{"id":32411,"date":"2012-08-01T23:17:04","date_gmt":"2012-08-01T23:17:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.unicap.br\/assecom1\/?p=32411"},"modified":"2012-08-02T14:31:55","modified_gmt":"2012-08-02T14:31:55","slug":"reitor-da-universidade-gregoriana-de-roma-da-aula-magna-na-unicap","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/reitor-da-universidade-gregoriana-de-roma-da-aula-magna-na-unicap\/","title":{"rendered":"Reitor da Universidade Gregoriana de Roma d\u00e1 aula magna na Unicap"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?ssl=1\"><img data-attachment-id=\"32421\" data-permalink=\"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/reitor-da-universidade-gregoriana-de-roma-da-aula-magna-na-unicap\/foto-28\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?fit=2592%2C1936&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2592,1936\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;2.8&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;iPhone 4&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1343842617&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;3.85&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;400&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.066666666666667&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"foto (28)\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?fit=300%2C224&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?fit=640%2C478&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-32421\" title=\"foto (28)\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?resize=640%2C477&#038;ssl=1\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?resize=1024%2C764&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?resize=300%2C224&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?resize=250%2C186&amp;ssl=1 250w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-28.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a>O Reitor da Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana de Roma, Padre Fran\u00e7ois Xavier Dumortier,\u00a0 proferiu na tarde desta quarta-feira (1\u00ba) uma aula magna por ocasi\u00e3o do \u00a05\u00ba Encontro Docente e 6\u00ba F\u00f3rum dos Funcion\u00e1rios da Unicap. A solenidade reuniu, no audit\u00f3rio G1, gestores, professores e funcion\u00e1rios. Na ocasi\u00e3o, a comunidade acad\u00eamica conheceu a nova marca dos jesu\u00edtas no Brasil atrav\u00e9s da exibi\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo que explicava o significado de cada um dos s\u00edmbolos que comp\u00f5em a marca.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?ssl=1\"><img data-attachment-id=\"32422\" data-permalink=\"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/reitor-da-universidade-gregoriana-de-roma-da-aula-magna-na-unicap\/foto-29-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?fit=2592%2C1936&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"2592,1936\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;2.8&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;iPhone 4&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1343842748&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;3.85&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;200&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.066666666666667&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"foto (29)\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?fit=300%2C224&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?fit=640%2C478&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-32422\" title=\"foto (29)\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?resize=300%2C224&#038;ssl=1\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?resize=300%2C224&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?resize=1024%2C764&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?resize=250%2C186&amp;ssl=1 250w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i2.wp.com\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto-292.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a>A mesa foi composta pelo Reitor da Unicap e novo presidente da Federa\u00e7\u00e3o Internacional das Universidades Cat\u00f3licas, Padre Pedro Rubens; pelo Bispo de Palmares, Dom Genival Saraiva; e pela professora Maria Aparecida Abr\u00e3o, do curso de Teologia. Al\u00e9m, claro, do Pe. Dumortier. O convidado estudou no Instituto de Ci\u00eancias Pol\u00edticas de Paris, onde tamb\u00e9m cursou Direito e especializou-se em Filosofia do Direito. No <em>Centre S\u00e8vres, <\/em>estudou Teologia e Filosofia e, em 1991, tornou-se diretor do 2\u00ba ciclo da institui\u00e7\u00e3o. Em 1997, assumiu a dire\u00e7\u00e3o geral, cargo que exerceu at\u00e9 2003, quando se tornou Provincial \u00a0Jesu\u00edta da Fran\u00e7a. Em setembro de 2010, foi nomeado pelo Papa Bento XVI Reitor da Gregoriana, a universidade cat\u00f3lica mais antiga do mundo.