5es. A dan\u00e7a, por essas raz\u00f5es hist\u00f3ricas e antropol\u00f3gicas, perdeu sua for\u00e7a no Ocidente crist\u00e3o e, a partir do s\u00e9culo XII, foi banida da liturgia.<\/div>\n<div>\nSomente no s\u00e9culo XX a dan\u00e7a foi se recuperando em nossa cultura (vejam essa hist\u00f3ria no belo livro <a href=\"http:\/\/www.estantevirtual.com.br\/sebosaramago\/Roger-Garaudy-Dancar-a-Vida-64918064\" target=\"_blank\">Dan\u00e7ar a Vida<\/a>, de Roger Garaudy, amigo de Dom Helder) e, finalmente, a reforma lit\u00fargica cat\u00f3lica, ensejada pelo <a href=\"http:\/\/crunicap.blogspot.com.br\/2012\/07\/igreja-do-vaticano-ii.html\" target=\"_blank\">Conc\u00edlio Vaticano II<\/a> (1964), permitiu a considera\u00e7\u00e3o dos valores humanos e a reintrodu\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a na liturgia &#8211; como incremento simb\u00f3lico para melhor exprimir a proximidade amorosa e animadora do &#8220;Abb\u00e1&#8221; de Jesus. O problema \u00e9 que um grupo conservador, que foi derrotado nesse Conc\u00edlio, agora gostaria de opor novamente a Igreja e o mundo, o esp\u00edrito e o corpo. Essa trama global criou dificuldades &#8211; e exp\u00f4s a ousada e santa criatividade &#8211; da nossa Igreja local.<\/div>\n<div>\nEnt\u00e3o, o que o pessoal viveu na Mustardinha, com Trudel (que tem p\u00e9 no ch\u00e3o da periferia e cabe\u00e7a no vento da academia, estudou bem a <a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=dJbpBtiqafIC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=liturgia+frontal,+corbon&amp;source=bl&amp;ots=ozuh9bZDv_&amp;sig=XjfA35QwtaSCcKFBlda9dMmP8kA&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ei=4BAQUMPDB6LG6wGX3oCYCQ&amp;ved=0CDsQ6AEwAQ#v=onepage&amp;q=liturgia%20frontal%2C%20corbon&amp;f=false\" target=\"_blank\">liturgia de fonte<\/a>\u00a0e o <a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=LXhk1Vj9VLcC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=le+rite+zairois,+kabongo&amp;source=bl&amp;ots=zGQLrJcxZX&amp;sig=TaJyOfiuAUTBCKQnfXNQmCKya7Q&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ei=AQkQUJ2hLui16wHllIHYAw&amp;ved=0CDUQ6AEwAA#v=onepage&amp;q=le%20rite%20zairois%2C%20kabongo&amp;f=false\" target=\"_blank\">rito zairense<\/a>), foi um laborat\u00f3rio de experi\u00eancia eclesial e espiritual muito mais ampla e complexa do que eles mesmo imaginam&#8230; Fizeram hist\u00f3ria, no sentido de tornar a Igreja mais capaz de tocar nas pessoas, conforme a sua sensibilidade cultural, e fazer com que elas se sintam tocadas e amadas por Deus em seus corpos e emo\u00e7\u00f5es. N\u00e3o percam, pois, essa experi\u00eancia: escrevam, filmem, partilhem. Sigam o exemplo dessa te\u00f3loga em processo, que testemunhou sua pr\u00f3pria busca espiritual com destemor, em primeira pessoa e emprestando a voz a outros protagonistas, em um texto audiovisual que prenuncia logo outros &#8211; sobre como a dan\u00e7a vira religi\u00e3o, o profano ganha a qualidade de sagrado!<\/p>\n<p>Vir\u00e1 o tempo em que muita gente vai querer conhecer o trabalho de voc\u00eas e respeitar quem \u00e9 capaz de dizer, como Isadora Duncan, &#8220;Agora sou leve, agora eu voo&#8230; agora um deus dan\u00e7a em mim&#8221;. Tenho muito apre\u00e7o pelo caso da Mustardinha, em cujo movimento de evangeliza\u00e7\u00e3o aprendi muitas coisas &#8211; sobretudo que um que dan\u00e7a com outro soma sempre mais do que dois, pois criam um ponto de equil\u00edbrio, &#8220;entre e al\u00e9m&#8221;, que lhes permite apoio pra ultrapassar os limites dos seus corpos e se entrecruzar em coreografias e cirandas que nos abrem para outro espa\u00e7o, de um sagrado encarnado (literalmente!), em que somos sempre mais do que aparentamos. Parab\u00e9ns a Ang\u00e9lica e que ela mantenha, agora tamb\u00e9m como jornalista &#8220;nota 10&#8221;, a dignidade e leveza que toda dan\u00e7arina sabe ter.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confiram abaixo texto do coordenador do Mestrado em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o da Unicap, Prof. Dr. Gilbraz Arag\u00e3o, sobre um v\u00eddeo-document\u00e1rio de uma aluna de Jornalismo da Faculdade Maur\u00edcio de Nassau que enfocou o trabalho de incultura\u00e7\u00e3o da liturgia crist\u00e3 realizado pelo Padre Jacques Trudel, mais conhecido como Padre Jaime, ouvidor da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco. 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