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o jesu\u00edta localizada em Roma tem 2.800 estudantes. E os n\u00fameros n\u00e3o deixam d\u00favidas do perfil internacional daquela IES. A maior parte dos alunos (3\/4) \u00e9 de estrangeiros vindos de 132 pa\u00edses. Mais da metade \u00e9 de n\u00e3o-europeus. A Gregoriana est\u00e1 organizada em seis faculdades: Teologia, Filosofia, Direito Can\u00f4nico, Hist\u00f3ria da Igreja, Ci\u00eancias Sociais e Missiologia; dois institutos: Espiritualidade e Psicologia; e seis centros.<\/p>\n<p>Pedro Rubens e Dumortier s\u00e3o amigos de longas datas. Eles se conheceram h\u00e1 mais de dez anos no <em>Centre S\u00e8rvres, <\/em>\u00e9poca em que o Reitor da Unicap fazia mestrado. &#8220;Ele fez o meu acompanhamento espiritual e nos tornamos amigos. Agora, vamos transformar nossa amizade em parcerias e projetos&#8221;, disse Pedro Rubens ao dar as boas-vindas ao amigo franc\u00eas.<\/p>\n<p>Ao come\u00e7ar a sua explana\u00e7\u00e3o, Dumortier disse, em portugu\u00eas, que estava muito feliz com a oportunidade de estar na Unicap. No discurso, ele destacou o car\u00e1ter singular de uma universidade &#8220;seja ela grande ou pequena, antiga ou recente&#8221;. Falou tamb\u00e9m dos desafios e quest\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o intelectual universit\u00e1ria. Ideias que foram ancoradas a partir da viv\u00eancia dele \u00e0 frente da Universidade Gregoriana.&#8221; O que est\u00e1 em jogo hoje nesta forma\u00e7\u00e3o \u00e9 compreender a mem\u00f3ria do passado para construir um novo olhar sobre o futuro&#8221;.<\/p>\n<p>Confira a apresenta\u00e7\u00e3o [<a href=\"https:\/\/www1.unicap.br\/assecom1\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Aula-Magna.pptx\">aqui<\/a>] ou a \u00edntegra do discurso do Padre Dumortier.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<div>Senhor Reitor,<\/div>\n<div>Senhoras e senhores Professores,<\/div>\n<div>E todos voc\u00eas, estudantes desta grande Universidade.<\/div>\n<div>Permitam-me, antes de mais nada, dizer-lhes minha alegria por encontrar-me aqui com voc\u00eas. Uma Universidade n\u00e3o \u00e9 nunca um lugar como os outros: n\u00e3o a visitamos e n\u00e3o nos encontramos nela como poderia se fazer em outros lugares. Pequena ou grande, antiga ou recente, uma Universidade tem sempre um car\u00e1ter singular:<\/div>\n<div>\n<div>com efeito, este ambiente re\u00fane aqueles que se esfor\u00e7am para refletir \u2013 e isso em todos os dom\u00ednios propostos ao desejo de conhecer e de se formar \u2013, aqueles que olham para o futuro \u2013 seu futuro pessoal e o futuro de um mundo que est\u00e1 sempre em constru\u00e7\u00e3o \u2013, aqueles que desejam compreender melhor o homem e sua vida \u2013 enfim, aqueles que s\u00e3o movidos pela busca da verdade&#8230;<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Um tal ambiente tem um \u201cn\u00e3o sei o que\u201d que faz dele um lugar \u00fanico e precioso entre todos. Um c\u00e9lebre jesu\u00edta, o Cardeal Martini, escrevia no \u201cSonho de Jerusal\u00e9m\u201d: \u201co que me entristece s\u00e3o as pessoas que n\u00e3o refletem, que se deixam levar pelas circunst\u00e2ncias&#8230;\u201d. Uma Universidade re\u00fane precisamente aqueles e aquelas que desejam refletir e que acreditam na for\u00e7a das ideias.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Parece-me que, desde suas origens, a primeira miss\u00e3o de uma Universidade foi a de oferecer \u00e0s pessoas que pensam um ambiente e meios para se entregar ao belo risco da intelig\u00eancia, sabendo que, como o escrevia ainda o Cardeal Martini, \u201caquele que reflete, progride\u201d. Eu gostaria de falar-lhes em sua l\u00edngua, mas n\u00e3o posso faz\u00ea-lo e pe\u00e7o que me desculpem.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\u00c9 a minha segunda passagem neste belo e grande pa\u00eds, mas antes de vir, descobri esta beleza e grandeza atrav\u00e9s de brasileiros que tive a alegria de encontrar. Foi assim que conheci o Reitor, quando ele era estudante em Paris e pude apreciar todas as qualidades de intelig\u00eancia e de cora\u00e7\u00e3o daquele que se tornou tamb\u00e9m um amigo. Hoje gostaria de agradecer-lhe por ter-me convidado a vir a esta Universidade. Lembrar isso n\u00e3o \u00e9 somente falar de um modo pessoal:<\/div>\n<div>\n<div>\u00e9 tamb\u00e9m lembrar que uma universidade n\u00e3o \u00e9 feita s\u00f3 de constru\u00e7\u00f5es, de regulamentos e de or\u00e7amentos: ela \u00e9 feita de homens e de mulheres, possui o rosto daqueles e daquelas que nela v\u00eam n\u00e3o somente como \u201cconsumidores\u201d de ci\u00eancia, mas para faz\u00ea-la viver. Finalmente, uma universidade s\u00f3 tem o sentido que lhe d\u00e3o aqueles e aquelas que nela ensinam, estudam e trabalham de diferentes maneiras<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Gostaria, no tempo que me cabe, de falar-lhes primeiramente da Universidade onde estou, o que ser\u00e1 um meio de dizer-lhes algumas das minhas convic\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 miss\u00e3o de uma universidade \u2013 a seguir, gostaria de evidenciar o que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do tempo que voc\u00eas podem viver aqui, isto \u00e9, o que est\u00e1 em jogo na \u201cexperi\u00eancia intelectual\u201d \u2013 enfim, enquanto homem de f\u00e9 e jesu\u00edta, gostaria de partilhar algumas reflex\u00f5es sobre\u00a0 o que est\u00e1 em jogo em nossas sociedades,\u00a0 a saber, a rela\u00e7\u00e3o entre a raz\u00e3o e a f\u00e9.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>A Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana\u00a0 n\u00e3o \u00e9\u00a0 uma universidade recente: foi santo In\u00e1cio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, que criou esta institui\u00e7\u00e3o que nas origens chamava-se: <em>Collegium <\/em><em>Romanum<\/em>, e que lhe era, conforme os testemunhos da \u00e9poca, \u201cprecioso como a pupila dos olhos\u201d. O <em>Collegium Romanum<\/em> abriu suas portas no dia 22 de fevereiro de 1551 como \u201cescola de gram\u00e1tica, de humanidades e de doutrina crist\u00e3\u201d.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Rapidamente ele foi chamado <em>Universitas Nationum<\/em> por causa da diversidade das origens de seus estudantes: desde 1572 havia 920 estudantes e, em 1600, mais de 2000. Homens c\u00e9lebres nela ensinaram ou estudaram:\u00a0 Suarez, Belarmino, Matteo Ricci, Boscovich&#8230; Alguns professores marcaram a hist\u00f3ria, como por exemplo: Christophorus Clavius,\u00a0 cujo 4\u00ba centen\u00e1rio da morte celebramos este ano.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Em 1579, o Papa Greg\u00f3rio XIII o nomeou na Comiss\u00e3o Pontifical para a reforma do calend\u00e1rio Juliano, comiss\u00e3o que entregou suas conclus\u00f5es em 1582, abrindo o caminho ao novo calend\u00e1rio chamado \u201ccalend\u00e1rio gregoriano\u201d. Se o <em>Collegium Romanum<\/em> p\u00f4de desempenhar tal papel \u00e9 porque tinha um corpo docente de grande qualidade, preocupado, nesse per\u00edodo de profundas transforma\u00e7\u00f5es, em formar homens que pudessem levar o Evangelho de Cristo a todas as fronteiras de seu tempo:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>essas fronteiras n\u00e3o eram somente geogr\u00e1ficas, mas tamb\u00e9m e talvez, sobretudo, intelectuais, culturais e religiosas. Um trabalho pedag\u00f3gico, criativo e refletido, realizou-se durante os primeiros cinquenta anos: a c\u00e9lebre <em>Ratio studiorum<\/em> de 1599 para os col\u00e9gios jesu\u00edtas de todo o mundo teve o <em>Collegium Romanum <\/em>\u00a0como lugar de refer\u00eancia e v\u00e1rios de seus professores como redatores.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>No centro dessa pedagogia, havia o desejo de dar uma forma\u00e7\u00e3o intelectual e humana que fosse \u201cintegral\u201d e que visasse a cultivar prioritariamente a intelig\u00eancia, a mem\u00f3ria e o julgamento.<\/div>\n<div>Eu me permiti lembrar essas origens da Gregoriana para dizer-lhes o quanto este enraizamento hist\u00f3rico, este passado que teve, sem d\u00favida, suas sombras, mas do qual retemos sobretudo os momentos luminosos,\u00a0 permanece presente hoje e, de algum modo, nos impulsiona.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Hoje a Gregoriana possui por volta de 2800 estudantes, dos quais um ter\u00e7o no terceiro ciclo. Tr\u00eas quartos dos estudantes n\u00e3o s\u00e3o italianos, mas v\u00eam de 132 pa\u00edses diferentes; mais da metade dos estudantes n\u00e3o s\u00e3o europeus. Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma no que concerne o corpo docente: tr\u00eas quartos dos professores \u201cest\u00e1veis\u201d n\u00e3o s\u00e3o italianos. Isso poderia ser Babel, mas n\u00e3o \u00e9 o caso: a maravilha de uma universidade t\u00e3o internacional, \u00e9 que todos acolhem a todos.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>Temos 6 Faculdades: Teologia, Filosofia, Direito Can\u00f4nico, Hist\u00f3ria da Igreja, Ci\u00eancias Sociais e Missiologia \u2013 2 Institutos: Espiritualidade e Psicologia \u2013 6 Centros: forma\u00e7\u00e3o de formadores ao sacerd\u00f3cio e \u00e0 vida consagrada, di\u00e1logo Judeus-crist\u00e3os, espiritualidade inaciana, f\u00e9 e cultura \u201cAlberto Hurtado\u201d, comunica\u00e7\u00e3o social, prote\u00e7\u00e3o de menores.<\/p>\n<div>\n<div>O que nos caracteriza?<\/div>\n<div>\n<div>\n<div><strong>Enquanto Universidade<\/strong>,\u00a0 devemos ser fi\u00e9is ao melhor da tradi\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria que sempre mostrou o quanto um trabalho intelectual rigoroso e vigoroso sup\u00f5e que se confie na capacidade humana de buscar a verdade, de encontr\u00e1-la, de viver em consequ\u00eancia.<\/div>\n<div>Como o sabemos, os desafios atuais \u2013 tanto nas nossas sociedades quanto na Igreja \u2013 n\u00e3o faltam: \u00e9 por isso que o trabalho universit\u00e1rio est\u00e1, de algum modo, \u201cem primeira linha\u201d.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>A forma\u00e7\u00e3o intelectual visa sempre \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo, quer dizer, a \u201cpensar acertadamente\u201d, que se exerce na humildade de uma raz\u00e3o que trabalha sem cessar. Sim, a universidade \u00e9, primeiramente, o lugar onde se aprende a pensar, isto \u00e9, a conhecer, a compreender, a discernir&#8230; isto \u00e9, definitivamente, orientar-se na vida e no mundo conforme o que permite ao homem ser o que ele \u00e9;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>estamos em <strong>Roma<\/strong>: esta situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, querida desde a origem, n\u00e3o \u00e9 nem um privil\u00e9gio, nem um constrangimento; ela me parece, antes, designar nossa responsabilidade. Com efeito, viver uma miss\u00e3o de estudante ou de professor em Roma abre \u00e0 dimens\u00e3o mais universal da Igreja. Roma n\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar o \u201ccentro administrativo\u201d da Igreja ou a sede de seu governo:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>In\u00e1cio de Loyola, este homem que tinha o cuidado de fazer entrar o espiritual no social e no hist\u00f3rico, queria que o <em>Collegium Romanum<\/em> formasse homens que levassem ao cora\u00e7\u00e3o do mundo o que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da Igreja. A situa\u00e7\u00e3o da Gregoriana \u00e9 a de ser e a de permanecer no cora\u00e7\u00e3o da Igreja para formar homens que v\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o do mundo. Como voc\u00eas o sabem, o cora\u00e7\u00e3o permite viver e amar:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>trata-se, pois, para n\u00f3s, de formar homens e mulheres que sejam \u201cviventes e amantes\u201d, que levem \u2013 pelo que dizem e pelo que vivem \u2013 o Evangelho de Cristo como uma palavra que vivifica e faz amar, uma palavra de vida e de amor;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>enquanto <strong>lugar de forma\u00e7\u00e3o <\/strong>de tantos homens e mulheres que ter\u00e3o amanh\u00e3 responsabilidades na e para a Igreja, parece-me que nossa primeira miss\u00e3o \u00e9 a de formar homens e mulheres que busquem Deus e sejam testemunhas de Cristo. Vivemos num mundo que nos pede saber \u201cdar a raz\u00e3o da esperan\u00e7a que nos habita\u201d (1 Pd 3,15). N\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 a maior aventura da vida humana, alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 da natureza nem do c\u00e1lculo, nem do ef\u00eamero, mas algo que se vive como um engajamento e como uma esperan\u00e7a?<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Longe de se opor \u00e0 intelig\u00eancia, a f\u00e9 requer a intelig\u00eancia: \u00e9 por isso que n\u00e3o devemos temer o belo risco da intelig\u00eancia, mesmo se sabemos tamb\u00e9m o quanto \u00e9 importante esta outra forma de intelig\u00eancia \u2013 a intelig\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e0s vezes permite ver o que o esp\u00edrito humano ainda n\u00e3o percebeu.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Quando consideramos nossa miss\u00e3o, penso que nos \u00e9 preciso uma clara consci\u00eancia do que o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Karl Jaspers chamava, num pequeno livro, \u201ca situa\u00e7\u00e3o espiritual de nosso tempo\u201d, isto \u00e9, os pontos cruciais que devemos afrontar com as armas da raz\u00e3o e da intelig\u00eancia. Gostaria de mencionar tr\u00eas:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>o <strong>saber<\/strong>: para alguns, saber \u00e9 acumular conhecimentos, reportar-se a ele sob a forma de um tratamento de dados j\u00e1 existentes, proceder por empr\u00e9stimo ao pensamento dos outros&#8230; em suma, obedecer \u00e0 \u201cpuls\u00e3o epistemol\u00f3gica\u201d de nossa cultura moderna. E pode-se saber muito sem nada compreender: com efeito, a verdade n\u00e3o \u00e9 uma soma de informa\u00e7\u00f5es a triar, o sentido da vida n\u00e3o se encontra numa enciclop\u00e9dia, a f\u00e9 como o amor n\u00e3o s\u00e3o o fruto de uma demonstra\u00e7\u00e3o&#8230;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Mais do que nunca, o que importa \u00e9 pensar por si mesmo, isto \u00e9, \u00e0s vezes \u00e9 preciso consentir em n\u00e3o saber mais nada, a n\u00e3o dominar mais nada para que se abra o caminho para outra coisa&#8230; para o que tradicionalmente se chamava\u00a0 \u201c o Verdadeiro, o Belo e o Bem\u201d&#8230;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div><strong>a globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>: este alargamento do campo de nossas preocupa\u00e7\u00f5es que \u00e0s vezes chamamos \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d corre o risco de nos fazer sobrevoar de um assunto a outro, de um canto do mundo a outro, de uma emo\u00e7\u00e3o a outra, de tal modo se abriu\u00a0 o espa\u00e7o sem limite aparente. Tudo e todos parecem pr\u00f3ximos&#8230; Ora, precisamente nesse contexto e com todas as possibilidades oferecidas, parece-me que \u00e9 importante n\u00e3o perder de vista o ponto determinante de uma forma\u00e7\u00e3o \u00e0 interioridade e \u00e0 profundidade:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>sem interioridade e sem profundidade n\u00e3o h\u00e1 verdadeira reflex\u00e3o poss\u00edvel; \u00e9 preciso viver interiormente para que nossas escolhas e nossos engajamentos tenham, verdadeiramente, uma terra onde enraizar-se.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div><strong>o presente<\/strong>: em nossa cultura que privilegia o imediato, parece-me importante ser homens que n\u00e3o perdem a mem\u00f3ria de um passado que frequentemente n\u00e3o entregou tudo o que podia dar, seu \u201cinacabado\u201d (Ricoeur) e, al\u00e9m do mais, ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio se lembrar do que est\u00e1 escrito na entrada do campo de Dachau: \u201cquem ignora o passado est\u00e1 condenado a repeti-lo\u201d?<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Da nossa capacidade de aprender com o passado depende nosso desejo de um futuro que n\u00e3o seja o simples prolongamento do ontem, mas que nas\u00e7a de certa \u201cvis\u00e3o\u201d, de certo \u201csonho\u201d como pudera expressar Martin Luther King. Se h\u00e1 uma coisa da qual muitos \u201csofrem\u201d hoje, \u00e9 a falta de mem\u00f3ria e a falta de \u201cvis\u00e3o\u201d. Ora, o que est\u00e1 em jogo numa forma\u00e7\u00e3o intelectual e universit\u00e1ria \u00e9 precisamente fazer compreender as implica\u00e7\u00f5es de uma mem\u00f3ria viva do passado e de um olhar novo sobre o futuro a construir.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>A raz\u00e3o de ser de uma Universidade s\u00e3o os estudantes, seus estudantes. Deixem-me fazer-lhes uma confid\u00eancia: quando estou no meu escrit\u00f3rio, tomado por tarefas administrativas, lidando com problemas de todo tipo que v\u00e3o de estudantes a or\u00e7amento e aos pr\u00e9dios, saio para ver os estudantes que fazem uma pausa entre dois cursos&#8230;. retomo consci\u00eancia de que n\u00e3o sou um manager, ou um mediador, ou um \u201csolucionador de problemas\u201d&#8230;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Compreendo de novo o sentido de meu trabalho e de minha miss\u00e3o: estou l\u00e1 por causa deles e para eles&#8230; e volto ao meu escrit\u00f3rio com um pouco mais de coragem! Sim, a raz\u00e3o de ser de uma Universidade s\u00e3o os estudantes, mas eles s\u00e3o, eles mesmos, os primeiros respons\u00e1veis de sua forma\u00e7\u00e3o. E gostaria de dizer-lhes tr\u00eas das minhas convic\u00e7\u00f5es quanto a este tempo de suas vidas que voc\u00eas, estudantes, passam numa Universidade: \u00e9 uma experi\u00eancia intelectual, \u00e9 o tempo em que se desenvolve a aptid\u00e3o ao di\u00e1logo, \u00e9 um compromisso.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>O trabalho intelectual \u00e9, ao menos a meu ver, uma verdadeira e profunda <strong>experi\u00eancia intelectual<\/strong>: falo de experi\u00eancia n\u00e3o no sentido de um acontecimento pontual, mas no sentido alem\u00e3o do termo: eine Erfahrung, isto \u00e9, viver um caminho, trilhar um caminho, aceitar a lentid\u00e3o dessa marcha que \u00e9 um caminhar nos passos de outrem, caminhar atravessado por lugares novos, que vai em frente sem que a destina\u00e7\u00e3o seja sempre clara.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>De certo modo, a experi\u00eancia intelectual \u00e9 um caminho sem fim. Em nossa sociedade tecnicista somos, \u00e0s vezes, obcecados pela efic\u00e1cia, pelo resultado, pela utilidade: a experi\u00eancia intelectual obedece a uma outra l\u00f3gica em que encontro quatro condi\u00e7\u00f5es que um grande fil\u00f3sofo e um te\u00f3logo norte-americano, Bernard Lonergan, especificava assim: seja atento, seja inteligente, seja razo\u00e1vel e seja respons\u00e1vel. Seja atento, isto \u00e9, tenha disponibilidade interior que deixa o esp\u00edrito livre para se maravilhar e descobrir:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\u00e9 a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para uma verdadeira presen\u00e7a ao que adv\u00e9m, ao que n\u00e3o \u00e9 program\u00e1vel&#8230; Seja inteligente, isto \u00e9,\u00a0 n\u00e3o tenha uma intelig\u00eancia ociosa, mas exer\u00e7a-a, pois \u00e9 nesse exerc\u00edcio que voc\u00ea a desenvolver\u00e1; a intelig\u00eancia \u00e9 paciente e cr\u00edtica: ela necessita de tempo para se exercer e n\u00e3o elimina nada de seu campo de exame&#8230; Seja razo\u00e1vel, isto \u00e9, use de sua raz\u00e3o e aceite reconhecer seus limites, limites aos quais \u00e9 preciso afrontar para poder avan\u00e7ar&#8230; Seja respons\u00e1vel, isto \u00e9, saiba que muito depende de voc\u00ea:<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>depende de voc\u00ea desenvolver tudo o que voc\u00ea \u00e9 e possui como dons e capacidades, depende de voc\u00ea preparar hoje seu pr\u00f3prio futuro e o futuro dos que ter\u00e3o confian\u00e7a em voc\u00ea&#8230;<\/div>\n<div>N\u00e3o \u00e9 somente o tempo de uma experi\u00eancia intelectual que ningu\u00e9m far\u00e1 no seu lugar, \u00e9 tamb\u00e9m o tempo em que se desenvolve a aptid\u00e3o ao <strong>di\u00e1logo<\/strong>. Falar assim, \u00e9 falar de tudo o que se vive na experi\u00eancia intelectual, mas tamb\u00e9m na vida do que cr\u00ea e na experi\u00eancia espiritual:<\/div>\n<div>\n<div>o di\u00e1logo nasce l\u00e1 onde, recusando a lei do \u201ccada um por si\u201d ou a imperiosa necessidade do \u00fanico cuidado consigo ou ainda a armadilha individualista de centrar-se em si mesmo, cada um se abre ao que o outro \u00e9 na admira\u00e7\u00e3o do que nos \u00e9 comum e no respeito do que nos diferencia.<\/div>\n<div>Voc\u00eas o sabem como eu: falamos diferentemente dos outros conforme o caso, se falamos deles ou se falamos com eles! H\u00e1 uma bel\u00edssima cita\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt a respeito de Jaspers e de sua mulher Gertrud, que n\u00e3o posso deixar de evocar:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\u201cdesenvolveu-se e exerceu-se sua aptid\u00e3o incompar\u00e1vel ao di\u00e1logo, a espl\u00eandida exatid\u00e3o da escuta, a constante disposi\u00e7\u00e3o a se explicar, a paci\u00eancia de permanecer na quest\u00e3o debatida; e cada vez mais ainda a capacidade de atrair no espa\u00e7o do di\u00e1logo o que somos inclinados a calar, de fazer disso alguma coisa que merece ser dita e assim, transformar, alargar, afiar tudo na palavra e na escuta\u201d (H. Arendt, <em>Vies politiques <\/em>Paris, Gallimard, 1974, p.91).<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Esse di\u00e1logo vive-se em toda parte: na rela\u00e7\u00e3o com os grandes textos da tradi\u00e7\u00e3o intelectual, na rela\u00e7\u00e3o entre os professores e voc\u00eas, de voc\u00eas com os professores, na rela\u00e7\u00e3o com o Senhor, na rela\u00e7\u00e3o entre voc\u00eas&#8230;\u00a0 Creio que \u00e9 importante aprender a referir-se a outrem: \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cescola do ouvido\u201d que leva a escutar, mas tamb\u00e9m a falar, a ouvir, mas tamb\u00e9m a se fazer ouvir, a se calar, mas tamb\u00e9m a ousar a pr\u00f3pria palavra quando o sil\u00eancio gritar&#8230;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Este tempo de experi\u00eancia intelectual se vive tamb\u00e9m como um <strong>compromisso<\/strong>: digo compromisso porque n\u00e3o se pode viver o que implica a vida universit\u00e1ria, poupando-se, limitando sua implica\u00e7\u00e3o ao m\u00ednimo estritamente requerido. Creio na generosidade da intelig\u00eancia que \u00e9 uma esp\u00e9cie de el\u00e3 de toda a pessoa. Para mim, n\u00e3o est\u00e1 sem analogia com o que \u00e9 requerido do retirante no in\u00edcio dos <em>Exerc\u00edcios <\/em><em>Espirituais<\/em>:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\u201cum cora\u00e7\u00e3o largo e uma grande generosidade\u201d. Sem esta generosidade, sem esta abertura de si, sem esta capacidade a implicar-se, corre-se o risco de constituir-se em si e ao redor de si um pequeno mundo que ser\u00e1 rapidamente muito intrincado. Gostei muito de ler recentemente que o fil\u00f3sofo franc\u00eas Jean-Fran\u00e7ois Lyotard &#8211; que havia popularizado o conceito de p\u00f3s-modernidade &#8211; preferia \u00e0 quest\u00e3o: \u201co que \u00e9 a filosofia?\u201d esta outra quest\u00e3o: \u201co que \u00e9 filosofar?\u201d.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Como voc\u00eas veem, a mudan\u00e7a \u00e9 importante: n\u00e3o se trata de considerar a filosofia como uma disciplina que, sob diferentes aspectos, pode ou deve ser o objeto de um saber: hist\u00f3ria da filosofia, filosofia das ci\u00eancias, filosofia moral&#8230; e podemos prosseguir com uma tal enumera\u00e7\u00e3o! Trata-se do ato de filosofar, do \u201cfilosofar\u201d como um compromisso e uma a\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>E parece-me fundamental viver assim a filosofia em sociedades que consideram frequentemente como essenciais quest\u00f5es que s\u00e3o na realidade secund\u00e1rias e onde muitos seguem cegamente modas e ventos, quaisquer que sejam as varia\u00e7\u00f5es da moda e as mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o dos ventos. Tal \u00e9 o caminho em que se trata de pensar por si mesmo sem aceitar os \u201cpr\u00eat-\u00e0-porter\u201d ideol\u00f3gicos, em que avan\u00e7amos aguilhoados por quest\u00f5es que carregamos e com o desejo de compreender melhor o que se come\u00e7ou a conhecer:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\u00e9 o caminho da liberdade de esp\u00edrito e da busca da verdade. E se voc\u00eas me permitem cito um outro fil\u00f3sofo franc\u00eas, Eric Weil dizendo: \u201ca tradi\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 colocar-se sempre em quest\u00e3o\u201d, expressando assim o quanto a experi\u00eancia intelectual se alimenta sem cessar de perguntas e de questionamentos que traduzem a sede de sentido e a fome de verdade que s\u00e3o as do homem.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>A imagem do caminho, a import\u00e2ncia do di\u00e1logo, a exig\u00eancia do compromisso: s\u00e3o<\/div>\n<div>tr\u00eas aspectos da vida intelectual e da vida universit\u00e1ria que me parecem conduzir-nos a uma conjuntura crucial: a rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a raz\u00e3o. O Papa Bento XVI n\u00e3o cessa de lembrar-nos: h\u00e1 quase dois anos, em seu discurso em Westminster Hall, no dia 17 de setembro de 2010, dizia:<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\u201cqueria sugerir que o mundo da raz\u00e3o e da f\u00e9, o mundo da racionalidade secular e o mundo da cren\u00e7a religiosa reconhe\u00e7am que necessitam um do outro, que n\u00e3o devem temer entrar num profundo e permanente di\u00e1logo, e isso para o bem de nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Certamente, n\u00e3o se pode reprovar o cristianismo \u2013 e particularmente a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica \u2013 de desconfiar da raz\u00e3o: muito pelo contr\u00e1rio!<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>Diante da irracionalidade difusa que se insinua na cultura ocidental, no meio de sociedades complexas e fr\u00e1geis que perdem seus marcos fundamentais, a Igreja e os crist\u00e3os n\u00e3o cessam de lembrar a import\u00e2ncia da raz\u00e3o:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>esta faz a grandeza do homem capaz de pensar por si mesmo e desejoso de buscar a verdade, do ser humano capaz de buscar e encontrar pontos de refer\u00eancia para uma a\u00e7\u00e3o reta e justa e desejoso de guiar-se conforme o que \u00e9 o mais universal, do homem capaz de denunciar o que ultraja a liberdade e a dignidade do homem e desejoso de construir com outros uma sociedade em que o respeito de cada um seja uma pedra angular&#8230;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\u00c9 uma tal concep\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o que leva a recusar uma redu\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o \u00e0 pura raz\u00e3o t\u00e9cnica e instrumental, a consider\u00e1-la priorit\u00e1ria ou exclusivamente sob seu aspecto operat\u00f3rio. Uma certa mentalidade racionalista, negadora de tudo o que escapa ao seu controle, reduz a raz\u00e3o \u00e0 \u00fanica dimens\u00e3o dela mesma: \u00e9 a raz\u00e3o \u201c\u00fatil\u201d que quer resolver os problemas, \u00e9 a raz\u00e3o eficaz que se mede em termos de custos e de resultados.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Podemos tomar um exemplo: a morte n\u00e3o \u00e9 somente um problema que se deve enfrentar do ponto de vista da seguran\u00e7a urbana, da pol\u00edtica de sa\u00fade, da organiza\u00e7\u00e3o dos transportes e da rede de estradas&#8230; \u00e9 tamb\u00e9m um acontecimento que faz parte da condi\u00e7\u00e3o humana, que coloca a cada um de n\u00f3s a quest\u00e3o do sentido de nossa exist\u00eancia pessoal e comunit\u00e1ria&#8230; e esta interroga\u00e7\u00e3o fundamental n\u00e3o \u00e9 \u201cfora do dom\u00ednio\u201d da raz\u00e3o&#8230; Ser\u00e1 necess\u00e1rio acrescentar que toda nossa tradi\u00e7\u00e3o espiritual testemunha que a busca de Deus mais radical nunca prescinde da raz\u00e3o humana?<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Numa \u00e9poca em que sempre corremos o risco de passar do racionalismo mais estreito ao fundamentalismo mais ing\u00eanuo, compreendemos a import\u00e2ncia do la\u00e7o entre f\u00e9 e raz\u00e3o: nas sociedades europeias que vivem a n\u00e3o evid\u00eancia de Deus, \u00e9 fundamental desejar e poder dar as raz\u00f5es da pr\u00f3pria f\u00e9. Trata-se, em definitivo, de entrar mais profundamente no mist\u00e9rio de Deus que se revela e se d\u00e1 ao cora\u00e7\u00e3o e \u00e0 intelig\u00eancia do homem.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>E n\u00f3s o sabemos tamb\u00e9m: tudo n\u00e3o se explica conforme uma certa raz\u00e3o: \u00e9 assim que o amor tem raz\u00f5es que a pr\u00f3pria raz\u00e3o desconhece&#8230; o dom de si por uma causa humanit\u00e1ria ou na vida religiosa, o dom de si at\u00e9 o sacrif\u00edcio da pr\u00f3pria vida obedece a \u201cl\u00f3gicas\u201d que t\u00eam seu rigor e seu sentido, mas parecem insensatas aos olhos de uma raz\u00e3o que seria a do c\u00e1lculo e a da utilidade.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>N\u00e3o seria ent\u00e3o necess\u00e1rio dizer que a racionalidade mais secular precisaria que a experi\u00eancia humana mais radical \u2013 a experi\u00eancia de Deus buscado e amado \u2013 lhe desse uma vis\u00e3o nova e diferente? A raz\u00e3o daquele que cr\u00ea pode ajudar a ver e a escutar o que n\u00e3o se pode ver nem escutar sen\u00e3o com os olhos e os ouvidos que aprenderam a ver o invis\u00edvel e a escutar o que corremos o risco de nunca poder escutar.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Reconhecendo isso, o fil\u00f3sofo J\u00fcrgen Habermas dizia: \u201c\u2019uma vis\u00e3o religiosa do mundo\u2019 \u00e9 capaz de trazer alguma coisa de essencial \u00e0 sociedade secularizada\u201d. No caminho da raz\u00e3o que \u00e9 o do homem, a experi\u00eancia e a tradi\u00e7\u00e3o religiosas n\u00e3o s\u00e3o sup\u00e9rfluas&#8230;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>Atrav\u00e9s do que eu lhes disse, ou antes confiei, o que me parece importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Gregoriana, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia intelectual ou em rela\u00e7\u00e3o ao elo entre raz\u00e3o e f\u00e9 \u2013 voc\u00eas compreenderam o que acredito ser nossa tarefa hoje:<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>&#8211; somos portadores do que nossa tradi\u00e7\u00e3o intelectual e crist\u00e3 nos permitiu pensar e viver quanto \u00e0 busca da verdade e \u00e0 paix\u00e3o pela liberdade, quanto ao cuidado da raz\u00e3o e das exig\u00eancias do homem: essa tradi\u00e7\u00e3o que nos conduz hoje a ter que pensar um humanismo moderno que esteja \u00e0 altura dessa tradi\u00e7\u00e3o;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>&#8211; da qualidade de nossa presen\u00e7a a este tempo da hist\u00f3ria, ao que faz a sua singularidade e ao que constitui os seus desafios, depende a qualidade de nosso testemunho de crist\u00e3os vivendo conforme a express\u00e3o de Emmanuel Mounier \u201cum cristianismo aberto (<em>de grand air<\/em>)\u201d que d\u00e1 aos homens e \u00e0s mulheres de hoje o gosto pelas coisas de Deus e o desejo do Cristo;<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>&#8211; ser-nos-\u00e1 preciso sempre as duas \u201casas\u201d da raz\u00e3o e da f\u00e9 para ir al\u00e9m do que acreditamos saber, compreender e dominar&#8230; e teremos necessidade destes dois p\u00e9s da racionalidade secular e da experi\u00eancia da f\u00e9 para avan\u00e7ar neste caminho que, para retomar os termos do Papa Bento XVI, \u00e9 o de \u201cum di\u00e1logo profundo e permanente e isso para o bem de nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><strong>Fran\u00e7ois-Xavier Dumortier s.j<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Reitor da Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana de Roma, Padre Fran\u00e7ois Xavier Dumortier,\u00a0 proferiu na tarde desta quarta-feira (1\u00ba) uma aula magna por ocasi\u00e3o do \u00a05\u00ba Encontro Docente e 6\u00ba F\u00f3rum dos Funcion\u00e1rios da Unicap. A solenidade reuniu, no audit\u00f3rio G1, gestores, professores e funcion\u00e1rios. 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